A pandemia do Covid-19 ocupa-nos quase de manhã até à noite. Inquieta-nos, evidentemente.

  Mas também nos contraria, em muito. Nunca estivemos tão bem informados sobre as características de um coronavírus, as suas origens, os modos de propagação. As características diretas e indiretas, a curto e a longo prazo, são numerosas.  Não há dúvida que este vírus ocupa, nas nossas vidas, demasiado espaço.Infelizmente, as constantes informações sobre esta pandemia desviam-nos também das outras realidades que assolam não só o nosso país, como nos escondem o que se passa no mundo. Os telejornais deixaram de falar dos conflitos, da corrupção, da miséria e de tantas situações de destruição existentes nas diversas zonas do globo. Ainda há bem pouco tempo, o Líbano sofreu uma das maiores catástrofes de que há memória. Este país afunda-se numa grave crise a todos os níveis. Necessitaria que se continuasse a falar nos diversos medias, para sensibilizar as pessoas a fim de as poderem socorrer a todos os níveis e por todos os meios. No Iémen, a guerra que parece não ter fim, já fez perto de 300 mil mortos e provoca uma grande crise humanitária. A Arménia vive sob a ameaça permanente de uma guerra com o Azerbaijão. Os dois países disputam-se o Alto-Carabaque, uma região que pretende separar-se do Azerbaijão, que é apoiada pela Arménia, o que corre o risco de desestabilizar todo o Cáucaso, ao fazer ressurgir demónios antigos.A situação é também grava na Líbia, onde a Turquia e o Egito poderão entrar em guerra apenas para disputarem a hegemonia sobre aquele país que lhe resolveria o problema do abastecimento de petróleo durante décadas e a baixo custo. E como já é recorrente, o presidente turco, Recep Erdogan ameaça deixar milhões de refugiados para a Europa, o que a poderia fazer rebentar pelas costuras. Também a China, ao mesmo tempo que se aventura numa imprevisível guerra fria com os Estados Unidos da América, reprime violentamente a sua minoria muçulmana uigure. Esta minoria é objeto de deportações, de envio forçado para campos de deportação, de reeducação e esterilizações forçadas. Quem fala ainda da guerra na Síria? Dos refugiados, que continuam a aventurar-se em embarcações rudimentares para encher os bolsos de passadores pouco escrupulosos?Paradoxalmente, se é verdade que a focagem das informações na Covid-19 nos impede de ver os males do mundo, também esta mesma doença foi ocasião, para certas fortunas, de  crescerem duma maneira desmesurada, a tal ponto que o aumento da fortuna dos mais ricos (Amazon, Bill Gates, Facebook...) quase poderia pagar o pacote da ajuda financeira da União Europeia – 750 mil milhões de Euros. Ao matracarem-nos todos os dias com as informações da Covid-19, que por vezes ocupam mais de metade dos jornais televisivos, esta maneira de agir provoca-nos mais problemas do que soluções. E, a simples árvore que constitui esta pandemia, impede-nos de ver a floresta e de olhar para o mundo que nos rodeia. Talvez nos queiram encobrir as terríveis consequências que se, inevitavelmente, se aproximam: as económicas, laborais, psicológicas, e sobretudo de saúde mental que podem ter consequências imprevisíveis e irreversíveis na nossa juventude que é a esperança de uma nação.É verdade que a Covid-19 não é tudo, mas, para alguns é uma mina de quase tudo.