Neste país, já nada me “Odemira” ...

Depois do que se passou com as comemorações da vitória do Sporting, o melhor é tirar a ideia de que existe responsabilidade política em Portugal. Não me “Odemira” que não exista responsabilidade como não me “Odemira” que também não haja corrupção. As vergonhosas manifestações públicas que ocorreram de norte a sul do país devido a uma vitória desportiva, foram um autêntico desprezo pelos inúmeros sacrifícios que os portugueses fizeram durante mais de um ano. Uma falta de respeito para todos aqueles que sofreram, uns mais do que outros, com a pandemia que assolou o mundo em geral e Portugal em particular. Todos nos lembramos ainda da violência com que o nosso país foi afetado pela Covid-19 e os mais de dezassete mil mortos que isso causou. Ainda nos encontramos em situação de calamidade.Como sempre, a culpa é solteira e o jogo do empurra responsabilidades já começou. Cabrita, esse, parece que nem lá esteve, mas já mandou instaurar um inquérito à atuação da PSP, cujos pareceres nem foram tidos em conta. Ainda acaba a extinguir a PSP como fiz ao SEF para salvar a própria cabeça. A aglomeração de pessoas foi apenas um azar que não se podia prever, apesar de estar pré-anunciado.Também não me “Odemiraram” as tiradas de um Secretário de Estado Adjunto e da Energia que anda com as pilhas em sobrecarga pelas negociatas estranhas à volta do lítio e que chamou de “estrume” e “coisa asquerosa” a um programa da RTP1 que teve a coragem de confrontar este senhor com um conjunto de decisões estranhas, com envolvimento de pessoas estranhas e empresas estranhas que, estranhamente, tinham a respetiva sede na mesma morada de uma junta de freguesia socialista.Também não me “Odemiro” com as consequências do negócio de venda do Novo Banco à Lone Star, feito por António Costa e Mário Centeno, garantindo que não havia custos para o contribuinte.Também não me “Odemiro” que o Novo Banco seja um buraco sem fundo para os portugueses e que os amigos do costume continuem a sacar dali os milhões que todos nós vamos ter que pagar.Daí também não me “Odemira” que o presidente do conselho de administração da Nani Holdings, a sociedade-veículo através da qual os fundos detidos pela Lone Star detêm 75% do Novo Banco, esteve a assessorar o Banco de Portugal precisamente na venda daqueles 75% que estavam no Fundo de Resolução à Lone Star. Na prática, Kazarez estava do lado do vendedor do Novo Banco em 2017, e, um ano depois, passou a responder perante a entidade compradora.Já não me “Odemira” que o PAN, partido político que não se cansava de criticar os recibos verdes e a precariedade laboral, esteja agora a ser julgado pela contratação de assessores do grupo parlamentar a recibos verdes.Também não me “Odemira”, aqui de forma alguma, que o BE (Bloco de Esquerda), partido político que fazia do combate à violência doméstica a bandeira maior do partido e que defendia a solidariedade para com as vítimas, tenha um dos seus deputados e dirigentes máximos a praticar essa mesma violência doméstica e que esse mesmo Bloco de Esquerda, em vez de se solidarizar com a vítima se tenha solidarizado com o provável agressor.Este é o mesmo BE que também vociferava contra os negócios imobiliários e viu Robles, seu vereador na Câmara Municipal de Lisboa, envolvido numa escandalosa especulação imobiliária.Este é o mesmo BE em que João Pereira, um antigo vereador desse partido foi preso por ser o suposto líder de um esquema fraudulento para apropriação de imóveis por usucapião.Por tudo isso, já não me “Odemira” que a Carta de Direitos na Era Digital, aprovada recentemente pelo parlamento e promulgada pelo Sr. Presidente da República, abra a porta à CENSURA, tendo mesmo passagens quase iguais à sua congénere Lei da Censura de 1033, feita por Salazar.Nada me “Odemira”, nem que na proposta de Mecanismo Nacional Anticorrupção do governo, os gabinetes dos políticos fiquem de fora. Mais uma vez, os portugueses a serem tomados por tolos.Daí que tudo aquilo que se passou em Odemira, em que o governo, através do seu Ministro da Administração Interna, invadiu casas particulares, às 4.00H da madrugada, pela calada da noite, à força, comece a assumir um caráter de normalidade no meio de tanta anormalidade.Um dia destes vai ser a nossa casa. A Constituição da República Portuguesa passou a ser letra morta.Não se “Odemirem”, caros leitores!Como alguém diria “era um país pobre que gritava mais forte um golo do que uma injustiça”.