O fim da União Ibérica e o reinado de Dom João IV

Desde 1580 a 1640, Portugal atravessou um período de união ibérica, onde a dinastia filipina reinou tanto portugueses como espanhóis. Esta havia sido a decisão tomada após o desaparecimento do rei Dom Sebastião na batalha de Alcácer Quibir.Apesar do início desta nova fase, iniciada por Filipe I de Portugal, ter decorrido sem grandes sobressaltos, a verdade é que a partir de finais do século XVI começaram a surgir as primeiras contestações, muito graças à concorrência de outras potências estrangeiras que iam interferindo de forma invasiva nas colónias ibéricas. No reinado de Filipe III de Portugal, a situação é de profunda depressão económica e quebra territorial, que originou o aumento dos impostos. Tal medida afetou os portugueses, sobretudo na década de 1630, gerando descontentamento entre as camadas populares. Este estado de espírito foi também partilhado pelas elites- os nobres- que sentiam que o que tinha sido prometido nas Cortes de Tomar não estava a ser cumprido, sobretudo no que tocava ao recrutamento da nobreza para combater nos conflitos bélicos, como por exemplo a Guerra da Catalunha.Deste modo, começou a colocar-se a hipótese de um ‘’divórcio” entre os dois reinos. Contudo, tal medida dependia sobretudo da existência de um líder capaz de levar avante o golpe. Após várias discussões, chegou-se à conclusão de que Dom João ‘’Mestre de Avis” seria o homem certo, muito por culpa de ser um notável português à frente da casa mais importante de Portugal, a Casa de Bragança. Apesar da confiança depositada em Dom João de Bragança, este mostrou-se reticente, não abraçando de imediato a causa dos revoltosos devido aos elevados riscos que um golpe contra Filipe III poderia causar.Apesar das hesitações iniciais, o golpe acabaria por se suceder a 1 de Dezembro de 1640 com o apoio de Dom João, sendo realizado sem qualquer resistência. A 15 de Dezembro, viria Dom João a ser aclamado rei de Portugal, título que viria a deter até 1654, sob o nome de Dom João IV. A Madrid, a notícia tardou a chegar, e é dada pouca importância, inicialmente, ao sucedido, ocorrendo apenas pequenos ataques nas fronteiras. A atitude de Filipe IV de Espanha deveu-se à sua maior preocupação com a Guerra da Catalunha e a Guerra dos 30 Anos que se fazia sentir na Europa. Esta fraca resposta levou a que o êxito português saísse facilitado.Após a aclamação do novo rei, foi dada à nobreza portuguesa a hipótese de se manterem em Portugal, jurando fidelidade ao novo rei, ou de desertarem para Espanha. Muitos acabariam optar por servir o monarca espanhol, virando costas a Dom João IV.O reinado de Dom João IV foi extremamente difícil por vários motivos. Primeiramente, teve de procurar legitimar a sua posição junto dos países estrangeiros, como Inglaterra ou Holanda, e do próprio Vaticano.  Depois, precisou de criar uma grande máquina de propaganda para difamar os espanhóis, contando para isso com o apoio dos clérigos- que nas Igrejas faziam grandes discursos a favor do novo rei e criticando veemente o anterior monarca- e de panfletos distribuídos nas ruas, que acusavam os espanhóis de serem usurpadores e desrespeitadores dos costumes genericamente portugueses. Para além disso, a situação interna era complicada, pois muitos não viam com bons olhos o novo rei.Em 1641, foram convocadas Cortes em Lisboa, com vista à procura de argumentação para legitimar o rei. Após ponderada discussão, o argumento escolhido foi de que a dinastia filipina não respeitou os costumes portugueses, e qualquer rei só é legitimo quando respeita o povo, daí ser legítimo ser o povo a escolher quem colocar no trono.A prova de que nem todos simpatizavam com o novo monarca português ficou patente em alguns momentos, sobretudo nas conspirações de que foi alvo e num atentado contra a sua pessoa em 1647, que não teve sucesso.No estrangeiro, Portugal via sobretudo os holandeses invadirem as suas colónias, com especial foco no Brasil, e seriam o principal adversário de Dom João IV durante o seu reinado. Foi assinado o Tratado de Haia, em 1641, envolto de desconfianças de parte a parte, e que viria a ser rompido quando os neerlandeses tomaram a praça de Malaca. Também com a França, grande inimiga dos espanhóis, Dom João IV firma uma aliança. No ano seguinte, firma também um Tratado de Aliança com os ingleses.Apesar de Dom João IV ter encetado uma política externa de procura de aliados, a guerra luso-holandesa foi-se estendendo. Depois de tomarem a praça de Malaca, os holandeses continuaram por muitos anos a atacar o Brasil, estabelecendo-se inclusive em alguns pontos daquele país, algo que se prolonga até 1650. Em África e na Ásia as incursões holandesas também se verificam, e, no último caso, dá-se inclusive a tomada de praças como Cochim e Ceilão (atual Sri Lanka). Portugal conseguiria recuperar, em 1648, Angola e a ilha de São Tomé. Em 1653, a Holanda perde Pernambuco. A paz acaba por ser estabelecida definitivamente em 1663 num tratado de paz que não foi quebrado devido ao receio dos holandeses em perderem as regiões conquistas no oriente. Desse acordo constava, então, o reconhecimento, por parte de Portugal, das perdas territoriais nas Índias orientais. Do lado da Holanda, foi reconhecida a posse do Brasil aos lusitanos e também a exigência de uma pesada indemnização. Apesar disto, a instabilidade naquela zona do globo manter-se-á durante algum tempo.    Contudo, após 28 anos de guerra contínua, a economia lusitana estava arruinada, fruto de vários anos de conflito armado. Para tal, recorreu-se a uma nova subida de impostos – entre os quais, a criação da décima – para se tentar normalizar a situação, sendo inicialmente vista como temporária, mas estendendo-se depois muito além daquele período. A título simbólico, referir que foi Dom João IV quem, em 1646, fez de Nossa Senhora da Conceição Rainha e Padroeira de Portugal.Dom João IV, mestre de Avis e líder do golpe palaciano de 1640, morreria no ano de 1656, deixando D. Luísa de Gusmão na regência até à maioridade do seu filho, futuro Dom Afonso VI.