É da tradição. Nesta época, nos últimos dias do “ano velho” e primeiros de “ano novo”, “vemos, ouvimos e lemos”, em revistas, nos jornais, nas rádios e nos canais televisivos, as mais diversas opiniões sobre o acontecimento, a personalidade e, até, a palavra do ano. Internacionais, nacionais e, mesmo, locais.

Aqui e ali, o cidadão é convidado a “votar” de entre personalidades e acontecimentos propostos pelos promotores. Ou então, a votação fica na mesa de uma qualquer redacção mediática. Escolhas pela positiva ou pela negativa. Depois, altissonantemente, proclamam-se os “vencedores” do ano. E a variedade vai sendo grande, como é grande a variedade de critérios de avaliação que nem sempre são identificados. E são tantos!Não fugiu à regra este 2021 que agora findou. Com origem em múltiplas fontes, a variedade foi aparecendo. E foi-nos chegando o eco das escolhas feitas. Fixei-me, sobretudo, no âmbito internacional. Curiosamente não encontrei as escolhas que fui fazendo eu, intimamente ou em conversas de proximidade. Nem nas propostas nem nos resultados encontrei a minha escolha. Serei, talvez, uma “ave rara”! Nos dias 9 e 10 de Outubro de 2021, o Papa Francisco abriu, solenemente, o Sínodo sobre a Sinodalidade que há bastante tempo se vinha anunciando. No dia 9 com um discurso apresentado como «Momento de reflexão para o início do percurso sinodal” e, no dia 10, presidindo a uma Celebração Eucarística na Basílica de São Pedro, em Roma. Na homilia do dia 10 o Papa detém-se, sobretudo, em três verbos a serem conjugados na caminhada sinodal: encontrar, escutar e discernir. No discurso do dia 9, Francisco põe a Igreja de sobreaviso contra três riscos: o “formalismo”, o “intelectualismo” e o “imobilismo”. Já se estará a ver. O acontecimento do ano, para mim, passou-se nos dias 9 e 10 de Outubro em Roma e no dia 17 do mesmo mês em todas as dioceses do mundo. Foi nesses dias, já o lembrei antes, que se iniciou todo um processo que se prolongará por dois anos: a caminhada sinodal para a Igreja Católica, que pretende envolver todo o Povo de Deus e - há que acentuá-lo - todos os homens e mulheres de boa vontade.Exceptuando alguns órgãos de inspiração cristã, o acontecimento passou à margem dos grandes órgãos de comunicação social em Portugal. No entanto, estamos perante o maior acontecimento da Igreja Católica depois do Vaticano II como o faz notar o teólogo Piero Coda. Mais. Como já outros realçaram, trata-se de um processo de auscultação nunca antes visto em qualquer momento da história da humanidade. Quer-me parecer que os meios jornalísticos portugueses estarão longe de se aperceberem quer da relevância intrínseca do Sínodo para os crentes cristãos espalhados por todo o mundo, quer a sua dimensão enquanto potencial mobilizador da comunidade humana neste século XXI em que nos encontramos, momento crucial da vida da Igreja e do mundo, cercado por uma série de fenómenos de elevada complexidade: pandemia, pobreza e miséria, conflitos locais e internacionais, alterações climáticas, migrações, fome, terrorismo, injustiças, racismo, violência, perseguições e desigualdades a crescerem na humanidade. Encontramo-nos, vamos ouvindo com frequência, num “mundo perigoso”.E o silêncio mediático continua, passados já três meses depois daquela abertura. Silêncio quer quanto ao evento, quer quanto à própria palavra, “sínodo” e “sinodalidade”. As referências são praticamente nulas e as informações escassas. Imagino um trilema explicativo: ou os meios mediáticos não entenderam ainda a relevância do Sínodo para a Igreja e para o mundo ou o ignoram intencionalmente ou a informação não lhes chega de modo adequado para a poderem tratar jornalisticamente. Ou ainda - quarta hipótese - porque se descrê dos resultados de um evento desta natureza. Ignorância, preconceito, indiferença