Ouvimos dizer frequentemente que «O hábito não faz o monge» e talvez estejamos “habituados” a concordar com tal sem questionamento.

Mas então, o que faz o hábito, afinal? E, como já se tem questionado, se perguntássemos: «quem faz o hábito»? E que tal se, contrariando o “habitual” dizer, dissermos antes que «O hábito faz o monge»? E, já agora, se perguntássemos onde fica o monge, no meio deste dizer? A minha “tese”, aqui e agora, é a frase titular: é o hábito que faz o monge. O hábito é inerente ao monge. É aí que se encontra o monge. Sem hábito não há monge, mesmo quando o monge veste um hábito. Confuso? Talvez nem tanto se batermos à porta do latinzinho.A palavra portuguesa “hábito” tem origem na latina “habitus” que é o particípio passivo do verbo “habere”, “ter”. O hábito é o “tido”, o “havido”. Ou, se se preferir, o “hábito” é o que se tem. E o que se tem pode ser também a “habitação”. De uma realidade “tida”, o hábito é o lugar em que se “habita”, o lugar onde se está. E esse lugar tanto pode ser um pano com que o monge cobre o corpo, quando o monge veste o hábito da ordem, como a realidade espiritual que, como tal, o faz monge. É esse o verdadeiro hábito do monge.O jogo metafórico da linguagem humana possui estas virtualidades. O hábito que cobre o corpo pode não fazer o monge, mas o hábito assinala o lugar que dá vitalidade à realidade espiritual interior que o fez monge e pela qual monge permanece. É a força do hábito que, na linha do velho Aristóteles, se constitui como segunda natureza. Aqui, um estado existencial, a natureza do ser monge. O hábito é o “tido”, o “havido” conquistado pelo monge na vivência reiterada da espiritualidade da ordem religiosa. É por ela que o monge é monge. Andam por aí, nos escritos dos mestres, muitas definições para o hábito. Sirvo-me aqui das palavras do grande mestre da hermenêutica, falecido há bem poucos anos, Paul Ricoeur (1913-2005), que assim o define: «O hábito é uma maneira de sentir, de perceber, de agir e de pensar, adquirida e relativamente estável.» Quatro verbos que tecem o pano com que nos vamos vestindo: «sentir», «perceber», «agir» e «pensar». Quatro verbos que cobrem todo o âmbito da nossa existência. E, quando eles se vão exercendo reiteradamente e de uma certa maneira, então esta maneira adquire raízes e torna-se «relativamente estável», transforma-se numa «segunda natureza», num «habitat» próprio, numa «habitação» específica. Aí vive o monge, aí vivemos nós também. Hábitos no «sentir», hábitos no «perceber», hábitos no «agir» e hábitos no «pensar»Não importa aqui saber se a ordem por que P. Ricoeur apresenta aqueles verbos na definição de “hábito” possui, na sua análise, algum significado antropológico, mas, pelo enunciado, podemos aperceber-nos da variedade de hábitos que nos habitam ou que nós habitamos. De que modo é que eles se entrecruzam na nossa unidade vital, não o saberemos de todo, mas não será difícil descobrirmos hábitos e, como é hábito em nós, agrupá-los em categorias. Vamos por caminho simples e habitual. Se uns são hábitos passivos que se reconhecem pela diminuição da consciência propiciando adaptação às circunstâncias ambientais – insensibilidade ao frio ou a um odor, por exemplo – outros são activos e propiciam a facilidade e habilidade, ou mesmo automatismo e perfeição, com que realizamos determinadas operações, como andar de bicicleta ou tocar um instrumento musical.Incidam os hábitos sobre a dimensão psicológica e espiritual ou sobre a dimensão de ordem fisiológica – passe este aparente dualismo no humano – eles serão bons ou maus. Habitualmente damos aos primeiros o nome de “virtudes” e aos segundos o nome de “vícios”. E isto quer no domínio do «sentir» e «perceber», como no domínio do «agir» e do «pensar». Em qualquer destes domínios podemos encontrar “virtudes” e “vícios”. Ou então, encontramos qualquer coisa entre a “virtude” e o “vício”, para não nos limitarmos a ver as coisas numa lógica dual, a preto e branco, como, por hábito, somos tentados a proceder, à