Parece inédito na história do sofrimento humano, mas, nesta pandemia, as televisões têm-nos mostrado, a toda a hora, imagens e documentos de corpos que sofrem.

Por estranho que pareça, não nos são mostradas pessoas no sua ocupação diária, mas antes corpos deitados em camas hospitalares ligados a maquinarias sofisticadas, com graves dificuldades respiratórias,  e admiramos a solicitude de enfermeiros e médicos que vigiam constantemente os corpos e as máquinas para evitar o pior, o que quer, dizer para evitar a morte.Por estranho que pareça, e sem nos darmos conta, é o corpo humano em sofrimento que nos é transmitido e, quer queiramos quer não, estas imagens desestabilizam-nos e abalam os cânones da beleza e da vida enérgica e pujante que as publicidades televisivas também nos transmitem em outros momentos. Mostrar um corpo que sofre é, de alguma maneira, transgredir uma tradição idealista em proveito de uma representação patológica para provocar no espetador, segundo a finalidade, emoção, compaixão, medo ou horror.Os artistas representaram o corpo humano ao longo dos séculos.  Foi, na verdade, o primeiro objeto de arte. Talvez seja compreensivo, porque é o seu semelhante que o homem pode observar e é sobre ele que o artista se pode inspirar.O corpo humano que vemos nos hospitais é um corpo nu, frágil, á beira da morte, que implora auxílio. A imagem transmitida é a de um ser humano debilitado e dependente, fazendo apelo a quem o possa socorrer, prostrado na mais profunda das solidões, entregue apenas às mãos de Deus e do pessoal médico. É nestas ocasiões que apreciamos quem possa estar ao pé de nós para ouvir a voz reconfortante, os passos que se aproximam, as portas que se abrem. Cada gesto, cada som, cada movimento são momentos de esperança. Este ambiente de pandemia não nos pode desligar das duas vertentes do corpo humano: o eros e o tanatos, isto é, o corpo humano na sua beleza que nos atrai, nos seduz, que é fonte de prazer e aquele que sofre e que está à beira da morte.Estas imagens, que muitas vezes não nos deixam dormir, estão a inspirar artistas que as trabalharão e no-las transmitirão em tempo oportuno. Na tradição cristã, o corpo que sofre é o corpo de Jesus que teve a expressão máxima na crucifixão e que vemos ao centro de todas as igrejas. Também este é um corpo nu que os artistas nos apresentaram em todas as épocas e com todas as formas, quer sofredor quer glorioso, quer nos braços de sua mãe, nas mais variadas pietás, quer jacente e quase radiante, como, por exemplo, na pintura do grande artista italiano Andrea Mantegna. Este corpo que sofre temos vontade de o acariciar, de lhe dar todas as atenções porque não é só o medicamento que cura, também o contacto físico com a superfície exterior do corpo, designada a pele, comunica com o cérebro, apaziguando as angústias do ser humano.A fragilidade da vida e da morte que os média e a sociedade nos tinham escondido, agora são-nos mostradas com grande naturalidade, também para nos inculcarem a necessidade de estarmos em conexão com o nosso semelhante que passa por momentos difíceis.