Estamos a entrar no mês de Junho.

O mês dos Santos Populares. O mês de festas, cortejos e sardinhas. E feiras, também. Não haverá terrinha portuguesa nenhuma que não tenha o seu S. Pedro, o seu S. João ou seu Santo António para ser festejado. Se não for um grande, será um S. Pedrinho, um S. Joãozinho, ou um Santo Antoninho. Eles, Santos que são, até se alegrarão com o devoto diminutivo nos nomes.
Fechando bem a porta ao vírus com as chaves da protecção e da precaução, haja, então, festa. É por isso que são populares aqueles Santos. Se não for com celebração religiosa, seja com uma fogueira de rosmaninho ou com um arraial popular, simples ou mais rico e abrilhantado. Mas festa à portuguesa é que não pode faltar em cada povoado neste mês de Junho, variando, embora, o brilhantismo festivo de acordo com as tradições e os feriados que aqueles Santos oferecem. E, se a pandemia se intrometer nos planos festivos, haja festa na intimidade do coração. Aí, onde a pobreza e riqueza franciscanas se podem conjugar numa harmonia superior, seja em Lisboa, Porto e Braga, tradicionalmente as capitais mais festeiras e que mais atraem os folgazões, seja em qualquer outro lugar.
Já se aproxima Santo António com o seu dia 13 que a Lisboa dá a sorte de um feriado com o sabor de um fim de semana a prolongar outro antecipado. Tem, pois, a capital o seu Santo António festeiro, embora, desde a fundação de Portugal, seja S. Vicente o padroeiro de Lisboa, como bem o anunciam os dois corvos a ladear a barca que constam no brasão e bandeira da cidade. S. Vicente é o padroeiro, mas é Santo António o eleito do povo para a festa e marcha que traz a Lisboa milhares de turistas. E não faltarão imagens mais menos artísticas, mais ou menos originais, saídas das mãos de criativos escultores. Forasteiro que se preze não deixará de levar o seu Santo António como lembrança ou devoção. A festa de S. Vicente, a 22 de Janeiro, perde em esplendor e animação de rua comparada com os arraiais da festa de Santo António a 13 de Junho. Até os artistas de ocasião parecem ignorá-lo. É o Verão a ganhar ao Inverno, ou a sardinha a ganhar a outro peixe mais frio. Coisas dos homens, peregrinantes na Terra, que fazem estas subtis distinções vivenciais. Para erudição de uns e confusão de outros.
Se os Santos fossem de questiúnculas, de invejas, de ciúmes ou guerrinhas e guerras como são os humanos pecadores, S. Vicente, que veio de fora, trazido para Lisboa por uma promessa de D. Afonso Henriques, já teria reivindicado há muito, no Céu, maior justiça na Terra, exigindo um lugar proeminente nos festejos alfacinhas. E teria boas razões para tal. Ele veio de fora, convidado pelo mais nobre dos lusitanos, o fundador da portugalidade, e por aqui ficou a proteger Lisboa. Santo António, pelo contrário, que nasceu em Lisboa e que aqui entrou no Mosteiro de S. Vicente de Fora, como cónego regrante, abandona a terra natal e foi deambulando, peregrinando, pregando e ensinando para outras bandas do mundo, até falecer em Camposampiero, uma povoação a poucos quilómetros de Pádua. É nesta cidade que se encontram os restos mortais do “Il Santo”, como ali se diz, em sarcófago de mármore na basílica de seu nome: Basílica de Santo António. De Lisboa, dizemos nós, de cá, para bandeira da vaidade nacional. Porque, ele, o Santo António de verdade, é Santo e Doutor da Igreja. De Pádua ou de Lisboa. Melhor dito: da Igreja toda, na sua unidade sacramental.
Sem desprimor para Lisboa, vamos nós, então, para lá. Para Pádua.
