O ATOLEIRO

“Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para utilizá-las como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação.”Estas são palavas proferidas pelo Papa Francisco, aquando da apresentação da sua mais recente encíclica sobre fraternidade universal.O que terá o título do texto a ver com a encíclica do Papa Francisco?Tem tudo a ver. Se pegarmos e fizermos uma interpretação literal do substantivo masculino “atoleiro”, ele remete-nos para um terreno com muita lama. Se por outro lado o virmos pelo seu sentido figurado, já o podemos entender como significando uma situação difícil, complicada ou traduzindo um rebaixamento moral.Efetivamente, hoje vivemos uma situação politicamente muito instável, quer a nível nacional, quer a nível internacional e que se manifesta num constante rebaixamento moral e numa falta de ética que põe em causa a dignidade do ser humano.Até pegando no sentido mais literal do “atoleiro” o podemos transformar numa expressiva metáfora, quando queremos interpretar de forma mais fiel a realidade política do nosso dia-a-dia.Razão de sobra tem o Papa Francisco para questionar o significado atual das palavras democracia, liberdade e justiça.Todos os dias se fala muito de Trump e Bolsonaro, mas apenas como forma de lançar uma espécie de manto opaco que só serve para desviar atenções de muitas das ações que vão esvaziando de conteúdo esses mesmos vocábulos: democracia, liberdade e justiça.Senão, vejamos.Enquanto nos entretinham com Trump e Bolsonaro, despediam da Procuradoria Geral da República Joana Marques Vidal, que cometeu o pecado de ser uma mulher vertical e atacar os poderes que se sobrepõem à própria justiça que ela tinha que defender.Enquanto se continua a falar de Trump e Bolsonaro o primeiro ministro e o governo quiseram alterar o atual Código dos Contratos Públicos de uma forma que o presidente do tribunal de contas apelidou como “porta aberta à corrupção”. Já há pouca...Coitado do presidente do Tribunal de Contas que abriu a boca e caiu em desgraça. Não concordou que se esvaziassem concursos com recurso à simples consulta prévia, não concordou com a dispensa de justificações de custo/benefício nem com a dispensa de os adjudicantes apresentarem projetos de execução nos cadernos de encargos.Foi imediatamente despedido, por telefone, pelo primeiro ministro.Olha agora! Então, vêm aí quinze mil milhões de donativos da Europa e o presidente do Tribunal de Contas queria estragar a festa que já está em preparada para os receber? Queria pôr fim ao festim dos subsídios comunitários?Vai para a rua e acabou-se! Festa vai haver, custe o que custar!Enquanto se fala de Trump e Bolsonaro ficámos também a saber que empresas condenadas num processo de corrupção, que afetou a Força Aérea Portuguesa e que deu penas de prisão efetiva, vão poder continuar a abastecer os militares.Se as mesmas empresas fossem devedoras ao fisco, a relação com as Forças Armadas já não seria permitida. Mas como são só corruptas, podem continuar a trabalhar livremente. Enquanto falavam de Trump e Bolsonaro, aqui ao lado, em Castelo Branco, também o presidente da Câmara Municipal ia fazendo umas negociatas entre a autarquia e o respetivo pai, enquanto a esposa, deputada da nação na Assembleia da República, falsificava uma assinatura para receber fraudulentamente os famosos subsídios comunitários e uma procuradora do Ministério Público achava por bem desvalorizar o crime e penalizá-lo com uma simples multa.Enquanto se fala de Trump e Bolsonaro não prestamos atenção ao brutal aumento da mortalidade não Covid-19 que ocorreu no nosso país, à falta de investimento em setores estratégicos que podiam potenciar a nossa economia e à morte de um jovem esfaqueado na Amadora.Convém falar de Bolsonaro e de Trump para que o manto da opacidade não se levante sobre estas e outras matérias.Continuem a falar de Trump e Bolsonaro e teremos que repetir muitas vezes as palavras do Papa Francisco, a propósito daquilo que se passa no nosso país.O lodaçal em que se transformou o atoleiro convoca-nos a todos para a defesa da liberdade, da democracia e da justiça. Estes valores têm que ser necessariamente ancorados em padrões éticos e em mecanismos de transparência e celeridade por quem tem o dever de decidir na nossa sociedade.