Aproxima-se o Carnaval e, com ele, o Domingo Gordo. Vamos, então, brincar ao Carnaval ajudados por animais, nossos amigos.


O nome faz parte da identidade da realidade nominada. O caso dos animais não foge à regra. Balançando entre o outrora e o agora, relembro alguns animais domésticos com que mais me fui familiarizando à medida do meu crescimento. E não tenho dúvida que serão também estes, além de outros, os animais que estarão facilmente presentes na memória de muitos leitores.
O cão, animal doméstico de excelência, tem nome. Imagino que sempre o tenha possuído desde que entrou na casa dos humanos. E, por vezes, agora até se lhe atribui nome de gente, não sei se para elevar o animal à dignidade de humano, se para rebaixar a gente ao estado de simples animal, a gente que, sendo embora animal, até faz ciência, elabora tratados de pensamento, cria obras de arte e eleva o espírito para além das nuvens e das estrelas com poesia e adoração. Por isso não sei onde cabe aqui o animal com nome de gente nesta criação da cultura, mas sei que, com tal nome, estes animais, os cães, que se têm vindo a multiplicar por todos os lados, possuem uma espécie de superidentidade. São mais do que cão, eles são uma espécie de gente a fazerem parte da família. Cão de luxo, família sem rumo.
O boi e a vaca, animais geralmente de trabalho, tinham nome, mesmo quando se apresentavam em maior e menor manada e, sobretudo, quando, atados a um jugo ou a uma canga de madeira trabalhada com arte ou cheia de enfeites coloridos, se constituíam como junta para ararem a terra e puxarem o carro carregado dos seus frutos. E, para trabalho ou não, creio que ainda lhe é atribuído um nome, embora o arado lhes tenha sido roubado em favor da máquina de lavrar.
Encontrar-se-á em extinção em Portugal, mas o burro, esse animal doméstico dócil e muito útil em tempos que já lá vão, não tinha nome, o pobrezinho. Preciosos ajudantes no trabalho do campo e no transporte dos produtos da terra ou da lenha para alimentar a lareira, creio que ainda hoje os burros não terão um nome, lá nas terras por onde eles ainda resistem. Porque, como de vez em quando se noticia, o burro, animal doméstico de carga e de trabalho, encontrando-se em extinção, já raramente se vê, a não ser quando ele nos entra pela casa adentro, orgulhoso do seu protagonismo numa reportagem televisiva à boa maneira dos tempos modernos.
As galinhas, animais domésticos que anunciam o sol nascente e se empoleiram para trazerem o fim do dia, não tinham nome. E creio que continuam sem ele, esses pobres galináceos, tão úteis nas nossas mesas. Não possuem nome as galinhas, não têm identidade, até porque agora lhe foi roubada a liberdade do campo e foram enclausuradas em minúsculos compartimentos de fazerem ovos à vontade do dono. Os galináceos são bando. Simplesmente bando. Bando de galinhas.
Se a memória me não engana, as ovelhas e as cabras, esses animais domésticos tão úteis na economia caseira, também não possuíam nome, embora o pastor pudesse conhecer cada uma em particular. Salvo excepções, elas não possuíam identidade nominal embora tivessem identidade visual para o mestre do pastoreio. Eram rebanho e um rebanho é rebanho. Naturalmente, simplesmente rebanho.
Também os suínos não tinham nome, esses animais domésticos feios e sujos que faziam a maior tradição nos comeres das nossas aldeias, em qualquer casa e ao longo de todo o ano, desde que o porco entrava no cortelho até que, já no dealbar do ano, se comesse a último chouriço, cru ou cozido, a última lasca do bom presunto ou o resto final do toucinho. Mas, quando tal acontecia, outro exemplar suíno ia brevemente dar entrada na pocilga para a próxima temporada. Era o ciclo do porco. E sempre sem nome. Era porco, simplesmente. E creio que ainda é. Porco é porco, mesmo nos talhos de agora.
O porco sem nome, que é simplesmente porco, merece, todavia, e a vários títulos, uma menção especialíssima.
