Mais de 100 dias, mais de 25 mil mortes, grande parte mulheres e crianças e nenhuma perspetiva de solução de crise é uma verdadeira sideração!

É também uma tragédia para a região e para o mundo. Fazer calar as armas, encontrar uma solução humanitária para o desastre de Gaza, libertar os reféns e construir a paz é, de facto, um dos programas mais ambiciosos e ao mesmo tempo perigosos para Israel.
O ataque do Hamas no dia 7 de outubro provocou em Israel um tal choque que lhe fez lembrar a tragédia da Shoah. Nunca Israel pôde imaginar que a sua política de segurança pudesse ser tão barbaramente atacada.
A resposta não se fez esperar, invocando a legítima defesa para recuperar os reféns e erradicar o Hamas com as suas práticas terroristas.
Todos sabemos que o terrorismo não se erradica com armas e com bombas. Estamos em frente de um grande sentimento de injustiça perante o povo palestiniano e perguntamo-nos como ascender uma pequena chama tanto da parte da Europa como dos Estados Unidos para dar uma perspetiva de paz a esta região que foi durante tantos anos esquecida, quando de um lado e de outro há incompreensões e apreensões irreconciliáveis para o caminho de uma paz duradoura.
Evoca-se desde há muitos anos a solução quer de uma confederação de dois estados, quer de dois estados independentes. Mas ouvimos ainda há poucos dias Benjamim Netanyahu reiterar a sua oposição à criação de um Estado palestiniano de que se fala há dezenas de anos, mesmo desde a criação do Estado de Israel. E como se pode pôr em prática sabendo que há 700 mil colonos entre Jerusalém Este e a Cisjordânia?
No plano internacional é uma solução difícil, mas será a única para pôr fim à guerra e à violência. Deixar Israel recuperar o conjunto dos territórios, desejo que é nitidamente formulado pelos partidos mais radicais deste Estado é fabricar um contínuo barril de pólvora.
Também os países árabes nunca se empenharam em resolver este conflito e observámos isso, ainda há pouco tempo, com a negociação dos Acordos de Abraão, que se estava a deixar de lado a questão palestiniano e que alguns pensam que foi esta atitude que precipitou o ataque de 7 de outubro, o que é, de facto, uma lição, pois com a memória dos povos não se pode brincar. Mesmo assim, muitos inclinam-se a pensar que o empenho da Arábia Saudita é essencial na resolução deste conflito, dado ser um país que se impõe do ponto de vista económico e geopolítico.
Estamos também em presença de uma das regiões menos estruturadas do globo, onde quase não existem organismos de coordenação ou de associação de estados, como encontramos na África com a União Africana ou na Ásia. O mundo árabe está bastante destruturado, com países à beira da falência e gangrenados constantemente pela violência e pelo ressurgimento do terrorismo. Ora é importante criar estabilidade na região.
Todas as garantias devem ser dadas ao nível internacional para serem criados dois estados independentes, sem esquecer a situação de Jerusalém, desempenhando os Estados Unidos um papel importante. Ora, numa perspetiva de eleições neste país, e com a eventual reeleição de Donald Trump, o processo de paz tornar-se-á mais difícil. É por isso que a comunidade internacional ficaria grata a Joe Biden que lançasse brevemente a semente que daria uma orientação de paz nesta região, se não, com Trump, entraremos certamente num mundo imprevisível.