imagem daqueles políticos que não conseguem ver a coisas para além de esquerda e direita, embrulhadas, quantas vezes, num palavreado bacoco que, à força de tão repetido, por hábito, já nada significa, a não ser para quantos, por hábito também, ainda lhe prestam ouvidos. Uns e outros serão vítimas dos seus hábitos ou esquemas mentais que os impossibilitam de ver o “diante” ou o “frente”, e muito menos os diversos ângulos do meio-termo, no “sentir”, no “perceber”, no “agir” e no “pensar”. Já estamos a ver e todos o sabemos. Há hábitos individuais e hábitos sociais que no conjunto definem a vida em sociedade e a cultura de uma comunidade. Se uns são impostos pela autoridade legítima, como o respeito pelas regras e normas sociais e jurídicas que possibilitam a vida social, outros são hábitos de mera cortesia e sã convivência. Num caso como noutro lá estará sempre o jogo dos quatro verbos de Paul Ricoeur: “sentir”, “perceber”, “agir” e “pensar”. O hábito é de tal modo uma «segunda natureza», como se diz desde os tempos da antiga Grécia, que «habitamos» muitas vezes nos nossos hábitos sem darmos por tal. Muitas vezes, ainda bem, já que sem hábitos e na ausência de instintos animais, a vida humana seria praticamente impossível. Outras vezes, ainda mal, porque os hábitos, natureza segunda adquirida, não encaixam devidamente na natureza humana primeira e são consequentemente, o alfobre de disfunções destruidoras.O hábito anda por aí, por ruas, aldeias e cidades, nos casebres de lugarejos desconhecidos e nos palácios luzentes dos endinheirados. Então, nos gabinetes dos poderosos, de ministros de todos os matizes, ele parece encontrar-se já tão empedernido que se transformou em fortalezas por onde não entra a realidade.Há dias foram os portugueses, mais uma vez, chamados às urnas para eleger os elementos dos órgãos locais e, mais uma vez, por hábito, talvez, foi elevada a abstenção (46,4%). E mais uma vez, por hábito também, talvez, lá vieram os habituais discursos e análises finais de sempre centradas quase exclusivamente na conquista ou perda de lugares e do poder – ai, estes hábitos! - que raramente tocam no essencial: a mudança na vontade de fazer política do bem comum e o aumento de “independentes” vitoriosos. Ou, de outro modo, a necessidade de sentir com os cidadãos e com os valores da democracia partidária profunda. Parece que a nossa vida política dinamitou o hábito de “sentir com” em favor do hábito de se “sentir consigo”. Perdendo a sensibilidade democrática e social, perde-se também o sentido do «perceber», do “agir” e do “pensar” com o sentido e espírito de serviço que é, idealmente, o timbre do exercício da política em geral e da política democrática em particular. Será essa a «habitação» da vida política. Virtuosa ou viciosa.É o hábito que faz o monge, ou seja, a cultura que dá à sua própria vida. E o monge aqui, são quantos se apresentam ou apresentaram a pedir o voto ao cidadão. E quando o monge se apresenta sistematicamente disfarçado, o cidadão veste também outro hábito: o hábito de não confiar ou o hábito de se abster. Mas fica feliz quando encontra alguém que desempenha exemplarmente a função de serviço público.Recentemente habituámo-nos à presença de um “monge” que vestira dois hábitos: o camuflado de combate e a farda do serviço. E isso é ser ministro, se ministro – assim o diz o latim “minister” – é aquele que serve. Acaba de nos deixar com estas palavras: «Sou um simples servidor do Estado. Tive a coincidência de estar no sítio certo na altura certa para poder desempenhar uma função que foi relevante para todos. Desempenhada essa função, quero voltar à irrelevância anterior.» O Vice-Almirante Gouveia e Melo deu uma lição de habituação virtuosa a todos nós e, particularmente, aos nossos governantes e líderes partidários. Os nossos governantes e autarcas bem poderiam analisar os resultados das eleições à luz do serviço exemplar deste notável “ministro da saúde”. Verdadeiramente, o hábito faz o monge. Guarda, 30 de Setembro de 2021.