Histórias que a Vida Conta

1 - Todo o processo que culminou com a nomeação como Chefe do Estado Maior da Armada (CEMA) do Almirante Henrique Gouveia e Melo foi mais um exemplo da forma lamentável como as instituições nacionais tratam muitas vezes alguns assuntos de Estado, conseguindo estragar histórias bonitas e, até, exemplares, transformando-as em confusas e complexas jogadas de bastidores e mal engendrados exercícios estratégicos que redundam numa inqualificável trapalhada. Trapalhada essa de que ninguém sai bem esfalfando-se em roda viva para sacudir do seu capote a responsabilidade, atirando-a para as costas de outrem.Dir-me-ão: mas não foi esta “operação” arquitetada pelos excelsos táticos da nossa mais refinada política?! Depois de três meses de maturação, António Costa, acolitado pelo seu ministro da Defesa, propôs – novamente! - e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), deu o seu agrément – à nomeação do novo CEMA. Mas desde o processo em si até à própria cerimónia de posse, foi tudo mau demais…! Tanto “talento” e tanta “habilidade negocial” para, no final, tudo redundar numa farsa miserável e aflitiva de “engana tolos”. Só que não somos tão tolos assim…! e vamos ficando fartos de “habilidosos” e “malabaristas” destes.  Venha quem fale direito e com verdade, claro e sem subterfúgios e caminhe por estrada à vista e não por atalhos enviesados. Nesse sentido, é preciso que o “Novo-Ano” seja mais do que isso; é fundamental que seja também um ano NOVO: com outros protagonistas, com outro respeito pelos cidadãos e com outra verdade na boca dos responsáveis. O episódio da nomeação de novo CEMA foi de facto sintomático: dele saíram mal o Governo, nomeadamente o primeiro-ministro e o ministro da Defesa, o P.R. e Comandante Supremo das Forças Armadas – missão para cujo exercício MRS não tem definitivamente revelado especial talento – o próprio Almirante Gouveia e Melo, com a sua desmultiplicação em entrevistas desde que, inopinadamente, foi dispensado da sua notável e meritória atividade como coordenador da task force da vacinação (se bem que a sua falta logo se tenha feito sentir…) e o próprio Almirante Mendes Calado, anterior CEMA, que, em caso algum e por muitas razões que lhe assistissem, deveria ter-se dispensado de declarações sobre a sua saída a contragosto do comando da Marinha e estado presente na tomada de posse do seu sucessor. Enfim ficaram mal as Forças Armadas que tanto prestígio tinham obtido com o exemplar processo de vacinação superintendido pelo Vice-Almirante Gouveia e Melo, que soube arrumar uma “casa” sem trambelho, para organizar um processo impecável, justo e competente.Penso sinceramente que a popularidade “explosiva” alcançada pelo Vice-Almirante provocou ciúmes na classe política e, entre ela, nos seus mais altos e ambiciosos expoentes. As suas declarações excessivas, a deixarem aberta uma porta para uma futura incursão no mundo da política, não só lhe conseguiram anti-corpos como também geraram receios de concorrência pesada em futuros atos eleitorais. Não poderia estar ali um temível adversário numa próxima pugna eleitoral para a Presidência da República? Ou um adepto de causas cívicas com enfeudamento partidário? Repito: os índices de popularidade de Gouveia e Melo “arrasavam”, o que, como diz o vulgo, gerava muita “azia”. A sua eleição como figura nacional do ano não surpreendeu ninguém. O hoje Almirante Chefe do Estado Maior da Armada é (continua a ser, apesar de tudo) detentor de quotas de popularidade difíceis de igualar. Também por isso era importante “calá-lo” e torná-lo inofensivo do ponto de vista político. De tudo isso resultaram vítimas colaterais: a Marinha, as Forças Armadas e o anterior CEMA, Almirante Mendes Calado, além dele próprio.
2 – A vacinação não evita o crescimento dos contágios. Mas reduz sensivelmente as consequências maléficas da doença disseminada pelo vírus Omnicron. É uma evidência que os internamentos hospitalares e a gravidade da doença reduzem-se para as pessoas vacinadas. O mesmo se diga dos óbitos. Isto significa que não há que hesitar: vacinem-se, tomem a dose de reforço, cuja administração está, todavia, manifestamente atrasada. Vacinem as vossas crianças, desde que não haja contraindicações médicas. A nível mundial, os Estados mais desenvolvidos e mais ricos têm a obrigação ética de contribuírem para a vacinação dos países mais pobres e atrasados. A informação nacional sobre assuntos de saúde – vacinação das crianças, colapso da Linha SNS 24, doenças COVID e não-COVID – continua muitas vezes a não acertar no alvo e a criar situações de mal-entendido, contribuindo para sobrecarregar, sem necessidade, os hospitais e o pessoal de saúde que lá trabalha. Não resisto, também por isso, a respigar, da entrevista do ora CEMA ao EXPRESSO de 23 de dezembro, um trecho sobre a transmissão das mensagens sobre a vacinação dos mais novos e sobre o secretismo dos pareceres. Respondeu o Almirante: “Não faço comentários nem adjetivação. Digo só que a informação que tem a ver com decisões de saúde pública deve ser publicada e aberta ao escrutínio da população. A discussão, quando não é bem explicada, cria dúvida e a dúvida corrói o processo. Imagino-me na cabeça de um pai : perante uma comunicação errática fica com mais receio” – loc.cit., pág 8. Estou de acordo. Não obstante a sua boa vontade, a comunicação da DGS é, no mínimo, confusa e problemática.Quando, vai para um ano, na fase mais aguda da pandemia, os óbitos eram às várias dezenas por dia e as ambulâncias se acumulavam em longas filas à entrada dos hospitais, cansei-me de assistir à menorização e à discriminação negativa dos serviços de saúde privados e sociais. Os próprios militares só foram chamados a intervir quando se tornou visível a incompetência e a incapacidade dos meios do SNS para dirigirem o processo de vacinação. Como é evidente, não falo da capacidade científica e técnica, matérias em que só temos de “dar graças” pela imensa disponibilidade e exemplar resiliência dos nossos profissionais do SNS (mas também dos hospitais privados) apesar das limitações de meios com que se debatem diariamente. Falo, sim, da área logística e organizativa, onde faltava quem fosse capaz de arrumar a casa e impor as regras da igualdade e da eficiência em vez de pactuar com amiguismos e compadrios. Surgiu o Vice-Almirante. Correu bem. Mas, inexplicavelmente, quando tal não era previsível, foi dispensado dessa comissão de serviço, foram desativados centros de vacinação e tudo voltou atrás: à comunicação errática e aos atrasos e indecisões.Mas pronto, meus caros leitores, esqueçam, isso foi no ano passado!2022 é OUTRO ano. E “outro” quer dizer “que não é o mesmo”, que é “diverso”, “diferente”, “distinto”. Tal qual como nós o queremos, não é assim?   Lisboa, 29 de dezembro de 2021