«Nihil sibi» ou o canto de quem é fonte

Foi recentemente notícia. E espero que de novo o venha a ser muito em breve. Os meios de comunicação, escritos e audiovisuais, fizeram-se eco do concurso para a concessão, no âmbito do Programa Revive, do Mosteiro de Santo André de Rendufe, situado no Concelho de Amares, entre o rio Cávado e rio Homem, a pouco mais de uma dúzia de quilómetros da cidade de Braga. Pretende-se a recuperação e adaptação do imóvel para exploração turística. Informaram os média de que havia sido assinado no passado dia 7 de Agosto um protocolo celebrado entre a Direcção Regional de Cultura do Norte, o Município de Amares, a Fábrica da Igreja Paroquial de Santo André e a Junta de Freguesia de Rendufe.As raízes do Mosteiro remontam ao século XI, mas ao longo dos séculos foi passando por alterações várias. As principais intervenções datam já dos séculos XVII e XVIII, incluindo a Igreja. Emergindo entre vinhedos com um marcante aqueduto, fora outrora um dos principais centros beneditinos em Portugal. Com a extinção das ordens religiosas masculinas em 1834, o conjunto arquitectónico monástico, bem como a sua cerca, foi vendido e a Igreja barroca passou a paroquial.Passei por Rendufe na minha juventude, como passei pelo antigo Mosteiro Cisterciense de Santa Maria do Bouro, também no Concelho de Amares. Menos de uma vintena de quilómetros os separa. De ambos me ficou uma imagem de edifícios relativamente degradados pelo peso da história e a incúria dos homens. Há cerca de 15 anos, numas férias passadas no Parque da Peneda e Gerês, andei novamente por aqueles caminhos. Se o Mosteiro de Santa Maria do Bouro se encontrava já devidamente recuperado e reconvertido numa pousada pela acção do arquitecto Eduardo Souto de Moura, em Rendufe pude constatar como o histórico conjunto arquitectónico monástico, classificado como “Imóvel de Interesse Público” desde 1943, se encontrava parcialmente em ruínas. A notícia de que, com excepção da Igreja, o imóvel poderia vir a ser recuperado e adaptado a exploração turística trouxe-me particular satisfação. Aliás não deixará indiferente qualquer cidadão amante da história e do património cultural construído, situe-se ele no Minho, como este Mosteiro, na Beira ou em qualquer região do país.Quando se entra no imponente terreiro enquadrado pela fachada barroca da Igreja e por uma ala do conjunto monástico, desperta também a atenção do visitante a singeleza de uma construção a quebrar o alinhamento de um elevado muro que completa o enquadramento do recinto. É uma fonte granítica de espaldar, delimitada por pilastras que suportam uma cornija alinhada com a parte superior do muro coroada por cartela entre duas volutas. Vale a pena parar e observá-la mais de perto.No corpo central rectangular da fonte está cavado um vão trilobado. Aí, a coroar o brasão da Ordem de São Bento em cujo centro se abre a bica da água, pode ler-se a inscrição latina «Nihil sibi». A fonte, sem paragens nem descansos, dá tudo o que tem e não guarda «Nada para si». Está bem gravado na realidade dura de uma pedra daquela fonte como escrito estará no coração de quem faz da vida uma inteira doação aos outros. Estivesse situada a fonte no interior de algum espaço monacal, poderíamos pensar tratar-se de uma máxima dirigida exclusivamente aos monges do Mosteiro, chamados a darem-se inteiramente aos outros na oração e no trabalho. O «Nihil sibi» poderia ser então uma maneira de aquele Mosteiro expressar o lema geral da Ordem Beneditina «Ora et labora». Estando no exterior, será certamente um desafio também para quem por ali passa e ali pára a saciar a sede. O «Nihil sibi» da fonte seria, pois, para qualquer passante o espelho de uma outra vida, onde o egoísmo e a corrupção não poderiam ter lugar.É conhecido o poder simbólico da “fonte”, associado ao simbolismo da “nascente”, do “rio” e da “água”, na cultura humana em geral e particularmente na religião. A Bíblia inicia com uma fonte ou um rio no paraíso terrestre que logo se desdobra em quatro (Gn 2,10) e encerra no Apocalipse (22, 1) com a fonte originária da vida eterna no quadro da cidade celeste da Nova Jerusalém. Pelo meio encontramos a fonte aberta por Moisés no rochedo do deserto e o encontro de Jesus com a mulher samaritana junto à fonte de Jacob.Miguel Torga, não sei se inspirado nesta fonte de Rendufe, utilizou precisamente a expressão latina «Nihil sibi» para titular um livro de poesia que abre com o seguinte poema: «O Poeta é uma fonte: / Nada reserva para a sua sede; / Canta também a dar-se, /E não dorme, nem pára.»Deixemos para os especialistas a análise literária do poema e do «Nihil sibi» de Miguel Torga. Limitemo-nos a observar que o escritor, comparando o poeta com a fonte que «Nada reserva para a sua sede», não esquece a música da fonte que, sem parar e sem dormir, «Canta também a dar-se» numa espécie de alegria da doação.Geralmente o simbolismo da fonte está associado ao simbolismo da água. A fonte é símbolo de vida porque dela jorra a água sempre necessária à vida. Mas, se bem entendo, no Mosteiro de Rendufe aquela expressão latina centra o simbolismo na disponibilidade da essência de fonte para dar e não tanto naquilo que dá. A fonte dá e nada guarda para si. Sendo assim, mais importante do que o conteúdo da doação, a água dada, é a própria fonte que sempre se dá humildemente ao caminhante. Nada guarda para si e nada pede em troca. A acção desinteressada de dar é a natureza da fonte. E o que a fonte dá é semente de futuro.Seja ou não bem-sucedido o concurso que agora foi aberto para o restauro e requalificação daquele antigo Mosteiro, a expressão latina «Nihil sibi» lá continuará - salvo a incúria absoluta dos homens – lá continuará bem gravada na pedra granítica daquela fonte que se salienta num muro a confinar um espaçoso recinto do Mosteiro. Como aviso, como convite, como apelo e chamamento, ou como esperança e lei da vida, lá continuarão aquelas duas palavras latinas para memória dos homens. Haja quem as saiba traduzir. Seja uma qualquer pessoa singular, seja quem orienta e dirige as instituições da sociedade humana, sejam quantos, detentores do poder político, têm a responsabilidade da administração da coisa pública.Gravado na pedra, «Nihil sibi» é o canto alegre de quem é fonte.Guarda, 2 de Setembro de 2020