Histórias que a Vida Conta


Desde sempre nos habituámos a passar as férias de Natal, em Lisboa, na “Casa de Benfica”. Depois de, na Guarda, nos deliciarmos com as melhores filhoses que comi em toda a minha vida, em casa da Tia Mariana, e da apresentação dos votos de Boas Festas às Famílias Sacadura e do Tio Antero Marques, viajávamos para Lisboa no nosso velho Austin A40, conduzido pelo meu Pai. A viagem preenchia praticamente todo o dia e constituía uma aventura, enriquecida por algumas paragens para visitas culturais e devaneio turístico.
A casa de Benfica, propriedade dos meus avós maternos, era uma linda moradia, dispondo de um jardim bem cuidado, com acesso próprio através de um portão, que ficava mesmo ao lado da porta de entrada da residência. Foi nesta casa que passámos a viver depois de termos saído da Guarda, tinha eu 14 anos.
O jardim tinha ao fundo uma fonte em forma de “cascata”, em pedra trabalhada, típica das construções similares do princípio do século XX, enquadrada por trepadeiras de rosas brancas e amarelas, que vestiam uma elegante armação metálica. Havia também um aquário encrustado na estrutura rochosa, alimentado pela água corrente que descia do alto até ao solo, indo desaguar num pequeno lago, de onde saía, canalizada, para irrigar os canteiros de flores e uma mini-horta anexa. Dela usufruíam os arbustos e as árvores do jardim e do quintal  - um jacarandá de flores violáceas a que os brasileiros chamam, por isso mesmo, “árvore da paixão”, além de nespereiras, algumas oliveiras e duas ou três figueiras. Não faltava uma capoeira, abastecedora dos festins familiares, e, no meio do quintal – maravilha das maravilhas, para a pequenada! - um moinho-torre de pás metálicas, que giravam com o vento e fazia subir a água do poço a que estava acoplado. Viria a tombar durante um Natal  tempestuoso, e foi tema de grande agitação e susto. Num espaço de terra batida, ao lado do poço tapado, a miudagem jogava à bola, ao hóquei de campo e disputava renhidas partidas de berlinde.
Ao fundo do jardim, ficava a “estufa”, uma construção de dois andares cuja porta do rés-do-chão era ladeada por duas nespereiras. À ilharga direita prendia-se uma estrutura em ferro, destinada às trepadeiras. O acesso ao piso superior era feito por uma escada metálica, em cotovelo. No interior, onde a temperatura era mais elevada, havia vasos com plantas exóticas. Cá fora, bordejando as paredes da estufa, várias espécies de sardinheiras e outras flores singelas. Era nos canteiros, mais sofisticados, desenhados por um arquitecto paisagista na parte nobre do jardim, que brilhavam as flores mais escolhidas, cuidadosamente dispostas entre a relva - as sicas, as estrelícias, cujos “pés” o meu Avô trouxera pessoalmente da Madeira, as roseiras e, no Outono, uns maravilhosos crisântemos de pétalas dobradas que o  Senhor José jardineiro cuidava desveladamente. O Senhor José, mais conhecido por “Tio Benfica”, era uma figura do bairro. Pequenino, ziguezagueava a cair de bêbado entre o Jardim Zoológico e a Rua Duarte Galvão, enquanto lançava a plenos pulmões “vivas” ao seu Benfica. Nunca entrou no Estádio da Luz, nem, que eu saiba, assistiu a qualquer jogo de futebol. Mas isso não o impedia de sentir e viver o seu “Benfica” com a paixão dos seus mais fervorosos adeptos. Era um bom profissional da jardinagem. “Formado” na “Casa Burney”, apareceu um dia por São Domingos de Benfica, onde angariou clientes. Acabou a sua vida activa vivendo num casebre no nosso quintal, construído, por sua iniciativa e nossa permissão, no seu querido jardim, entre a “cascata” e o galinheiro.
Lá ao fundo, estava a nossa casa. Ou melhor, as traseiras da nossa casa, que uma velha trepadeira de buganvílias enobrecia, com os seus troncos rugosos e grossos, a enroscarem-se nos ferros que a suportavam da base até ao topo do edifício. Lembro-me bem de, nas férias de ponto, quando o estudo e o calor mais apertavam, percorrer a varanda de lada a lado, horas a fio, livro na mão, sorvendo o perfume das buganvílias e contemplando o balançar dengoso dos belos cachos azuis de flores pendentes.
O interior era amplo, confortável, acolhedor. Cheio de recantos tentadores para as nossas brincadeiras de miúdos. Conservo na memória a imagem e os cheiros, todos diferentes, da cozinha, da despensa, dos quartos de arrumos, da cave, das escadarias e de todas as salas e quartos da moradia. E lembro principalmente, com saudade, as senhoras que ali trabalharam, duas irmãs naturais da Faia, nossas amigas já há muito desaparecidas, de quem tanto afecto recebemos e fizeram parte integrante da alma daquela casa.
Nela passei alguns dos melhores momentos da minha vida. Entre eles, a minha festa de formatura, com a presença de familiares, colegas e algumas amigas. Houve momentos inesquecíveis de humor, como aquele que aconteceu assim: num dos cantos do salão, o Tio António conversava numa roda de colegas meus, entre os quais o Sousa Franco, o José Drago, o Rui Almeida Mendes e o Anselmo da Costa Freitas. Longe, no outro lado da sala, numa outra roda, eu falava com o nosso Armando Jorge, com a Maria Lúcia, com o meu irmão Jorge e alguns colegas entre os quais o João Ribeiro Coelho, o Aires Vallera, o Hugo Amaral Barata e o desditoso Gerhard Gaudich. Em dado momento, entrecortada pela gaguez, ouve-se a voz potente do Armando Jorge, desafiando o Pai, que perorava, distante: “N… nã…não con…concordo!” Fez-se silêncio. O meu Tio olhou para o Filho e perguntou-lhe de lá: “Mas, afinal, não concordas com quê?” Ao que o Armando Jorge respondeu de cá: “Nã…, não sei, mas nã…, não con…concordo”! Gargalhada geral!
Foi nesta casa que o meu Pai morreu. Mas fora também nesta casa que, cerca de vinte anos antes, casara com minha Mãe na mesma cerimónia em que o seu amigo António Fragoso desposava a minha Tia Mimi. E foi no jardim da “casa de Benfica” que se serviu o copo-de-água. É justamente dessa cerimónia, realizada no dia 29 de Abril de 1941, a fotografia que ilustra este texto. Tirada à porta da estufa, acima descrita, nela reconheço, da direita para a esquerda, o meu Tio Antero Marques, que foi médico dentista na Guarda, o “Tio Capitão”, António Marques, irmão do meu Avô paterno, a seguir, na sua farda de Coronel Médico, o meu Avô Ricardo Garcia, a Prima Alice Garcia Meliço Silvestre; ao lado, os noivos - o meu Pai e a minha Mãe, o Tio António e a Tia Mimi; vislumbro ainda o meu Tio José Sacadura, Irmão de minha Mãe, entre uma vistosa Senhora e um casal de idade, que não identifico.
Ainda hoje para mim, mais bonito que o “Jardim da Casa de Benfica” só mesmo o meu “Jardim das Mémórias”.