O conto do vigário é uma expressão usada na lusofonia que, depois de muito bem elaborada, visa sempre vigarizar alguém.


Caem nesta situação os mais ambiciosos, que tentam atingir lucros com muita facilidade e pouco investimento. Já os mais cautelosos vão por outra manifestação da filosofia popular, quando a esmola é grande, o santo desconfia.
Dentro do que vos disse, resolvi hoje falar de uma figura bem conhecida dos portugueses, tanto pelos seus feitos desportivos, como pelos negócios muitas vezes escuros e nem sempre confirmados, como o da fruta, ou os do apito. Outros episódios dão ainda corpo a certa comunicação social, como os seus amores e a sua flatulência.
Estou a falar de Jorge Nuno Pinto da Costa, que para além do que disse, também é amigo de usar a frontalidade, sobretudo quando a água é desviada do seu moinho por falta de licitude, aí cai o Carmo e a Trindade.
O vigor e acutilância com que tempera os seus discursos criam um enorme eco na vida portuguesa, quando a razão adjetiva o tema que está em causa. Para além de tudo o mais, tem como timoneiro o melhor peito desportivo sustentado em mais de três décadas ao serviço do Futebol Club do Porto. Este seu feito avaliza-lhe uma dúvida em detrimento da verdade, porquanto poucos se afoitam a chamá-lo à razão.
Aqui chegados deparamos com o mais conhecido homem do Norte nos canais televisivos a queixar-se que foi vigarizado, e logo por ironia do destino por dois senhores que moram em Lisboa. Foram dois moiros, assim o pensou, muito embora não o tenha afirmado.
Tudo o que está em causa na queixa de Jorge Nuno foi o aval oratório dado ao Banco Espírito Santo pelo Presidente da República portuguesa e pelo primeiro-ministro de Portugal. Ambos afiançaram que metade uma determinada almofada financeira, dava e sobrava para tapar todos os buracos económicos da referida instituição. Estas afirmações foram ouvidas pelo país inteiro, talvez aí com um pouco de perspicácia houvesse motivo para desconfiança, pois quando as situações são vantajosas, resumem-se a número restrito de pessoas, que com as informações privilegiadas, se vão abotoando sem terem o menor pejo em darem facadas na economia, que continuará por muito mais tempo na unidade de cuidados intensivos.
Nestas situações, ninguém vem dizer que se aproveitou, só mais tarde e às más horas, alguns resultados de investigação nos darão conta daqueles que aqui foram jogadores de “lepra” e limparam a mesa da alta finança.
Dos incautos nem todos se queixam, uns por vergonha, outros por pertencerem à mesma clubite partidária dos dois que contaram este “conto”, e também há outros que ainda têm alguma esperança que na divisão das sobras sejam ressarcidos. Talvez apareça um colchão para substituir a dita almofada que repentinamente se esvaziou.
De todos aqueles que foram prejudicados no fraudulento negócio do “BES” é evidente que tenho que enaltecer a coragem de Pinto da Costa. Usou os órgãos de comunicação onde melhor se sente, contou como foi vigarizado e apontou os autores da vigarice, cada qual, trave mestra de órgãos do Poder.
Esta declaração do presidente portista, no meu ponto de vista torna-se bastante grave, porque os visados consentiram, ainda não me apercebi de qualquer ricochete por parte dos “vigaristas” denunciados, o que me permite afirmar que vivemos num autêntico lamaçal democrático, porque quem cala consente.
Creio que daqui por algumas décadas o caso BES, à semelhança de outros golpes que tiveram lugar em terras lusitanas e depois de muito bem pesquisado, dará matéria para uma boa série televisiva e bem cativadora de audiências. Pelas minhas contas eu não estarei cá para ver, muito embora gostasse de saber a quem iria desempenhar os principais papéis.
Pelo que tenho ouvido e vou ouvindo, de uma coisa eu fico convicto, se isso acontecer, seja qual for o realizador, penso que nenhum título lhe ficaria melhor do que: “O conto do vigário”.