Não sei quando ouvi falar pela primeira vez dos escritores clássicos latinos. Dos nascidos antes da nossa era como Plauto, Terêncio, Cícero, Lucrécio, César, Vergílio e Tito Lívio e dos nascidos já na nossa era como Ovídio, Séneca e Tácito. Certamente que me foram aparecendo ao longo do percurso escolar. Uns pela porta da História, outros pela do Latim e outros, mais tarde, pela porta da Filosofia. Mas também pela porta da disciplina de Português. Disso me lembro claramente. Foi no 5.º Ano liceal e ficou-me a imagem do erudito professor que, para motivar os alunos para a leitura e análise de “Os Lusíadas” de Luís de Camões, recitou de cor e em Latim, para espanto de toda a turma, os primeiros versos da “Eneida” de Vergílio “Arma virumque cano...” (As armas e o varão (herói) eu canto…), para logo passar, também de cor, ao início do poema épico de Camões: “As armas e os varões assinalados… / cantando espalharei por roda a parte, / se a tanto me ajudar o engenho e a arte.” Aquelas primeiras estrofes, recitadas entusiasticamente pelo professor, transmitiram assinalável beleza musical, latina e portuguesa, e semearam fôlego nos alunos para o tratamento de outras.
- Não estou a perceber patavina disto. O que tem a ver Santo António com os clássicos latinos? – perguntará o leitor, já talvez incomodado com esta estranha viagem.
A pergunta e o lamento, porém, podem constituir-se como uma espécie de invocação a Santo António. De Pádua e não de Lisboa. É para lá que vamos, já se disse. Para a Pádua de Santo António de Lisboa. É de lá que vem a nossa palavra «patavina» que, consequentemente, não será bem “nossa”, mas de narrativas, reais ou imaginárias, provenientes de Pádua, cidade a que os romanos, nos primeiros tempos da era cristã, chamavam “Patavium”.
É mesmo o que o leitor estará a pensar. A raiz da palavra «patavina» está em Pádua. Melhor dito: na “Patavium” dos romanos. Ou da Patávia, se alguém assim preferir, porque também assim se diz. «Patavino» passou a designar tanto um habitante de “Patavium” como tudo auilo que de lá provém ou que se relaciona com esta cidade. Relativo a Pádua, diremos actualmente.
Entramos na Patávia pela mão de Tito Lívio, um conhecido clássico da historiografia latina. O percurso linguístico deu-se à boleia deste clássico. Não tão clássico ainda quando era lido pelos seus contemporâneos romanos que teriam dificuldade em entendê-lo. E a mesma dificuldade tem também todo o aprendiz do Latim, como bem sabem aqueles que alguma vez, por obrigação ou deleite literário, tentaram entrar na sua obra.
Tito Lívio nasceu na “Patavium” e nunca se terá desfeito completamente do toque, mais ou menos dialectizado, da língua da sua cidade natal. Uma espécie de dialecto vindo lá bem do Norte da Itália, onde se davam encontros com outros linguajares. Fecundos encontros, diriam alguns, porque alargavam as possibilidades expressivas da língua-mãe; nefastos e indesejáveis, protestariam outros, porque interferiam na pureza linguística e no poder comunicacional da língua romana. “Patavino” era o dialecto provinciano de “Patavium”, difícil de entender, mesmo, ou sobretudo, quando utilizado literariamente por um escritor. A «patavinidade» passou a significar o difícil estilo de Tito Lívio. “Não compreender patavina” significava não compreender o “patavino”, ou seja, a língua de Tito Lívio e o que ele escreveu.
Há quem diga que a expressão “não perceber patavina” se estendeu a Portugal com a chegada de frades franciscanos vindos de Pádua. Frades a falar patavino que os lisboetas não entendiam. Não sei que fundamento poderá ter esta tradição. Mas o que sei é que o nosso franciscano nasceu em Lisboa como Fernando e foi morrer a Pádua como António. E isto, depois de, num espaço de alguns anos e com os frágeis recursos disponíveis no Séc. XIII, dar a volta ao mundo que circunda o Mediterrâneo, passando com a sua palavra e acção por muitos dos principais centros urbanos, religiosos e culturais.
E nós, humanos do Séc. XXI, habituados à comodidade dos modernos meios de transporte, ficamos sem perceber patavina como tal foi possível. Esta caminhada apostólica incessante terá sido o primeiro milagre de Santo António. Será por isso que este Santo António é um dos Santos mais conhecidos e venerados em todo o mundo, como o reconheceu o Papa Leão XIII que o chamou “o santo do mundo inteiro”.
Jovens de todo o mundo tê-lo-ão também como patrono na Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023. Como, entre outros, terão também S. Vicente, o padroeiro de Lisboa. Santo António e S. Vicente encontram-se, assim, bem juntinhos a acompanhar, para Lisboa, a caminhada da juventude do mundo.
Guarda, 25 de Maio de 2022