Contrariamente ao que é habitual em Lisboa, estava naquele dia um tempo bastante fresco.

Ameaçava chuva. À entrada ainda bastante bem, mas, à saída, muito havia mudado. Era Domingo e os dois netos haviam acompanhado os avós à Missa. Foi na igreja de Cristo Rei da Portela, Sacavém. À saída, uma rajada de vento passou por nós inesperadamente arrastando algumas gotas de chuva. Abri o guarda-chuva e comentei espontaneamente à moda da minha aldeia:- Isto é que está um João-da-Rua!Foi então que uma voz feminina, emergindo atrás de nós, comentou:- Quem assim fala só pode ser da nossa terra! Enquanto nos abrigávamos sob o guarda-chuva e tentava eu descobrir quem andaria por ali da minha terra, logo os netos perguntaram quase em simultâneo:- Quem é o João-da-Rua?O tempo não estava para encontros casuais. Num instante, a desconhecida foi desaparecendo no meio de outros fiéis, que também se iam protegendo do chuvisco puxado por um vento impertinente, enquanto eu ia respondendo aos netos:- O João-da-Rua é o vento. Assim é chamado na terra do avô.E foi já no automóvel que o Pedro me perguntou inesperadamente: - Porque é que na tua terra chamam João-da-Rua ao vento?Fui apanhado na minha ignorância. Nunca se me tinha colocado tal questão. Nem mesmo na infância em que tantas vezes a ouvira nos dias frios e ventosos da Beira. Naquele momento lembrei-me de inventar uma historieta de ocasião, à maneira dos nossos remotos antepassados que criavam narrativas para compreenderem as realidades, do céu, da terra e da sua vida social, nas suas origens e nos seus desenvolvimentos. Chamamos-lhe mitos, habitualmente.- Era uma vez – ia eu dizendo pausadamente enquanto esperava pelo trabalho da criatividade e pela chegada do elevador do prédio – um menino chamado João que gostava muito de brincar na rua com o vento. Muitas vezes lançava-se a correr atrás dele. Dizia que um dia havia de correr mais do que o vento e que havia de descobrir para onde é que ele ia. Mas, quanto mais o João corria, - continuava eu devagar, devagarinho a contar - mais o vento lhe fugia. Outras vezes punha-se a andar ou a correr contra o vento. Queria saber de onde ele vinha, umas vezes tão devagarinho e outras tão apressado que até fazia cair as folhas às árvores. Então, no Outono, o João gostava muito de bailar com as folhas amarelas das faias do seu bairro que caíam, a dançar ressequidas, dos ramos envelhecidos. Até que um dia, tanto bailou, tanto rodopiou ao sabor do vento, que… - Que terá acontecido ao João naquele dia – lembrei-me eu de perguntar aos netos, como alternativa à minha falta de imaginação.- Quando corria, o João escorregou numa folha molhada, caiu, magoou-se e foi para casa a chorar – apressou-se a dizer o Pedro.Admirei a rapidez e o desembaraço na resposta. Chegámos a casa. Ficou por aqui a historieta do João-da-Rua. O Pedro, porém, havia ficado preso à historieta. Avançou pensativo para junto do avô, que se preparava para a leitura do jornal:- Mas de onde vem e para onde vai o vento – perguntou ele, fazendo-se de João-da-Rua.Curioso! Não perguntava o Pedro o que era o vento. Não seria necessário. Mesmo sem o ver, ele bem o sentia e até lhe empurrava para a cara pequenas gotas de água da chuva. A pergunta era mais metafísica. As perguntas acerca do “de onde” e do “para onde” apontam para o que está para além do mero “sentir”. Indiciam um movimento para a transcendência das coisas. O “de onde” e o “para onde” fazem-nos sair do mundo em que “sentimos” para nos mergulharem num outro mundo não “sentido”, mas intuído. Intuído de algum modo, ainda que seja de modo infantil. Pensadas fisicamente, aquelas perguntas serão ingénuas, como ingénuas serão todas as perguntas das crianças. Pensadas existencialmente, elas contêm toda uma sabedoria a descobrir.Lembrando-me do projecto de programa de “Filosofia para Crianças” do filósofo e pedagogo norte-americano Matthew Lipman (1923-2010), respondi com outra pergunta, quando já se aproximava a Maria:- Ajudai lá o João-da-Rua. De onde vem e para onde vai o vento?Primeiro ficaram os dois em silêncio a meditar na pergunta. Depois o Pedro sempre disse:- Não sei. Ele vem de muito longe, do princípio da Terra.E logo a irmã acrescentou:- E vai para muito longe. Vai para o fim da Terra.- Mas a Terra é redonda. O vento volta ao princípio – replicou o Pedro.- Então o fim é o princípio – concluiu a Maria, ajudada um tanto pelo avô.Um deles ainda disse que isso não podia ser. Estava a gostar desta conversa deveras especulativa. O avô ainda perguntou como sabiam que a Terra era redonda e tentou completar a história do João da Rua que, entretanto, foi ficando esquecida. Mas era a hora do almoço. Desta vez o apetite falou mais alto. A conversa nunca mais foi reatada, até ao momento. Talvez um dia se proporcione uma ocasião. Então poderemos cantar com o esquecido poeta Afonso Lopes Vieira: “O vento é bom bailador, / Baila, baila e assobia. / Baila, baila e rodopia / E tudo baila em redor.» E o “tudo” da “Dança do vento” deste poeta serão as “flores”, as “folhas”, as “ramadas” e as “ondas” do mar, mas o “tudo” do vento poético será também o sopro da vida humana. Porque o vento é símbolo do espírito. Até do Espírito Divino que pairava nas águas primordiais da Criação.Nunca mais esqueci a história do João-da-Rua. Ou melhor, a história desta conversa com os netos sobre a história do João-da-Rua da minha terra, onde as perguntas sobre o “de onde” e o “para onde” se cruzaram com as perguntas sobre “o fim” e “o princípio”. Do vento como narra a historieta. Mas também sobre o “de onde” e o “para onde” da vida humana. Também elas se cruzam com as perguntas sobre “o princípio” e “o fim” da nossa existência. Aí se identificam o “de onde” e o “para onde”, como aí se identificam “o princípio” e “o fim”. Tal como se identificam o “Alfa” e o “Ómega” no “Senhor Deus” do Apocalipse (I, 8) de outro João-da-Rua. O São João Evangelista. Descendo mais à terra neste Dezembro de 2021, digamos que se identificam também, num instante transtemporal, o último momento de um ano e o primeiro momento de outro. Com o sopro do Espírito, seja 2022 um ano da Graça. Para si, que me lê, e para toda a Humanidade que povoa a Terra onde os Ventos da Paz parecem andar adormecidos.Guarda, 21 de Dezembro de 2021