Nas duas últimas semanas, a Rússia tentou alterar radicalmente a estratégia para a guerra.

O facto de a manobra atacante dos invasores ter sido não só detida, mas até invertida por parte da Ucrânia, levou a Federação russa, ferida no seu orgulho e preocupada com os sucessivos desaires militares, a tentar corrigir as fragilidades das suas forças e a desmoralização das tropas no terreno, ao mesmo tempo que procurou inocular sangue novo e mais ambicioso nas chefias e, recorrendo aos préstimos do Irão, reforçar o poderio bélico dos seus equipamentos militares. A evidente debilidade da estratégia desenhada para ganhar a guerra, levou a Rússia a introduzir profundas alterações em várias “frentes”: na política, através da “fantochada” dos referendos que permitiram a declaração, na “secretaria”, de anexação dos territórios de Kherson, Luhansk, Donetsk e Zaporijjia; no vector militar, através da mobilização de trezentos mil reservistas e na nomeação, no dia 8 passado, do general Sergei Surovikin como novo comandante-chefe do Exército na Ucrânia; no plano estratégico, através de uma campanha muito agressiva e violenta de ataques de mísseis terra-terra e de drones suicidas contra diversas cidades ucranianas, incluindo a capital Kiev, bem como contra alvos civis indiscriminados, incluindo infra-estruturas energéticas, de abastecimento e de transporte.
Estas ações conjugadas revelam a clara intenção do Kremlin de superar um quadro muito desfavorável para o Exército russo, já no oitavo mês das hostilidades. De acordo com Madalena Meyer Resende, “nas últimas semanas, as forças ucranianas recuperaram milhares de quilómetros quadrados de território no Leste e avançaram no Sul”. Por mim, penso que talvez ainda seja cedo para afirmar que “o avanço lento, mas contínuo, do Exército ucraniano nas frentes de batalha neutralizou o efeito de ambas as iniciativas”, ou seja, das anexações de territórios e da mobilização de forças decretada pelo Kremlin.
O ataque à ponte de Kerch, obra icónica de Putin, tornou-se o rastilho e o pretexto para uma nova escalada sangrenta na condução da guerra. Na verdade, o novo comandante em chefe do Exército russo, o general Suroviki, tem um triste currículo repleto de atrocidades e de destruição. Foi ele o responsável não só pelo ataque aéreo a Alepo, na Síria, mas também pelo cerco a Mariupol. Aplica e pratica uma estratégia militar de “terra queimada”, de destruição indiscriminada – que usou na Síria e na Tchetchénia – arrasando infra-estruturas e vidas civis, sem quaisquer limites morais. Não parece, por isso, haver qualquer dúvida de que vai subir “o grau de destruição infligido ao povo ucraniano”.
Toda esta progressão de ataques, com o lançamento de mísseis e a utilização de drones de origem iraniana, revela que a estratégia da contra-ofensiva ucraniana está(estava) a ter êxito. Mais se pode constatar que a nova configuração dos ataques russos se pode caracterizar: (a) esses ataques não se vão ficar pela linha da frente; (b) pelo contrário, os russos querem demonstrar que não há localidade ou área geográfica, na Ucrânia, que esteja a coberto do fogo destruidor; (c) assim procedendo, impõe um clima permanente de terror, com recurso a novos tipos de armamento e de drones iranianos.
Como escreve a citada analista, “a semana que passou demonstra assim que a guerra da Ucrânia se expandiu para os céus e ganhou uma nova dimensão que certamente infligirá terríveis perdas ao povo ucraniano” – cfr. “A guerra nos céus da Ucrânia, “Público”, de 17 de outubro, pág. 21.
E qual será então o papel do “general Inverno” que vai brevemente fazer a sua entrada na guerra da Ucrânia?
Sabe-se como o Inverno foi um aliado todo-poderoso dos russos nas invasões francesa e nazi, desbaratando exércitos inteiros pelas temperaturas insuportavelmente baixas e o gelo persistente com que estes se depararam. O célebre “general Inverno” repeliu e derrotou tanto as orgulhosas hostes napoleónicas como, mais tarde, as até então hiper-organizadas e triunfantes tropas hitlerianas.
Só que, então, era a Rússia que tinha sido invadida e defendia o solo pátrio. Agora é ela o invasor e será o “seu” inverno a minar as suas próprias linhas. Quem o afirma é Henrique Monteiro na sua muito apreciada penúltima página do “EXPRESSO”, de 14 de outubro. “O atual conflito não é, como entra pelos olhos adentro, uma guerra de defesa contra um inimigo externo, mas uma invasão injustificada e baseada em premissas falsas”. E acrescenta: “Do lado de Moscovo, a moral das tropas está em baixo e da mobilização geral (a Rússia chamou-lhe “parcial”, o que, para o caso, é despiciendo) resultaram, até agora, homens impreparados, recrutados, como já eram, no Extremo Oriente e nas províncias mais pobres (além de mais de 200 mil em idade militar que fugiram da Rússia)”.
Em circunstâncias assim, mais vale recordar, como exemplo, as derrotas de Moscovo frente aos finlandeses, em 1939-1949, no que ficou conhecida por “Guerra de Inverno”.
Mas, como o citado jornalista assinala, isto não significa que a Rússia seja derrotada. Acrescenta, porém, que também não se vislumbra uma derrota da Ucrânia. A ideia que a Rússia tentou impor de uma Ucrânia nazi, que, na verdade, não tinha povo, pois eram todos russos, desvaneceu-se com quase oito meses de guerra, “em que a astúcia, o poder, a coragem, os apoios, mostraram que a Ucrânia e os ucranianos não são um alvo fácil de abater” – cfr. “Nem o «General Inverno» salva Putin”, loc. cit. Uma notícia acabada de divulgar informa o mundo que foi o reconhecimento desta coragem e grande estoicismo, que levaram o Parlamento Europeu a atribuir, este ano, ao Povo ucraniano, mártir e heroico, o Prémio Sakharov para a liberdade do pensamento.
É num claro contexto de escalada que se insere a declaração da lei marcial nas quatro regiões anexadas. E é também neste quadro que foi incrementada a utilização pela Rússia de drones e mísseis terra-terra fornecidos pelo Irão, facto que, embora negado pelo governo iraniano, é confirmado pela observação e pela análise dos destroços dos drones suicidas (drones kamikaze”) e dos mísseis. Tais fornecimentos, se, por um lado, revelam a insuficiência de meios militares por parte da Federação russa, contribuem, por outro, para dar aos russos mais opções e maior poderio. “Peritos em mísseis dizem que a chegada de mísseis terra-terra significariam que a Rússia passaria a dispor de armas poderosas, numa altura em que as forças de Kiev estão a reconquistar terreno em grandes áreas do Sul e Leste da Ucrânia (…)..
Aqui chegados, cresce a pergunta: até quando tanto sofrimento, tanto pavor, tanta revolta? Putin não é invencível e, seguramente não é imortal. Mas o que, seguramente também, perdurará colado à triste memória que ele deixará para a História, será o ódio sem medida nem cura que ele semeou entre os seus povos e no Mundo em torno.
Lisboa, 19 de outubro de 2022