Histórias que a Vida Conta

Trata-se de uma expressão que se ouve frequentemente no futebol. Significa que ocorreram ou ocorrem factos estranhos ao jogo stricto sensu que interferiram no mesmo a favor de uma das equipas e em prejuízo da outra. Assim, perante uma arbitragem que se revela parcial - ou que é acusada de parcialidade – é frequente ouvir-se que o “campo está – ou foi – inclinado”, alterando-se, por isso, as circunstâncias de normalidade desportiva, pelo que o resultado não corresponde ao que se passou (ou deveria ter passado) em campo. Forças exteriores interferiram na evolução do jogo e alteraram o seu natural desenvolvimento.Também na política se pode dizer que “o campo está (ou ficou) inclinado”. Querem um exemplo? Quando o Presidente de uma Câmara Municipal (C.M.), que irá em breve terçar armas num duelo eleitoral com outros competidores, beneficia do privilégio único de acesso semanal a um fórum televisivo de grande audiência onde, naturalmente aproveita o tempo de antena para fazer a propaganda das suas iniciativas políticas e do seu partido, ou a defesa das suas medidas e projetos, e quando tal acesso é exclusivo dele e só dele, sendo assim inacessível aos seus concorrentes, estão a desequilibrar-se as armas da disputa. É o que acontece com Fernando Medina, o Presidente da C. M. de Lisboa, que dispõe de um valioso tempo de antena todas as terças feiras à noite na TVI, na entrevista exclusiva que lhe é feita e que já vem de longe.Parece-me evidente que já estamos demasiadamente perto da data das eleições autárquicas para que esta situação, que inevitavelmente “inclina o campo” a favor desse candidato, continue imutável. Fica mal ao privilegiado que se aproveita da situação, mas também ao canal de televisão que continua a patrocinar a “inclinação” do terreno do jogo a seu favor.Ou será que a disputa eleitoral que se aproxima tem regras diferentes consoante os candidatos em confronto? Não bastam as oportunidades próprias, inerentes ao cargo de Presidente em exercício que delas faz natural uso, nem basta o facto de que esse seja o candidato do Partido que governa o País e que, por isso, beneficia de tempos de antena superlativos em relação aos restantes? Só me apetece dizer: haja decoro, meus Senhores; não abusem dos privilégios dos cargos em que se encontram investidos. Os outros também são gente…Pessoalmente até aprecio o estilo, civilizado e cortês, de Fernando Medina, bem diferente do jeito truculento do Ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos, que dizem ser estrela em crescente ascensão no PS, tão acarinhado por comentadores e políticos que querem rever-se num Partido Socialista liderado por um anticapitalista ameaçador no porte e poderoso na projeção da voz. Alguém a quem ainda não ouvi uma ideia de governo ou de futuro que não seja dirigida contra aqueles que quer ameaçar nos seus direitos e legítimos interesses. Mas a insuficiência é por certo minha, porque não se chega tão alto e tão depressa sem projetos devidamente explanados e verbalizados com correção, delicadeza e decência. Afirmações gritadas como as que dirigiu há alguns anos aos banqueiros e capitalistas alemães sobre o não pagamento da nossa dívida, ameaçando mesmo que “ficariam com as pernas a tremer” se passássemos das ameaças aos atos, ou a briga de rufiões que, há poucos dias, o opôs ao patrão da RyanAir, foram por certo erros meus de interpretação que em nada desvalorizam o “cavalheiro” que alguns anunciam como possível sucessor de António Costa…Trata-se, porém, de um estilo que teve como cultor maior o anterior primeiro-ministro José Sócrates, o autointitulado “animal feroz”. Pedro Nuno Santos deverá ter presente que não é aos gritos e com ameaças que se ganha o respeito dos eleitores. Esse tom “chavista” pode permitir êxitos fugazes em tempos de crise profunda como a que vivemos. Mas não resiste à passagem do tempo e à erosão de uma vida política. Recuperados os valores, regressada a espessura da reflexão e do conhecimento, os cultores da arruaça ou da briga passarão de moda e serão esquecidos, ficando, quando muito, na memória coletiva, como uma simples nota de rodapé da governação contemporânea.Mas, por ora, António Costa tem razões para sorrir. Os partidos à direita do PS tudo estão a fazer e tudo continuarão a fazer para que ele se vá perpetuando no poder. Pode dispensar mesmo a falta de projeto e a ausência de ímpeto reformista para o país; substituindo-o por “uma retórica passadista de esquerda, às vezes rude e agressiva”, com o propósito de, com o endurecimento da linguagem ideológica, nos distrair a todos do vazio de reformas e de ideias. Não precisa de mais, porque, do outro lado, não há – nem se divisa – qualquer projeto de alternativa. Um líder da oposição sem capacidade de mobilização do seu partido que vai navegando qual barca sem norte e sem destino, um CDS já náufrago, como, ao menos uma vez, disse com acerto esse inefável Ministro Cabrita e um “Chega!” que “se escora e ancora em exortações ideológicas do radicalismo de direita, tipicamente anti-sistema” – cfr. Paulo Rangel, “Direita-esquerda: de retorno ao pós-PREC?”, in “Público”, de 1 de junho, pág. 7. E “em que consiste essa afirmação tribal de identidade anti-sistema? À cabeça na reivindicação de cargos e pastas ministeriais, na mais velha tradição do “tachismo”. E depois em medidas desumanas e histriónicas como a “castração química” de criminosos sexuais e a “prisão perpétua” (Paulo Rangel, loc. cit. na nota anterior).Entretanto, apesar das desastradas intervenções das autoridades de saúde e de segurança num ziguezague de decisões relativas à realização de eventos ou à garantia, logo desmentida pelos factos, de “ingleses que deveriam chegar(e partir) em bolha” (?!) mas que circularam à vontade pelo Porto, o processo de vacinação prossegue a bom ritmo sob o comando responsável do Vice-Almirante Gouveia e Melo que, em boa hora, substituiu a incompetência patrocinada pelo anterior responsável que fora a primeira escolha do Governo.Mas, se é verdade que o primeiro-ministro tem bastas razões para sorrir, nós, os cidadãos eleitores e o povo, temos motivos de sobra para nos preocuparmos. Perante este domínio incontestável do PS e do seu Governo, sem programas consistentes e projetos políticos dotados de coerência, receamos uma aplicação/distribuição atrabiliária dos fundos da “basuka”, à velha maneira dos hábitos de anteriores governos (um “bolo” para os amigos e apaniguados). E, em face da inexistência de uma alternativa política de centro-direita e de um líder que a congregue, com os radicalismos à direita e à esquerda, temos de convir que as regras do jogo estão subvertidas, uma vez que “o campo está inclinado” e muito temo que assim continue por longo tempo.Lisboa, 2 de junho de 2021