Extraordinário, este animal feio e sujo, mas sempre bem alimentado especialmente em tempo de ceva, quando é preparado em função das necessidades caseiras de alimentação. Feio e sujo, é verdade, contudo, tratado por mãos hábeis e sábias, cada parte do seu corpo acabava por possuir um sabor diferente e específico nas cozinhas e mesas dos seres humanos. Os nossos antepassados bem souberam aproveitar esta característica tão peculiar deste animal doméstico a que não era dado um nome. Porco é porco e nada mais. Ou será muito mais, se nos lembrarmos que à nossa mesa, o porco deixa de ser porco para assumir os nomes dos manjares em que se transformou. Ou em que os humanos o transformaram.
Porco sempre porco, o porco era simplesmente porco e ali se encontrava com destino traçado na pequena pocilga, a ser alimentado com a melhor vianda enfarelada, ao longo de alguns meses, para depois constituir as delícias da família e de quantos a viessem visitar. E tudo começava com a maior das festas. Era o dia da matança desde pobre animal que tão ricamente era alimentado como miseravelmente ficava finado e retalhado em mil pedaços que, devidamente seleccionados, constituíam os mais deliciosos acepipes produzidos nas famílias da aldeia. Desde a burzigada [se não sabe o que é, visite a minha aldeia] até ao cozido à portuguesa [o nosso, da nossa Beira, não o que é serviço em Lisboa], passando pelo chichorro [se não sabe o que é, chame-lhe torresmo] e por todo o tipo de enchidos, da morcela à farinheira, passando pela chouriça, o chouriço e a bucheira. secados nas varas no fumeiro da lareira da casa.
A festa ligada à matança do porco era sobretudo familiar e de amigos chegados. Agora os tempos são outros e a festa, transformada ou não em feira, alarga-se por esse país fora a toda uma vila ou cidade, como é a «Feira do fumeiro» de Montalegre, Vinhais e Trancoso. Ou, então, animam a aldeia como a «Festa do Chichorro» de Vila Mendo e a «Festa do Porco» em Aldeia Viçosa, terra que até há menos de cem anos era designada precisamente de «Porco». Mas, como o porco era porco sem nome, a aldeia passou a ser viçosa. Mas há mais. Ali para o Sabugal surgiu em tempos a Confraria do Bucho Raiano que, no corrente ano, realiza o XIV capítulo. Uma farturinha de iniciativas e animação de identidades genuínas, graças ao porco que, assim, vai tendo vários nomes: “feira”, “festa”, “confraria”.
Mesmo assim, tão cheio de sabores depois de mortos, os suínos, animais domésticos, outrora não tinham nome. E creio que continuam a não o ter, mesmo que agora patrocinem festas alargadas, feiras comerciais de renome ou confrarias com frades vestidos a preceito. Não tinham nome, é verdade, mas tinham um arganel, esse anel de metal com que se lhe enfeitava o focinho para que não fossassem na palha suja da sua habitação, já suja por natureza. E como se ouviam a sofrer, guinchando com a maior força possível quando, por momentos, eram bem agarrados enquanto um entendido da aldeia lhe furava os beiços e lhe enfiava aquela argola de arame como se fosse um brinco de luxo a identificá-los como membros de uma classe superior! Uma cena de meter dó, esta!
Os tempos são outros. Para mim e para todos. Já há muitos anos que não vejo um porco na sua casinhota de palha e esterco. Já há muito tempo que não vejo o focinho de um porco abrilhantado com o célebre enfeite. E nem sei se os porcos de agora retalhados nos talhos ainda suportam tais adereços. Não sei, portanto, se a moda ainda é moda naqueles tão úteis animais, mas creio poder concluir que a moda antiga dos porcos parece ter entrado na moda das modas dos humanos. É isso que me ocorre pensar quando encontro alguém com um pingente pendurado no nariz.
O bom enchido beirão tem a procura merecida e o bucho continua a engordar tanto o Domingo de Carnaval como aquela Terça-feira que tem nome de Entrudo. É que, se «no Carnaval ninguém leva a mal», também se pensa que não poderá fazer mal aquele manjar de excelência aldeã. Bom proveito.
Guarda, 29 de Janeiro de 2024