Histórias que a Vida Conta


São bem conhecidos os conflitos que opõem, por um lado, o direito de os media informarem livremente e, por outro, os deveres deontológicos, editoriais e sociais que devem respeitar. Sabemos também como a jurisprudência actual, nomeadamente a do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, tem dado prevalência, salvo em casos-limite, à liberdade de expressão. Isso não impede, porém, que uma sociedade livre e democrática não deva exercer uma vigilância crítica sobre alguns abusos em que certos órgãos de comunicação social se vão “especializando” através da cobertura sensacionalista de casos criminais mediaticamente apelativos.
Por outro lado, não se deve confundir o exercício do direito de livre expressão, que corresponde ao dever de informar com o voyeurismo e a exploração de instintos básicos dos destinatários da informação, visando apenas maiores tiragens e níveis de audiência, à custa da exploração do primarismo cultural e da curiosidade mórbida de leitores, ouvintes ou espectadores. Informe-se com total liberdade, mas respeitem-se as pessoas envolvidas – suspeitos, vítimas e terceiros - e os direitos fundamentais de que todos são titulares.
O recente caso dos homicídios de Aguiar da Beira permite-me hoje, porém, abordar o tema – que já me levara em artigo anterior a perguntar se o peso obsessivo dado pelos canais televisivos à criminalidade com contornos de crueldade insuportável não teria um efeito mimético, conduzindo à reprodução de mecanismos de sadismo, vingança e violência – sob um ângulo diferente: não estarão alguns órgãos da comunicação social a ultrapassar todos os limites de responsabilidade e de ética na forma brutal e insaciável como estão a cobrir a fuga do alegado homicida? Concretizando, neste caso da “caça ao homem mais procurado de Portugal”, o tratamento que tem sido dado ao tema da fuga atingiu níveis de insistência próprias dum verdadeiro vampirismo que já nada tem a ver com o espírito jornalístico, bem pelo contrário. Encerrado, felizmente em bem, o episódio do desaparecimento de Martim, o menino de Ourém, o encarniçamento de jornais e canais televisivos regressou ao estado anterior. E mais um dia passou, o fugitivo continua em fuga, as autoridades, segundo o noticiado, estão às escuras, a rotativa folhetinesca recomeça a sua faina… Entre as populações semeou-se com abundância a insegurança e o medo e a Pedro João Dias traçaram-se-lhe perfis, às tantas, avançou-se (falsamente) que estaria em Salamanca, que teria praticado actos que se soube mais tarde que não cometera (como se não bastassem os gravíssimos crimes que lhe são atribuídos), vasculharam-se-lhe hábitos, pecados e pecadilhos, fez-se o levantamento da sua história familiar, desde os pais, às companheiras e aos filhos. Sublinhou-se o treino militar que lhe teria sido ministrado, a sua actividade como piloto de aviões, a perigosidade de que será portador. Aventa-se que beneficia de ajudas e que estará ferido; que tem roubado viaturas para se deslocar com mais facilidade; que é caçador, amante de cavalos e um bom conhecedor do terreno, em localidades dos distritos da Guarda, Viseu ou Vila Real. Que é violento e tem uma personalidade sociopata! Mas sempre que as informações se revelam infundadas ou falsas, não são adequadamente corrigidas. Em boa verdade, tal de pouco serviria, uma vez que já fizeram caminho no espírito de ouvintes e leitores. Foi traçado o retrato de um “monstro” como se não passasse de um “herói” de banda desenhada, pesquisando-se insistentemente junto dos populares entrevistados os efeitos das excitantes e irresponsáveis narrações expendidas. Procuram-se, nas emoções, reais ou fictícias, desses entrevistados, mais “furos” jornalísticos. Uma lágrima, uma lamentação, um olhar assustado, uma opinião, um palpite…
Mas alguém pensa no sofrimento dos pais e familiares do homem em fuga? Do que significam expressões acusatórias sem julgamento que as validem, marteladas dias a fio por jornais e canais de televisão?
É por certo nisto que pensa António Bagão Félix, ao comentar, por exemplo, o emprego neste tipo de narrativa, da expressão «caça ao homem», que lhe parece “uma asserção indecorosa, feia, indigna, seja qual for o tipo de «caça» e seja qual for a pessoa, mesmo que, presumivelmente, assassina e cruel”. (Público”, 21-10). E Ferreira Fernandes, lídimo jornalista da nossa praça, observou também, no seu estilo sempre certeiro e desassombrado: “Porta arrombada … Caça ao homem … Ameaçou … Usam-se palavras como punhos para tentar esconder a mão cheia de nada. O jornalismo é de moribundo e serve leitores doentes. Aquele fornece placebo a estes, para todos terem ilusão de que lêem livros de aventuras” (DN, 24-10).
Mas, sinceramente, o que mais me impressionou foi a forma como o Correio da Manhã puxou para a capa, nas costumadas letras garrafais, o anúncio “GNR DÁ ORDEM PARA MATAR” (13 de Outubro). Confesso que me arrepiou! E não estive sozinho. O meu amigo José Pestana, notável cartoonista, jurista e especialista do tratamento do fenómeno criminal pelos media, escreveu-me:
“A irresponsabilidade desta manchete causa calafrios. Por um monte de razões.
Em primeiro lugar, a ser verdadeira uma semelhante ordem (carta branca para matar um suspeito, independentemente das circunstâncias concretas – impossíveis de prever -, da sua localização e do seu subsequente comportamento) configuraria a mais ostensiva subversão de todas as normas legais e constitucionais, para além de uma flagrante violação dos direitos humanos.
Depois, na eventualidade de o fugitivo vir a ser justificadamente abatido, por reagir de forma violenta à aproximação dos agentes policiais, pondo em risco a vida destes, subsistirá sempre a dúvida sobre se a morte do suspeito terá sido determinada por razões incontornáveis e efectivamente ponderosas, sem alternativa possível de neutralização, ou se afinal os gatilhos foram premidos com demasiada ligeireza, em impensado acatamento da “ordem” recebida.
Além disso, admitindo como possível que o suspeito tenha tomado conhecimento desta suposta fatwa, (quem pode garantir que ele não teve entretanto acesso a conteúdos da imprensa ou da televisão?), o seu comportamento pode vir a ser decisivamente influenciado pela expectativa de uma morte tida como certa, acentuando o seu desespero e exacerbando uma maior agressividade da sua parte, colocando em maior risco os próprios agentes policiais e outras pessoas com quem possa cruzar-se.
Acresce que o anúncio desta “ordem para matar” provoca certamente um brutal e devastador impacto emocional nos pais, na filha (de 14 anos) e nos demais familiares do fugitivo. A sua família não merece tamanha crueldade.
Se a tudo isto associarmos o categórico desmentido da GNR resulta bem claro a que ponto se chegou na cobertura mediática de ocorrências desta natureza, explorando ad nauseam todos os detalhes, de manhã, à tarde e à noite em directo e em diferido, ao ponto de a ministra da Justiça ter sentido a necessidade de recordar aos senhores jornalistas que a interpelavam não estarmos a assistir a um “reality show”, mas a uma tragédia que já causou muita dor, consumiu duas vidas e pode vir ainda a ceifar outras”.
Assino por baixo!
Lisboa, 25-10-2016