Estamos num tempo em que as sociedades se caracterizam por um excesso de comunicação, de presença e até de expressão;

paradoxalmente estes excessos restringem a nossa liberdade (convictos nós do contrário): porque embebidos e embrenhados numa espécie de estridência-existencial em que de tudo queremos saber, em tudo aparecer, de tudo opinar- que não se satisfaz, e muito menos se apraz em descortinar, reflectir e só depois proferir. Este estado de permanente aceleramento emocionaliza-nos e assim ficamos mais susceptíveis a sermos altamente manipulados e enviesados, controlados e vigiados pelas esferas e estruturas do poder (político, económico…) e sem que nos apercebamos ficamos cegos da razão, da sensibilidade (logo da humanidade), da verdade como tal.
De facto, nesta cegueira não existe liberdade; existe (pelo acesso e arquivo dos nossos dados) previsão de comportamentos e respectivo condicionamento ao nível do subconsciente; como que uma liberdade-pavloviana...
Com a liberdade limitada, a verdade torna-se relativa e, por inerência ou consequência (ou até antecedência), a realidade deixa de ser… real: não importa muito o que aconteceu de facto, o que fizemos de facto; importa o que se diz e o que dizemos sobre esse facto. Criam-se assim narrativas dentro da narrativa que desvirtuam a verdade, uma vez que deixa de ser feita qualquer tentativa para a ver como qualidade objectiva. A nossa experiência, baseada num relativismo assoberbado, em referentes e pontos de vista (do real) díspares e contraditórios (como nós próprios), tornam-na complexa (e nunca completa), fragmentada (e nunca unitária) e não menos ilusória. Assim, a mudança ocorrida (e a ocorrer) na nossa experiência afecta profundamente a realidade e a sua percepção, a verdade e a sua dignificação.
Como sociedade, ficamos num mundo de inúmeras aparências, de múltiplos pareceres e dizeres e com isso extremamente divididos, entrincheirados em crenças, em conhecimento pouco fiável, em ideologias e utopias que conduzem a verdades ficcionadas ou a ficções verdadeiras que actuam em diversos níveis (principalmente na linguagem e comunicação) e que influenciam toda a vida contemporânea, uma vez que os factos objectivos contam menos que a emoção e a crença que se tem à partida (e à chegada) sobre eles.
Como indivíduos, a verdade e sua constante (e inconstante) procura é algo custoso, exige uma… exigente honestidade, uma profunda sinceridade, um profuso e contínuo esforço reflexivo para distinguir a boa-fé da má-fé das nossas acções e das nossas justificações. Árduo trabalho intelectual e moral. Sermos verdadeiros connosco mesmos não é coisa pouca, pois é recorrente mentirmos a nós próprios, fazendo uma passagem quase que imperceptível para o autoengano, e fazemo-lo quase que naturalmente: quem mente em boa-fé mente melhor e é mais convincente. Quando negamos a evidência de algo e quando rejeitamos a sinceridade reflexiva sobre ela, negamos a sua existência e a realidade do acontecido expurgando a recordação dura e dolorosa que nos faz sofrer e que queremos combater, impiedosamente. Torna-se uma negação útil, uma realidade alterada e distorcida, portanto falseada. Ainda que seja difícil negar que se fez uma dada acção visível aos demais, é muito simples modificar as motivações, as emoções que nos levaram a praticá-la. Assim o lembrado, quase que silenciosamente, passa a deslembrado e o (ainda) recordado, desvirtuado.
O Homem e a Verdade. Tão próximos! Tão distantes!! Na caminhada da Vida; labiríntica.