Noutros anos não cantava tanto, assim. Ou então não davam por ela os meus ouvidos.

Andariam eles ocupados com outros sons. Neste ano em muitas noites me levanta a voz, mesmo em frente da porta. Mal o Sol se esconde lá para os lados da Estrela, quando as formigas armazenistas cessam a faina do enchimento do celeiro e os pardais deixam o chilreio e se recolhem aos abrigos, logo a cigarra, deslumbrada com a estival quentura da noite, deixa o confinamento das horas diurnas, estende a pauta musical em estreitos troncos ramados e, escondida na folhagem, põe-se a cantar à Lua ou às estrelas meio ofuscadas com a luz dos candeeiros de rua.Mas não se deixa ver. É verdade que, não sendo eu naturalista, também não a tenho procurado com os olhos da ciência. Mas nunca a consegui descobrir. Só aquele canto estridente, sempre monótono e igual, acusa a sua presença. Consta que são conhecidas muitas espécies destes insectos, cada uma delas com cantoria própria, mas em frente da minha porta sempre aquela mesmidade estridente como quem, incapaz de refrear o ímpeto de uma tradição estival, impa a ignorar a virtude da temperança e a exibir fictícia fortaleza que sempre lhe tem dado muito jeito.Não sei se aprendi com ela mas aquela cigarra lança-me para devaneios que também eu não consigo refrear. O estridor cigarreiro, monocordicamente fastidioso, parece imitar aquele que, sabendo a música de cor, lança ao vento uma arenga de usuário cassete com modificações de ocasião a atrair adeptos para a festa e, impando de orgulho exibicionista, parece até ignorar o contágio virulento e o respeito que bem merecem outros cantadores que, musicando, ganhavam o pão de festa em festa, de festival em festival e que estão presentemente a encontrar barradas todas as escadas dos palcos do país e não sei se do mundo. Confinados ao espaço caseiro para estes artistas a tradição já não é o que era. Cidades e aldeias ficaram sem festas, os jovens ficaram sem festivais e nem os santos saíram em procissão. Digam o que disserem as vozes ignaras, o vírus não é democrático.Estou em crer que a cigarra que vem cantando à minha porta ensaia nas noites quentes na esperança de algum convite surpresa ou de poder vir a oferecer os seus serviços nalgum festival de excepção. Porque se passa no corrente ano o 150.º aniversário do nascimento de Augusto Gil, dadas as circunstâncias, do poeta da “Balada da Neve” abri “O Canto da Cigarra”. No final de muitos poemas satíricos, fui lendo com satisfação aquele conjunto arengado para desmontar alguns ditos populares de “A Sabedoria das Nações” como lhe chama o poeta. Meditabundo, parei a ler e a reler o poema “Dá Deus nozes a quem não tem dentes”:«Há aqui troca de vozesE raciocínios trocados;Melhor seria dizer: «Não são as nozesPara os desdentados.»As nozes nunca ficam por comer…Comem-se quantas nas nogueiras há.E daí provémQue Deus as dá- A quem os tem…»A cigarra da minha porta canta sempre a solo e, quanto eu posso inferir pela direcção do som, também sempre no mesmo lugar, com lugar marcado, a horas previamente definidas e, quando tem companhia, constato que é respeitado o distanciamento físico, ao contrário do que se passa entre os humanos em cujo mundo parece haver sempre algum caso de excepção. Por isso terá razão o poeta: “os deuses dão nozes a quem tem dentes”, sobretudo se forem dentes arreganhados de pretensa fortaleza e manifesta arrogância perante os quais os próprios deuses parecem ter medo de fazer cumprir as normas e zelar pela saúde de um povo.Ultimamente a cigarra da minha porta deixou de cantar. O tempo arrefeceu um pouco e, feita pedinte da fábula de La Fontaine, terá ido cedo a bater à porta do formigueiro de celeiros a abarrotar de grãos de grande variedade de sementes. Talvez a formiga porteira, espreitando por um reduzido postigo, tenha estranhado a sua presença em pleno Verão. Talvez a cigarra tenha explicado que tem sido muito esquecida no seu país a pobreza envergonhada como aquela em que se encontrava. La Fontaine não o diz, mas, condoído, talvez o formigueiro ainda tenha reunido de emergência em assembleia geral para oportuna decisão. A formiga porteira ainda chegou a invocar o estado miserável em que a pedinte se encontrava, mas o veredicto fora unânime:- Confinamento é confinamento, - diziam em coro -. Aqui cumpre-se a lei da salvaguarda da saúde pública. Se a cigarra é assim tão esmerada a cantar como diz, que procure aqueles lugares de excepção em que possa musicar sem restrições e onde não lhe faltarão auditórios nem os aplausos costumeiros.Há quem diga que a cigarra, aproveitando a brisa de uma tarde mais fria, bateu suavemente as asas e partiu para a região da capital. Haviam-lhe dito - não sei se as formigas - que havia por lá um espaço a céu aberto e bem quente onde poderia cantar e dançar, comer bons petiscos regionais e, para sobremesa e prémio de participação, receber uma lição de política.Há quem diga também que a cigarra, consciente de que não tinha dentes para mostrar e muito menos para arreganhar, entrou furtivamente num imponente espaço, observou com esmerado cuidado toda a azáfama para a instalação da estrutura festiva, saltou de palco em palco e, imaginando o ambiente que ali se iria criar, concluíra facilmente que ele contrariava em tudo a lei do seu estado. A euforia imaginada daquela multidão extasiada, enquanto a lição política do chefe ecoava nos ares com os aplausos entusiásticos dos presentes, contrastava em absoluto com o confinamento do formigueiro. Desanimada, furtivamente como entrara, abandona aquele estranho recinto enquanto ia pensando:- Os deuses devem estar loucos! Antes morrer de fome do que de asfixia pandémica ou espezinhada por uma multidão em festa de loucura colectiva.Depois – assim observaram alguns mais atentos – abriu o livrinho de Augusto Gil e leu pausadamente: «Lenha verde mal se acende, É ditado sobre o fogo.A seca, então, nada rende,Se arde bem – queima-se logo…»Depois, triste e melancolicamente, ia perguntando ao vento: - Assim se «queima» a lei? É seca e «nada rende»? Ou será ela «Lenha verde» que «mal se acende»? O Verão ainda não terminou e o calor sentir-se-á novamente. Tenho a certeza de que a cigarra voltará a cantar à minha porta.Guarda, 19 de Agosto de 2020