Hoje, 18 de Outubro, começa em Lisboa uma Semana Cultural do Vietname.

O palco das actividades é o Museu de São Roque e o Largo Trindade Coelho e a iniciativa é da Associação de Amizade Portugal-Vietname e da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
O tempo é assim, não pára. Quando o jornal chegar às mãos dos leitores, será tudo já passado. Ou talvez não, como espero. Veremos mais tarde. Entretanto, aquilo que eu escrevo com sentido de futuro, leia-o, caro leitor, com o sentido de um presente do passado que poderá ter também uma dimensão de futuro.
Durante vários dias decorrerão naqueles espaços actividades diversas onde não faltarão, em tonalidades, sabores, odores e ritmos vietnamitas, a música tradicional, a literatura, a pintura, o cinema, a fotografia, a cozinha de rua, o artesanato, o teatro de marionetes.
A semana encerra com a celebração eucarística presidida por Sua Excelência Reverendíssima D. Matthew Nguyên Vân Khôi, bispo da diocese de Qui Nhon, na zona central do Vietname.
Os dias 23 e 24 são preenchidos com um colóquio subordinado ao tema «O Património deixado pela Missão dos Jesuítas Portugueses no Vietname». No dia 23 quatro comunicações desenvolvem o tema «Francisco de Pina, o Quôc Ngû e André de Phú Yên» e, no dia 24, cinco comunicações vão reflectir «Em torno da Lusitanização e Romanização do Quôc Ngû». Os palestrantes são 5 vietnamitas, 3 portugueses e um francês, Roland Jacques, um investigador que tem trazido para a memória internacional o papel dos jesuítas portugueses naquele longínquo país asiático, com particular realce para o P. Francisco de Pina.
Não desanime o leitor com tão estranhas palavras. O Quôc Ngû é a língua nacional do Vietname, tal como a conhecemos hoje, escrita em caracteres latinos e com sabor lusitano. André de Phú Yên é o protomártir vietnamita beatificado pelo Papa João Paulo II em 2000. Foi martirizado numa terra preferida por Francisco de Pina para o trabalho de evangelização e acção linguística. Há relíquias dele numa das capelas da Igreja de São Roque, contígua ao Museu do mesmo nome. A exposição destas relíquias será um dos momentos marcantes da semana.
E Francisco de Pina, quem é? Leitores mais atentos às crónicas que venho publicando neste jornal há já vários anos lembrar-se-ão dele, certamente, porque já em muitas ele foi aqui sendo evocado. Francisco de Pina é um egitaniense que está no centro destas jornadas e, em geral, de toda a semana cultural vietnamita que tem por detrás a Associação Portugal-Vietname e que pretende integrar-se em celebrações centenárias. Atentemos à razão, embora repetindo informações que já passaram pelas páginas deste jornal.
Até às primeiras décadas do século passado a escrita vietnamita utilizava os caracteres ideográficos chineses, caracteres que hoje todos vamos conhecendo de tão familiares que nos são nos espaços comerciais dos nossos centros urbanos ou de restaurantes chineses espalhados pelo país. Foi há 100 anos que um Decreto Imperial consentiu a utilização do alfabeto latino na língua nacional do Vietname, acabando por pôr fim ao recurso dos caracteres ideográficos tipo chinês na escrita vietnamita.
Como é fácil de perceber, a substituição de uns caracteres por outros é necessariamente uma tarefa complexa e demorada, sobretudo tratando-se de uma língua em que os sons se conjugam subtilmente com tonalidades muito características, como como são as da língua vietnamita.
É aqui que se insere a grande importância deste jesuíta da Guarda que, na então Cochinchina, onde foi missionário no Séc. XVII, iniciou essa tarefa da transcrição latina da língua local, socorrendo-se do nosso alfabeto e de um conjunto de sinais diacríticos. Se hoje formos à internet e procedermos à procura adequada, lá encontraremos uma escrita monossilábica em que as letras do nosso alfabeto vêm acompanhadas de sinais diacríticos vários. O resultado é uma mancha linguística de que emerge uma beleza característica.
Francisco de Pina vai possuindo actualmente um reconhecimento internacional no domínio da cultura e da linguística, lá no Oriente e cá na velha Europa. É este homem da Guarda que está no centro da Semana Cultural do Vietname e que é evocado de modo especial quando nestes dias se fala de O Património deixado pelos Jesuítas Portugueses no Vietname.
Foi há 9 anos que publiquei no N.º 25 da Revista Cultural, Praça Velha, editada pelo município Guarda, o meu primeiro texto com alguma dimensão sobre Francisco de Pina, a que se seguiram posteriormente mais dois publicados na mesma revista e um na revista Brotéria. Entretanto em várias crónicas publicadas neste jornal foi sendo evocado este homem da Guarda que foi mestre de língua na antiga Cochinchina, hoje Vietname. Pretendia então trazer às gentes da Guarda a memória desde homem que a Guarda não poderia continuar a esquecer.
Passados 10 anos são os intelectuais vietnamitas que nos vêm acordar da longa amnésia em que a nossa história deixou cair este missionário e linguista nascido na nossa cidade da altura das serras e que hoje está bem vivo no linguajar de milhões de vietnamitas.
Por coincidência, ou talvez não, esta evocação de Francisco de Pina dá-se em Portugal enquanto decorre o Outubro Missionário 2019, por proclamação do Papa Francisco. Este missionário que, na Guarda foi baptizado com as águas da Estrela e que recebeu o Baptismo da Glória a 15 de Dezembro de 1625 nas águas da Baía de Da Nang (Vietname) onde faleceu em trágico naufrágio, bem merece que a sua memória fique eternizada na Guarda e o seu nome gravado em pedra de Além Mar. As letras do seu nome, que evocam também a sua vida, bem poderão convocar muitos para a magna assembleia da memória dos povos.
Não sou profeta nem adivinho, mas creio que a Guarda vai ser visitada num futuro próximo por turistas vietnamitas.
Guarda, 18 de Outubro de 2019.