Não somos todos tolos...

Se bem me recordo, no início da pandemia, em março de 2020, houve uma escassez de máscaras que levou a que se atingissem preços totalmente especulativos neste produto.Nestas circunstâncias, perante um inimigo invisível e vivendo em circunstâncias nunca vividas, foi possível dizer tudo e de tudo. Ouvimos coisas que nunca pensámos ouvir. Até foi possível, para nosso pasmo, ouvir a senhora Diretora Geral de Saúde afirmar que não se deviam usar máscaras porque poderia ser contraproducente, pois essas mesmas máscaras podiam potenciar o contágio pelo coronavírus.Após esta “tirada” da Dra. Graça Freitas, acredito que movida por orientações políticas e não por pareceres técnicos e científicos, assistimos a coisas inacreditáveis, como ver pessoas nas ruas e nos supermercados a repreender outras por estarem a usar máscaras contra as orientações da DGS (Direção Geral de Saúde). Enquanto isso, outros mais esclarecidos, os mascarados, assistiam com a perplexidade própria de quem não entendia nem aceitava que a mais alta responsável deste organismo de saúde pública tivesse proferido as afirmações que proferiu e que tivesse desencadeado os comportamentos que desencadeou.Tudo isto porque, simplesmente, não havia máscaras e o governo temia uma corrida a estes acessórios protetores da Covid-19, o que poderia deixar os hospitais em situação de carência.A carência do produto justificou a mentira, porque eu não acredito que a afirmação tenha sido produzida com convicção técnica ou científica.Atualmente já se discute a hipótese de uso de duas máscaras em simultâneo.Um ano passou desde a invasão do vírus e pouco mudou no nosso país. Nada se planeou em nome da crença de que tudo era passageiro e a segunda e terceira vagas apanharam-nos novamente desprevenidos. Não foram os cidadãos que não planearam, foi o governo que nada fez para que tudo fosse diferente. É ao governo que compete planear a nossa vida coletiva, naquilo que são as competências que lhe estão atribuídas, nas áreas que ele tutela.Desta vez não faltaram as máscaras, mas faltaram os computadores para alunos e professores. Os equipamentos informáticos prometidos pelo Primeiro Ministro, em 9 abril de 2020, deviam ter sido distribuídos pelas escolas, no início do ano letivo, em número de um milhão e duzentos mil, conforme anunciado, para evitar o caos em caso de novo recurso ao E@D (Ensino à Distância).Ora, foi apenas mais uma promessa e de computadores pouco mais de cem mil chegaram efetivamente aos alunos, já em final do primeiro período escolar.Como não havia equipamentos, houve mentira.E qual foi a mentira?A mentira dizia que “não havia nenhuma evidência científica que indicasse que as escolas eram locais de contágio”. Eu pensava que a falta de computadores só causava perturbações no E@D, mas afinal também causa perturbação na informação científica que chega aos nossos governantes. Como é que os mais altos responsáveis do Estado podem fazer afirmações desta natureza?Todos sabemos que na escola coexistem todas as relações sociais das famílias, que são para ali e dali transportadas pelas crianças e jovens enquanto alunos, e que facilmente se expandem pelas redes de relações pessoais que se estabelecem entre eles. Sabemos igualmente o quanto os jovens necessitam da socialização no seu dia-a-dia e é essa mesma socialização espontânea que faz das escolas espaços privilegiados de contágio da Covid-19. Só quem não sabe como se relacionam as crianças e jovens e desconhece as suas necessidades e comportamentos socias pode afirmar que as escolas não são locais de contágio. Fazer uma afirmação destas só por falta de computadores, é risível. Talvez fosse importante que os nossos governantes viessem às escolas, mas teria de ser de surpresa, para não encontrarem ambientes controlados artificialmente.O E@D chegou e o sistema de ensino não estava preparado para lidar com ele. As dificuldades são semelhantes hoje às de ontem e as evidências dizem-nos que não soubemos aprender com as dificuldades do passado. Tudo isto é lamentável e é por essa mesma razão que uma ministra já veio anunciar que as escolas serão as primeiras a desconfinar. Pudera, não querem expor por muito mais tempo as fragilidades do planeamento do governo, mas esquecem-se que nem todos somos tolos.Já nem quero aprofundar muito o caso concreto das escolas privadas que estavam devidamente preparadas para o E@D e que foram proibidas de lecionar no período de interrupção das atividades. Nivelar por baixo é o mote do momento, um pouco na linha do quanto pior, melhor.