O lado positivo do confinamento

Com a experiência do confinamento foram descobertas novas palavras e novas atitudes que fazem agora parte de um longo rosário: máscara, gel, teste, zaragatoa, videoconferência, online, aperitivo à distância, beijos volantes, lavar as mãos, guardar a distância, teletrabalho... Além disso, mudámos de hábitos, fechámo-nos dentro das paredes das nossas casas, pusemos em causa a nossa maneira de viver, fizemos apelo à nossa criatividade, tentámos sobreviver. Pusemo-nos a fazer pão à maneira das nossas avós, a ponto de se terem esgotado os stocks da farinha e do fermento, e descobrimos o prazer que é amassar o pão com as nossas próprias mãos. Arrumámos a cave, a garagem, as águas furtadas e descobrimos tesouros que tencionamos vender num próximo mercado de velharias. Decidimos deitar fora objetos que já tínhamos esquecido que existiam e o nosso espaço de habitação ficou maior, pelo menos em aparência e, no fim, exclamámos aquela velha frase: como se pode acumular tanta porcaria numa vida! Felizmente que funcionários do lixo não confinaram! Causámos admiração às nossas mulheres ao bricolarmos coisas que tantas vezes nos tinha rogado, instantemente, para fazer. Descobrimos os vizinhos ao sairmos à rua para bater palmas, em sinal de agradecimento, aos médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Criámos empatia com todos, até com os que eram mais reservados e prometemos que um dia sairemos todos juntos até à praia, ou tomaremos um aperitivo, ou faremos mesmo uma festa de arrebenta quando isto findar. Sentimos os benefícios de andar a pé, dos passeios ao ar livre.  Os fabricantes de bicicletas não tiveram mãos a medir.Saboreámos a vida, ao constatar que o vizinho, ainda com uma ótima saúde, tinha entrado no hospital com falta de ar e, quatro dias depois, a mulher anunciou-nos o seu falecimento. Ainda pensei que, brevemente, seria a minha vez, porque, nunca se sabe, as gotículas do vírus podem atacar e penetrar até nossa casa. O meu filho mais velho, que anda no segundo ano da universidade, não tem aulas. Desfez-se do quarto em Lisboa e regressou a casa, que tinha deixado aos dezanove anos. Também ele sente a minha tristeza por esta situação que não tem fim. Procura estar ao pé de mim e agora temos tempo para conversar sobre a vida, sobre a morte, sobre o futuro e, sobretudo, sobre o passado. Que bom ter um filho que pretende saber o passado do pai e da mãe! Tinha passado a adolescência com os amigos e a lutar para entrar na universidade. Nunca havia tempo para conversar. Agora, não nos despegamos e já está a dizer que pretende escrever um livro sobre o pai que, afinal, tem um passado que admira e que desconhecia. Tem falado imenso com o irmão mais novo que, por vezes, olhava com desdém por ter atitudes de bebé. Agora, passam tardes a brincar, a jogar as cartas, a fazer grandes caminhadas. À tardinha, o pai propõe, regularmente, um passeio pela montanha, a mãe deixa o jantar pronto e os pais perdem-se a contar as peripécias dos primeiros tempos em que eram ainda crianças. A mãe tenta refazer os pratos dos tempos em que eram crianças e há sempre uma excelente sobremesa no fim. O confinamento irá terminar um dia, mas aproveitá-lo de uma maneira positiva deveria ser o objetivo de cada um.