Histórias que a Vida Conta


Como era previsível, as eleições primárias do PS terminaram com a vitória expressiva de António Costa, que alcançou cerca de 68% dos votos dos militantes e simpatizantes inscritos do Partido contra 32% de António José Seguro. Como escrevi na minha última crónica, o factor decisivo para o resultado eleitoral nas primárias residia neste facto simples e óbvio: saber qual dos candidatos era, para os eleitores, o mais provável garante de uma vitória clara e concludente nas legislativas de 2015. E, ponderadas as características pessoais dos contendores, analisados os respectivos perfil e historial, as provas dadas ao longo do tempo de militância, não havia dúvidas acerca da opinião maioritária dos eleitores. O incontestável triunfo eleitoral de Costa facilitar-lhe-á a (ainda assim pesada) tarefa de voltar a unir o partido e sarar as feridas abertas na conclusão de uma longa e dura campanha eleitoral, com três debates agressivos, pontuados por ataques pessoais e de carácter, que deixaram marcas, visíveis, aliás, no implacável discurso de vitória de António Costa que se absteve de pronunciar, sequer, o nome do seu oponente.
Penso que o resultado seria sempre o mesmo, mas o terceiro e último debate entre os dois candidatos, realizado na RTP, foi manifestamente infeliz para Seguro. Há afirmações que, em política, se pagam muito caro, principalmente se o rival não as deixa sem resposta. Refiro-me à parte do “frente a frente” em que António José Seguro pretendeu fazer o discurso da separação entre a política e os “negócios”. Tema relevante que merece debate aprofundado e reflexão séria, conhecidas como são as intercessões mais ou menos promíscuas e imorais que se estabelecem entre esses dois polos, fonte de corrupção e de agenciamento de interesses por parte de políticos e ex-políticos. Mas Seguro abordou o tema de forma muito infeliz, ao pretender desferir um ataque contra os “históricos” do PS, a partir de uma entrevista de Nuno Godinho de Matos, adepto de António Costa, a propósito da sua (não) intervenção no âmbito de um órgão consultivo do BES, onde “entrava mudo e saía calado”. Tratou-se, com efeito, de uma entrevista caricata – mas se o ridículo matasse, já não haveria políticos vivos! - que, no entanto, não consente, em si mesma, extrapolações quanto à discussão da temática do  conluio de apoiantes históricos do Partido com o poder económico.
Por outro lado, Seguro foi vítima de um complot dos “históricos do PS. Uma “santa aliança”, que juntou o candidato António Costa e figuras “notáveis” do PS, a culminar com o conselho “assassino” de Mário Soares, publicitado três dias antes do acto eleitoral: “Seguro, se quisesse ter um gesto de patriotismo, em vez de dizer asneiras, como está a dizer, demitia-se (…)” – in “Público”, de 25 de Setembro, pág. 48. Estes factos conjugados contribuíram, por certo, para o acentuar de uma descolagem na ponta final da campanha.
Registe-se, aliás, o grande esforço, a luta insana – e para muita gente surpreendente – que Seguro travou na defesa da sua liderança. Considerando-se injustiçado, revelou uma fibra de combatente que não lhe era conhecida, distante do perfil de líder errático e pouco determinado. Talvez tenha sido esse, aliás, o pecado original de António José Seguro, por ele confessado quando deu o tiro de partida para a campanha das “primárias”, ao afirmar que sentira necessidade de se “anular” para manter o partido unido. Por outras palavras, preferiu o compromisso à crítica franca e ao debate, abertos ao passado recente do PS. Fez mal!
Mas apareceu António Costa e o resultado final ficou escrito no momento em que este desafiou a liderança de Seguro…
Todavia, Seguro não sai de cena sem deixar uma marca – no partido e na própria democracia. Na minha opinião, o grande legado que Seguro acabou por deixar (talvez malgré lui) consistiu no lançamento da iniciativa das “primárias” para a escolha do primeiro-ministro. Como muitos têm assinalado, de ora em diante, nada poderá ficar na mesma, ao menos no que se refere aos partidos com vocação de poder.
E, já agora, sublinhe-se ainda a correcção do discurso de saída de António José Seguro. Como alguém escreveu, na hora da derrota, Seguro despediu-se do partido com dignidade. Bem diferente do candidato que, nos debates, pecou por excesso, no tom e na substância dos ataques, deixando uma imagem de agressividade quase destemperada que levou alguém a qualificá-lo jocosamente como um “calimero furibundo”.
Mas, dito isto, repito que António Costa tem um carisma, uma experiência de gestão, uma capacidade de mobilização e de gerar consensos muito superiores a Seguro. A coligação partidária, agora no Governo, tem, por isso, razões de sobra para estar descontente e receosa com o desfecho das primárias no PS. Se as eleições legislativas fossem dentro de três meses, admito que o PS de Costa sentisse algumas dificuldades em consequência das feridas abertas e ainda não cicatrizadas no tecido partidário, como rescaldo das duras pugnas eleitorais. Mas um ano é muito tempo e uma vitória tão ampla e indiscutível facilita o futuro próximo de Costa, que vai ter tempo suficiente para limitar estragos e reparar danos. Afinal, o cheiro a poder é muito sedutor e apelativo, pelo que vamos assistir a discretas deserções e a sinuosas mudanças de campo, a par de vigorosas transferências de lealdades e simpatias, com apressadas justificações e juras de fidelidade.
Reconheça-se, porém, que é compreensível, do ponto de vista humano, o sentimento de vitimização de Seguro. Na verdade, fosse qual fosse o resultado das “primárias”, haveria uma forte probabilidade de o respectivo vencedor, ainda que fosse Seguro, poder vir a triunfar nas legislativas, em face da impopularidade do Governo. E, se não tivesse sido desafiado e derrotado dentro da sua própria família política, Seguro prosseguiria a sua senda algo titubeante, e de vitória tímida em tímida vitória, poderia legitimamente aspirar a chegar ao Palácio de São Bento, ambição que alimentou o sonho dos seus três últimos anos.
 Eis senão quando, um camarada por quem nunca nutriu especial simpatia, lhe veio “roubar o seu pião”. Porém, um profissional da política deve saber que não se pode indignar por ver disputada a sua liderança por quem se julgue mais dotado e capaz, e, nos tempos que vão correndo, mais competente na arte de comunicar. E, aí, Seguro, na hora da despedida, foi certeiro e correcto ao proclamar: “o PS escolheu o seu candidato a primeiro-ministro, está escolhido. Ponto final!”
Costa foi um melhor lançador, não do pião, mas da palavra: exibiu melhor a sua imagem, lançou mais eficazmente a sua mensagem. Qual ela seja, ver-se-á!