O FUMO MATA

O desconfinamento, cruzado com a “rentrée”, fabrica neste início de setembro a receita perfeita para a celebração do Prazer. Nos meus verdes anos e do ponto de vista masculino, ela escrevia-se “Fumo, Mulheres e Vinho”. De mulheres não falo se bem que, entre esses tempos e hoje, a sua emancipação as tenha levado a compartilhar sem distinção na medida ou no modo, em perfeito pé de igualdade, o fumo e o vinho. Fontes estas de prazer? Sem dúvida. Mas também – e não apenas pelos excessos no seu consumo – causa de adições maléficas e, em esmagador número de casos, letais.O fumo chegou-nos por volta do séc. XVI, no primeiro retorno das descobertas e início da colonização espanhola dos territórios da América do Sul. E, verdade seja dita, o tabaco não foi logo bem aceite. Muito pelo contrário: conta-se que o nobre espanhol que comandava a armada, chegado de “torna viagem” ao porto espanhol, desembarcou ufano e seguro, fumando uma espécie de charuto e lançando densas baforadas pelo nariz e pela boca. Foi de imediato preso pela Inquisição acusado de ter “pacto com o Diabo de tal jeito que até deitava fumo pelas ventas”. Quanto tempo esteve   enclausurado e se saiu ileso do contratempo, ignoro. Mas foi desde logo um aviso sério quanto aos malefícios do tabaco. Mas as cabeças ocas enchem-se gostosamente de palavras loucas tais como as que se ouviam, por exemplo, na década de 60, projetadas com animação nos écrans da nossa televisão recém-nascida e lançadas com galhardia pelo nosso globalmente conhecido Artur Agostinho enquanto retirava e acendia um cigarro dum maço que lhe era teatralmente atirado: “CT – Qualidade! Bom Gosto e Prazer!”.Todo o Mundo fumou e fez disso cartaz. Pelo caminho, iam morrendo os fiéis “adictos”. A tal ponto que, num “finalmente” já demasiado atrasado, se obrigou a que, nas embalagens se inscrevesse com destaque: ”O fumo mata”. Se produz algum efeito efetivamente dissuasor, desconheço. Mas conheço a seguinte historinha que corre em vídeo pela Net e que dá o contraponto de humor, sempre bem vindo, diga-se, quando se trata de questões sérias e que devem ser levantadas seja por que meios for: numa entrevista televisionada algures num país de Leste, uma entrevistadora entrevista um indivíduo claramente adorador de Baco, grande e gordo, transpirado, nariz próximo do roxo e bochechas congestionadas, olhos aquosos e meio vagos em busca de um qualquer ponto de interesse que continuamente lhe escapa. Ela: ”O senhor sabe que os pacotes de cigarros têm obrigatoriamente a legenda “O fuma mata”. Porque é que não põem o mesmo nas garrafas de vodka?”. O homem tenta laboriosamente fixar a vista e remexe-se na cadeira procurando descobrir uma razão, visivelmente remota para as suas capacidades de raciocínio, até que, numa voz pastosa, arrastada mas judiciosa, responde: “ B…Be… Bem. Só o que não percebo é por que razão iriam escrever numa garrafa de vodka que o fumo mata … ?!”Mata e se não mata, mói. A Covid tem sido uma grande lição neste capítulo. Sabemos que a muitas das fatalidades se ligam a fumadores. Sabemos de ciência certa que grande parte dos que conseguem superar a infeção estão sujeitos a restabelecimento mais lento e muito provavelmente nunca completo. E não temos dúvidas que as consequências do consumo aturado do tabaco podem espoletar morbilidades desconhecidas. Acabo de perder uma prima que creio ter sido um destes casos: morreu subitamente entre dois contactos com amigas – o primeiro que atendeu e o outro, nem duas horas depois, que a foi encontrar desfalecida e em coma, na sequência de um colapso súbito – um aneurisma cerebral que rebentou, com uma hemorragia de uma extensão inconvertível, um caso perdido. Lembro-a sempre agarrada ao cigarro como se, anacronicamente, não pudesse respirar bem sem ele…! Nem a saudade que nos deixou consegue apagar a recordação desse fervor malfazejo… Aos 64 anos, não foi uma vida que se acabou – foi uma vida roubada. Apesar de nascida e criada em Lisboa estava familiar e patrimonialmente ligada à nossa Beira, mais concretamente ao concelho de Figueira de Castelo Rodrigo e porventura preocupada com a safra das vindimas que se aproxima. E aqui estamos evocando o outro poderoso veículo do prazer dos vivos – o vinho, néctar dos Deuses, divino licor dos Homens – mas que pode levar consigo muitos incautos, arrebatados ou apenas infelizes adoradores, a finais trágicos – para os próprios e para os outros, seus próximos ou não. Lembro os super- recomendados dísticos: “Se conduzir não beba”; “Seja responsável! Beba com moderação!” Como também lembro, que os meus leitores me perdoem, a estentórea canção da estudantada: “Era o vinho, meu bem, era o vinho / Era o vinho que eu mais adorava[…]”. E aqui me confesso: percebo pouco de vinhos, mas não posso deixar de “sucumbir” a descrições como esta: “Turvo e espesso na cor, aromas metálicos. Na boca é largo e muito macio, com sensações tostadas de fermentação, tipo bolacha e um final com longo prolongamento frutado, macio e envolvente” – um vinho verde de boa cepa. Ou um “alvarinho” do qual se diz: “Equilibrado e, sem ser complexo, é muito alegre na boca. Assenta-lhe bem um ligeiro amargo no final”. “Mutatis, mutandis”, tal qual a Vida, não vos parece?Em descrições como esta, o vinho é um poema, servido e degustado com unção e prazer, na intimidade e no silêncio de quem comunga da obra de Deus. Ou igualmente bom e bem, partilhado e rodado com os amigos do coração, os companheiros de jornada, os convivas de uma celebração feliz.Penso sinceramente que o vinho, presente que está na celebração eucarística, se reveste dum papel de congregação espiritual que é uma tristeza ver abastardado na embriaguez dos dias vazios ou das noites amargas. Mas é, no calor físico que liberta, um companheiro amável ou mesmo um concelebrante de rituais de amizade (e quantas vezes de verdadeiro socorro) que vemos evocados nos versos de Pablo Neruda: “Amo sobre una mesa / cuando se habla / la luz de una botella / de inteligente vino”.Tanto o tabaco como o vinho são portas que abrem para um mundo paralelo, que a cada um conforta à sua maneira, de modo próximo e eficaz. São contudo, no seu teor e na sua história, muito diversos quanto ao peso da sua presença: o primeiro é sempre mau, é uma droga, é um veneno de longa duração; o segundo é um dom generoso da Terra e um fruto do trabalho do Homem, do seu engenho e mesmo da sua arte. Só convergem naquilo e na hora em que constituem, no seu consumo, um desafio premente á medida, à contenção, ao auto-domínio dos seus consumidores, sejam homens ou mulheres. A ambos se aplica, a seu tempo e a seu modo, a bitola justa pela qual se devem medir os verdadeiros prazeres na Vida.Praia das Maçãs, 7 de setembro