Pontos de Vista


Para mim, o dia de “São Voto” continua a ser um dia especial.
Levanto-me sem pressas, visto-me com algum primor, almoço com a Família e com os Filhos e só depois vou (vamos) votar.
Este ano, com uma novidade deliciosa. A nossa neta, a Carminho, com os seus quatro anos ladinos e questionadores, acompanhou-me à Secção de voto. A Presidente da Mesa disse-lhe, com graça, que tinham ali uma cadeira para as princesas e ela, um tanto contrariada, lá se foi sentar, enquanto eu entrava na cabina e exercia o meu direito de votar. Dobrado o boletim, peguei na Carminho ao colo e foi ela que o introduziu na urna. Quando descíamos, encontrámos a minha Filha Ana e a garota, vendo a Tia, disse-lhe logo que queria ir votar outra vez.
E lá foram as duas. Na Secção de voto da Ana, a Carminho foi autorizada a entrar na cabina e voltou, radiante, com um rebuçado na mão, que alguém da Mesa lhe ofereceu.
Uma vez em casa, passei a tarde entre leituras e escritas, aguardando calmamente as dezoito horas e os resultados da sondagem à boca da urna.
Não havia qualquer stress quanto ao partido que sairia vitorioso, de tal modo as sondagens conhecidas eram claras e, nesse ponto, coincidentes. Ganharia por certo o PS e, com toda a probabilidade, sem maioria absoluta, desbaratada no decurso de uma pré-campanha e de uma campanha pouco conseguidas.
As minhas dúvidas centravam-se nas seguintes questões concretas: (a) a abstenção ultrapassaria a das últimas eleições legislativas? (b) os votos brancos e nulos iriam aumentar ou diminuir? (c) o PS iria ficar à frente do PSD com uma diferença superior ou inferior a 10%? (d) o resultado do BE iria ultrapassar os 10%? (e) o PCP iria conseguir manter os 17 mandatos que obtivera em 2015? (f) o CDS conseguiria resistir ao regresso ao táxi? (g) qual seria a dimensão da subida do PAN? (h) algum ou alguns dos novos partidos iria(m) conseguir eleger representação parlamentar?
As respostas foram esclarecedoras. A abstenção voltou a crescer, tendo atingido os 45,5%, ou seja, o recorde em eleições legislativas. Os votos brancos e nulos também subiram, tendo, em conjunto, chegado ao número de 218.000, atingindo, assim, percentagem de quase 4,5%, o que faria deles o quinto partido nas eleições legislativas. O PSD, com 27,90%, ficou a menos de 9 pontos do PS, que ganhou claramente com 36,65%. O Bloco de Esquerda, embora tenha conservado os seus 19 deputados, perdeu cerca de 60.000 votos e não chegou aos 10 por cento, ficando-se pelos 9,67%. O PCP em conjunto com o PEV teve uma inequívoca derrota, tendo perdido mais de 100.000 votos e cinco deputados, ficando-se pelos 12 mandatos e não passando dos 6,46%. Para o CDS foi o descalabro. Perdeu 13 mandatos, tendo conseguido eleger apenas cinco deputados, com uma fatia eleitoral de 4,25%. O PAN, pelo contrário, foi um grande vencedor, atingindo os 3,28% e elegendo quatro deputados, pelo que quadruplicou a sua representação. Quanto aos pequenos partidos, houve importantes novidades. A IL - “Iniciativa Liberal” (1,29%) –, o Livre (1,09%) e o Chega (1,30%) elegeram, cada um, um deputado por Lisboa.
Penso que é interessante fazer-se um contraponto entre, por um lado, os partidos que vêm do século passado e que representam o tradicional sistema político português (PS, PSD, CDS, PCP e BE), que dominaram praticamente em exclusivo a representação parlamentar até 2015, quando o PAN conseguiu eleger o seu primeiro deputado e, por outro, os números que podem representar o anti-sistema: os votos nulos e brancos e os votos nos pequenos partidos. Ora, a primeira conclusão que se pode retirar é que estes números relativos ao que chamámos o “anti-sistema” têm vindo a subir sucessiva e impressivamente.
Em 2002, apenas 3,5% dos votos dos eleitores foram para pequenos partidos, para brancos e nulos; em 2005, essa percentagem subiu para 5% e, em 2009, alcançou os 6,2%, tendo em 2011, atingido os 8,5%. Em 2015 chegou aos 10%, número entretanto soterrado pelos das recentes eleições de 2019, quando os votos dispersos pelos pequenos partidos e pela soma mais nulos “saltou para uns impressionantes 15%” (João Miguel Tavares, “O lento desmoronar do sistema político português”, in “Público”, de 8 de Outubro, última página).
Como escreve o jornalista citado, isso significa que o peso do anti-sistema dentro do sistema mais do que quadruplicou em menos de duas décadas – e esta é a verdadeira notícia destas eleições, até porque com o reforço do PAN no Parlamento e a entrada do Chega, da Iniciativa Liberal e do Livre, a tendência será sempre para estes partidos aumentarem as suas votações nas próximas legislaturas, à boleia da maior visibilidade dos seus deputados.
Permitam-se-me duas notas que penso algo originais. A primeira para dizer que, na minha opinião, o resultado final das eleições de 6 de Outubro foi particularmente indigesto para o Bloco de Esquerda, depois de uma noite de festa, celebrada em fraterna e informal celebração. Na verdade, depois de constatada a inexistência de maioria absoluta por parte do PS e de entusiásticas expectativas a respeito de uma votação que alimentasse com clareza os dois dígitos e permitisse reforçar o número de mandatos no parlamento, a noite acabou com os resultados algo pífios já mencionados; perda de algumas dezenas de milhares de votos, a meta dos 10% por atingir e, bem pior, a subida espectacular do PAN – em parte à custa do BE – e a entrada do Livre, rival perigoso no futuro Parlamento.
A segunda para me referir ao “Chega”, partido populista de extrema-direita, que elegeu um deputado. É um sinal preocupante, para o qual eu já tinha alertado mais de uma vez, nesta modesta coluna. Ao contrário da “Iniciativa Liberal”, que ocupa um espaço democrático legítimo e promissor, revelando imaginação e iniciativa, o “Chega” traz para o debate político ideias condenáveis e perigosas. No entanto, assim como previ a chegada a breve prazo da extrema-direita na arena parlamentar, também agora digo que a sua representatividade poderá vir a aumentar no futuro próximo. A “Geringonça 2.0” em preparação não vai impedir que o anti-sistema pare de crescer. Pelo contrário. O PS, que teve, na sua governação, êxitos indiscutíveis, sempre assessorado pela esquerda radical, contando com uma conjuntura económica favorável e pela solidariedade compreensiva e institucional do Presidente da República, vai agora entrar na sua hora da verdade.
Mas isso são contas para outro momento, depois de vermos o que aí vem, na “geringonça” e na direita e centro-direita, neste Parlamento tutti frutti.

*
Uma palavra final para manifestar o meu grande júbilo pela investidura de D. José Tolentino Mendonça como Cardeal.
Pensador, poeta e homem de Igreja, pastor de almas e guardador dos segredos arquivados numa Biblioteca monumental, homem de bondade e cristão com todas as letras, a sua elevação ao cardinalato constitui uma honra para a Igreja portuguesa e para Portugal. Para mim, modesto admirador do novo Cardeal, será contudo, sempre, o simpático sacerdote que me casou o filho e baptizou a neta.

Lisboa, 10 de Outubro de 2019