NÃO SOMOS DE CÁ

Desde a criação da Humanidade, biliões de seres vivos, nomeadamente os humanos, chegaram ao nosso planeta, estiveram por cá e a devido tempo partiram. Por isso os que ainda cá permanecemos, dizemos que a nossa vida é uma passagem, dado que só consideramos vida enquanto por cá estamos.Muito embora se diga que tudo acaba com a partida, em minha opinião, e não só, isso não corresponde de todo à verdade, pois quem por cá passou, aqui ou ali deixou uma marca que ao ser vista mais tarde por outros, traz recordações para uns e saudades para outros.São os que ficam com as saudades os que mais sentem num passamento. São os fiéis depositários das obras e dos atos, sobretudo humanitários, de quem sucumbiu tantas vezes vergado pelo sofrimento, tantas vezes insensível para o próprio enfermo.Todos nós sentimos uma certa afronta quando um ente que nos é querido luta contra o destino. É evidente que o destino sai sempre a vencer, nada o faz vacilar e por isso ouvimos dizer com toda a verdade, nua e crua, quando algum desgosto acontece, lá vem a sentença, é fatal como o destino.A permanência neste Mundo, que é o dos vivos, não é para todos igual, embora exista uma tabela a que nos habituámos a chamar esperança de vida, muitos passam essa barreira e outros ficam muito aquém. Como as respetivas chegadas não obedeceram a qualquer critério, a todo momento se foi chegando, bem como a toda a hora se foi partindo, são os que ficam que enquanto estão falam dos que foram para a eternidade e que por sua vez deixam para os chegam mais tarde, as efemérides e o modo de vida que se teve pelo meio em que fomos vivendo.Contam-se por vezes histórias de vida apaixonantes, ao ponto de quem é ouvinte afirmar, que pena eu não ter conhecido, referindo-se ao indivíduo de quem se fala.Tudo isto navega num mar infinito, numa nau que se chama “Saudade” e que a língua portuguesa melhor do que qualquer outra sabe caraterizar no seu vocabulário. É esse sentimento que umas vezes nos alegra, outra nos abona a tristeza, consoante a página que estamos a ler daquele ente que nos era querido e que muito estimámos enquanto esteve entre nós. Ficámos mais pobres com a sua partida, pois deixamos de contar com tudo aquilo que esse ente amado nos podia transmitir e ensinar. Evidentemente que a morte também faz parte da vida, eu costumo dizer que é o seu ponto final. Tem o condão de colocar em descanso os que recebe, por outro lado vai carregando de mágoas os que vão ficando sustentando com o peso da dita nau, a que chamamos saudade. Dando tempo ao tempo, acaba por limar algumas arestas e aprendemos melhor a lidar com esse pesar, que só cada um o sente e nem que queira desfazer-se dele não consegue, pois é intransmissível e por mais que se queira alienar ninguém o consegue. Não seria verdadeiro se aqui não dissesse que nesta cena eu sou o ator principal! Eu sou o que fiquei até que o destino marque a hora. Sou eu que tenho comigo um vasto leque de recordações a que mais ninguém teve acesso, por isso terei que as guardar ou divulgar consoante as decisões de momento. Já não sou quem era, nem volto a ser quem sou, mas enquanto viver quero ser sempre fiel aos princípios que recebi enquanto criança e em alguns dos erros que cometi, me ajudaram a formar como cidadão.Perdoem-me por este desabafo! É uma terapia de que faço uso e me deixa aliviado, como tantas vezes o palavrão numa hora de maior excitação me põe mais sossegado. Não sou perfeito e como sou humano, também o não consigo ser. Mas carregado de defeitos e com algumas virtudes, cá continuarei convosco enquanto Deus quiser, pois não somos de cá e todos temos que rodar na roda da vida.