ou cepticismo. Ou um pouco de tudo.Sabendo nós que, na sociedade mediática em que nos encontramos, só existe aquilo que entra no circuito comunicacional dos média, não admira que nem o evento - a abertura do Sínodo -, nem o seu promotor - o Papa Francisco -, nem a palavra - “sinodalidade” - tenham entrado nas relações mediaticamente apresentadas para assinalarem o 2021. Mais do que um daqueles acontecimentos de estrondo tão apreciados por alguns meios mediáticos, o Sínodo é um processo, um caminhar lento como a luz da manhã que lentamente vai iluminando os horizontes.Encontramo-nos claramente num momento crucial do mundo e da Igreja Católica. E, em momentos cruciais, chamamento a medidas cruciais. É esse o desafio do Papa Francisco.As palavras “sínodo” e “sinodalidade” poderão parecer ainda estranhas para muitos, embora elas, assim poderemos dizer, sejam virtualmente tão antigas como as raízes da nossa cultura ocidental, enquanto ela entronca na antiga cultura grega. Aquela palavra traduz a grega o composta de um prefixo que significa “com” e um substantivo que significa “caminho”. O sínodo é um “com caminho”, o acto de “fazer juntos o caminho”, é “caminhar juntos”, ou, nas palavras do Papa, “Fazer Sínodo significa caminhar pela mesma estrada, caminhar em conjunto”, o que só pode realizar-se com o exercício dos verbos em que se centrou o Papa na homilia de 10 de Outubro: “encontrar”, “escutar” e “discernir” que pressupõem o “falar”. E a pergunta surge naturalmente: “Fazer juntos o caminho” para onde? É o Papa que dá a resposta no discurso do dia anterior: fazer caminho para uma “Igreja sinodal”: um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar”. Uma Igreja “estruturalmente” sinodal e não só “ocasionalmente”.O Papa Francisco, no seu entusiasmo e optimismo pastorais, conhece bem os riscos que são muitos. Naquele discurso escolheu falar de três: o “formalismo” reduzindo o Sínodo “a um evento extraordinário, mas de fachada”; o “intelectualismo”, pelo qual se “transforma o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo… acabando por cair nas habituais e estéreis classificações ideológicas e partidárias; e o “imobilismo”, traduzido no “fez-se sempre assim” que é um “veneno na vida da Igreja” ao mover-se num horizonte que não leva “a sério o tempo que vivemos” e que corre o risco de adoptar “soluções velhas para problemas novos.” Talvez estes três riscos se misturem um pouco em todos nós, não só na Igreja, mas também noutros domínios da vida social. Se haverá quem se agarre ao cajado do catastrofismo vendo sempre em tudo nuvens negras ficando presos a lamentações inconsequentes, outros poderão ser tentados a assumirem uma atitude voluntarista acreditando que a solução para os problemas se encontra nas mudanças estruturais. Elas resolveriam, como por encanto mágico, os problemas com que se debatem a Igreja e o mundo. O caminho preconizado por Francisco encontra-se antes nas virtualidades do processo: “encontrar”, “escutar” e “discernir”. Um processo de “participação” que nunca estará terminado. Por isso, profeticamente o Papa Francisco tem a ousadia de dizer que “o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio.” Isto é, o Sínodo não acaba em 2023. A sinodalidade é o caminho do milénio. Não só para a Igreja, mas também para a Humanidade. “Encontrar”, “escutar” e “discernir” são verbos a saber conjugar com urgência entre os indivíduos, entre os povos, entre as culturas, entre as religiões, entre os países e estados. Certamente para os fiéis da Igreja Católica a sinodalidade tem a virtude da fé e da sacramentalidade baptismal, mas, para a Humanidade, ela tem a força da própria natureza social Humana. Será por isso que o Sínodo da Igreja se encontra aberto a todos, homens e mulheres de boa vontade.Guarda, 7 de Janeiro de 2022