Caro leitor, não se espante com o título desta crónica, mas consciencialize-se com essa inevitável realidade, a não ser que alguma coisa mude até lá.


Lembram-se do governo de maioria absoluta de José Sócrates?
Lembram-se, claro, e por variadíssimas razões, uma das quais foi a tentativa de encerramento da maternidade do Hospital Sousa Martins.
Também se lembram do nome do ministro da Saúde Correia de Campos.
Nesse tempo, pelo idos da primeira década do século XXI, esteve iminente uma tremenda regressão na prestação dos cuidados de saúde materno/infantis no distrito da Guarda.
Por essa altura, a tentativa de ENCERRAMENTO da maternidade do Hospital da Guarda deu que falar e deu que escrever.
Desde logo se levantaram vozes contra a intenção de centralizar no Hospital da Covilhã o nascimento de todas as crianças nascidas nos distritos da Guarda e de Castelo Branco. Mas não se falou apenas do assunto, também se escreveu e se escreveu muito e de variadas formas. Até houve linhas escritas em papel timbrado do Hospital da Guarda, em jeito de abaixo assinado, subscrito por cerca de cinquenta clínicos da instituição, o que viria a motivar perseguições políticas aos seus autores, camufladas em forma de procedimentos disciplinares.
Quem não se lembra destes episódios?
A justiça viria mais tarde a ser reposta pelos tribunais com a anulação de todas as condenações disciplinares e a reabilitação dos clínicos condenados “politicamente” por se terem oposto ao fecho desta importantíssima valência da ULS Guarda.
A perseguição então feita aos médicos não traduz nada mais do que uma reação à boa maneira socialista, celebrizada na famosa expressão do ex-governante e “”ex-dirigente” do PS, Jorge Coelho, “quem se mete com o PS, leva”. E foi isso mesmo que fizeram.
Travada que foi a decisão do encerramento, eis que passados cerca de uma dúzia de anos sobre esse episódio, a ira socialista contra a maternidade continua a pesar sobre a Guarda, ou julgavam que eles tinham arrumado a ideia na gaveta do esquecimento?
Nada disso. Se depois do dia seis de outubro tiverem força para tal, a maternidade na Guarda não durará muito para além do Natal.
Recentemente, há cerca de duas semanas, a ministra da Saúde, mais temida do que Temido, veio anunciar que era necessário “REORGANIZAR as maternidades do país”. Isto aconteceu no seguimento das muitas notícias que dão conta da situação caótica em que se encontra o Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente ao nível das maternidades, com ameaça de encerramento de várias unidades em Lisboa por falta de médicos, até a parturientes transferidas de uns hospitais para outros que, num dos casos, acabou em tragédia, com a morte da criança, já para não falar de outros problemas graves.
Ora, o verbo “REORGANIZAR” em linguagem política, significa “ENCERRAR” traduzido em ações concretas. Neste vendaval de encerramentos que o governo se propõe fazer, está incluída a maternidade da Guarda, entre outras da linha interior do país, uma área geográfica que se tornou irrelevante para o PS. Se não tem votos, não tem interesse.
Outro dado relevante, para este governo, é que a Guarda não é um concelho de governação autárquica socialista e, esse, é mesmo um azar para a maternidade do nosso hospital.
O PS é mesmo assim, está-lhe na genética, “quem não é por mim, é contra mim” e continua a manter-se fiel à velha máxima de que “quem se mete com o PS, leva”. Tudo aquilo que não for controlado pela família socialista ou pelos socialistas da família é para abater e aí também tem lugar a maternidade do Hospital Sousa Martins.
Não estranhemos esta forma de agir, pois o partido socialista foi quem melhor incorporou a tradição reinante durante o Estado Novo, bem como os seus valores hegemónicos e totalitários.
Basta olharmos para o nepotismo reinante nas suas fileiras e para a corrupção que mina o Estado de forma totalmente impune, sem que o governo faculte os meios humanos e financeiros às entidades que têm a responsabilidade de investigar estas matérias.
Caro leitor, não pense que o título desta crónica é mera especulação, porque enquanto for pensando isso estará o processo em pleno desenvolvimento, com o governo a justificar a decisão com números, como se uma criança pudesse ser apenas e só um número.
São os números que também determinam o encerramento de escolas, são números que determinam o fim de transportes públicos, são números que determinam os deputados a eleger por um círculo eleitoral e são os números que determinam o fim de tudo.
São os números que estão a matar o Interior do país.
Tudo está reduzido a números, como se não houvesse deveres de soberania que Estado estivesse constitucionalmente obrigado a cumprir.
Vivemos numa espécie de “ditadura do número”.
Terminava recorrendo a uma expressão de Miguel Esteves Cardoso que diz que os portugueses não são muito de verbalizar, que são mais de escrever e que “usam as linhas do papel como rastilhos curtos para bombas grandes”.
Eu não discordo totalmente, mas contraponho que isso pode ocorrer porque mais facilmente nos é dada a oportunidade de escrever do que de falar.
Hoje, escrevo. Se também me for dada oportunidade, falarei.
A bomba grande é o encerramento da MATERNIDADE.