O elefante do céu

Avô, olha ali um elefante! O avô, atento à condução do automóvel, de momento não ligou. Mas o neto - o petiz nunca desiste - insistiu:- Avô, está ali um elefante! E o avô ainda chegou a dizer que na Guarda não havia elefantes, mas logo os netos disseram em uníssono:- O elefante está no céu, avô!O avô olhou o céu de relance. Lá estava o elefante realçando-se, em branco, de um céu todo vestido de azul. Era um elefante perfeito. Parecia ali colocado pelos anjos para gáudio da pequenada. Porque as crianças é que olham para o céu. As pessoas crescidas andam entretidas a conduzir automóveis nas ruas das cidades ou nas estradas que serpenteiam pelos montes e vales. Ou então andam a fazer contas do deve e do haver, se é que não estão envolvidos em guerras de todos os tipos. São uns tontos. Não sabem olhar para o céu!- Boa! É mesmo um elefante! Vamos parar para vermos melhor e descobrirmos para onde é que ele vai – dizia o avô, abrandando a velocidade do automóvel. Mas logo o neto contrapôs:- É uma nuvem, avô!Por breves momentos, avô e netos ali ficaram a observar o elefante feito de nuvem cor de neve. Parecia que também ele parara a olhar as crianças lá do alto daquele azul do céu sem fim a convidá-las para uma cavalgada nas alturas. Depois desfez-se lentamente transformando-se noutra figura indiscernível e não tardou que alguns farrapos se desprendessem da nuvem mãe e ganhassem autonomia para se lançarem a desenhar outras figuras na tela do firmamento azul.São situações destas, bem simples, que desmentem a redução do mundo à realidade física, ia o avô filosofando no seu íntimo.As nuvens são muitas coisas, incluindo elefantes. Quem não terá visto no céu, em criança, elefantes e outras animais e figuras diversas, e parado a observar os seus movimentos, correndo, quantas vezes, mais velozes que o sol dourado e a lua de prata? Uma das imagens que possuo de mim, em criança, é a observação do céu. De noite e de dia, porque eram bem diferentes as paisagens nocturnas e diurnas e as danças das nuvens a encobrir o céu. Ingenuamente, até ia classificando as nuvens: se umas eram encasteladas e anunciavam trovoada, outras eram esfarrapadas e prometiam tranquilidade. Se algumas se pintavam de amarelo, vermelho e laranja a anunciarem, no poente esplendoroso, um dia seguinte de bom tempo, outras, bem cinzentas e negras de chumbo, anunciavam borrasca. Se por vezes cobriam integralmente o céu a anunciarem chuva ou neve, já outras deixavam entrar o sol por janelas misteriosas para darem entrada ao arco-íris da paz. Se umas se movimentavam apressadas, outras eram de tal quietude que pareciam estar ali, vaidosas, expondo a sua beleza feita bordado de brancura à contemplação do místico.Lembro-me da sensação que experimentei com a leitura de um texto na minha escola primária. Intitulava-se «Nuvens, nevoeiro, neve e granizo». Era simples o texto, mas constituía a primeira informação “científica” sobre as nuvens e como elas se transformavam em neve e granizo. Apreciei, com agrado, a explicação destes fenómenos atmosféricos, mas logo senti que ela ficava muito aquém da realidade contemplada e saboreada internamente quando as nuvens me presenteavam com os espectáculos que me deslumbravam. Talvez a explicação contribuísse para enriquecer ainda mais a minha admiração entusiástica das nuvens, mas a sua beleza, conjugada com as suas formas, movimentos dançantes e em esconde-esconde com o sol, a lua e as estrelas da noite, proporcionava-me uma elevação acima de qualquer informação científica embrulhada no fenómeno da condensação. Os meus olhos viam nas nuvens muito mais do que simples gotas de vapor. E este “muito mais” que os meus olhos viam constituía todo um jogo de beleza que estava para além da beleza do granizo e da neve com que as nuvens brindavam a terra.O universo em que as nuvens dançantes se me mostravam não era o todo do mundo. Aquela admiração por mim sentida, aquela beleza usufruída, aqueles sonhos que as nuvens me despertavam, os pensamentos que afloravam na minha mente de criança, tudo constituía uma admirável realidade. Hoje, quando assim me recordo a olhar as nuvens, bem posso concluir que descobri em criança, sem disso ter consciência, a insuficiência de um pensamento fisicalista que tudo pretende reduzir a leis físicas e de uma filosofia materialista para a qual é matéria tudo o que existe. Porque ali, na varanda da casa dos meus pais a contemplar o universo e nos bancos da escola a ler um texto simples acerca da constituição e condensação do vapor de água a transformar-se em nuvens e depois em neve ou granizo, o meu pensamento infantil despertava para um mundo outro, sem lugar no espaço cósmico, onde outra condensação se afirmava bem mais real que a condensação do vapor de água na atmosfera. Era o Espírito da Vida. Sei hoje que os cientistas possuem adequados critérios para classificarem as nuvens. Qualquer livro da especialidade, fazendo-se acompanhar de fotografias ilustrativas, nos dirá que as nuvens podem ser classificadas de vários modos, particularmente quanto ao aspecto e quanto à altura (altas, médias e baixas). Mas não as sabem classificar pela vida que criam naqueles que, graciosa e entusiasticamente, as contemplam. Isso é um outro mundo que transcende a fisicalidade da sua constituição, aspecto ou altura. Nesse outro mundo, as nuvens são um espaço de beleza para contemplar, meditar e rezar.Creio que à medida que crescemos fomos perdendo a inocência dos primórdios, deixámo-nos embalar por outros mundos e fomo-nos esquecendo de contemplar o céu e as nuvens que o atravessam. Bem precisamos que as crianças nos ensinem a regressar à infância para que, afinando de novo o olhar, reaprendamos a ver elefantes no céu e com eles, quais viajantes da criação, cavalgar as estrelas e cantar a beleza da Vida nas asas do Espírito. «O mundo só dos adultos é muito chato» dizia há tempos, numa entrevista, o pediatra Nuno Lobo Antunes [Revista “E” do Expresso, 4 de Julho]. Não haja dúvida: há uma profunda verdade a aprender na voz de uma criança quando, entusiasmada com uma nuvem peregrina no céu azul, assim nos fala: - Avô, olha um elefante no céu!Guarda, 20 de Julho de 2020