Histórias que a Vida Conta

Devem estar entre as palavras mais ouvidas desde que, no nosso País, foi prorrogado o “estado de emergência”. Refiro-me obviamente à expressão “não baixar a guarda”. Significa naturalmente que não se pode relaxar ou, usando palavras também muito em uso, “não deixar folgar, isto é, não deixar diminuir a tensão da mola”. Em face da “tendência positiva – lenta mas positiva”, no dizer de Marcelo Rebelo de Sousa, importa manter o esforço: esforço de confinamento em casa, de distanciação pessoal, de rigorosa higiene das mãos… Foi essa a lógica que presidiu ao alargamento do período do estado de emergência, com o reforço de certas medidas impostas pelo tempo da Páscoa. Agora, que os números demonstram os efeitos positivos - embora ainda preocupantes – de tais medidas, seria inaceitável e imperdoável deitar borda fora os esforços e sacrifícios já feitos, regressando à normalidade do convívio ou reduzindo as limitações que os portugueses têm genericamente suportado com disciplina e sentido cívico. É que, como se escreve no editorial do EXPRESSO de 4 de abril, “a mola está a ser comprimida, mas qualquer relaxamento nesta altura poderia ser fatal”. Exemplificando, acrescenta-se no referido local: “Naquele dia de janeiro, os dois países que registaram o seu primeiro caso de infetados pela doença foram os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Agora no início de abril, Donald Trump vê-se a braços com cenários que admitem mais de 200 mil mortos pela doença no país. Tem ouvido falar da Coreia do Sul? E ainda bem.”Por quanto tempo mais é que estas medidas de isolamento e privação dos nossos velhos hábitos vão ter de se manter ainda? Ninguém pode responder com rigor. Por algumas semanas, por certo …É evidente que estamos cansados deste isolamento. Haverá quem reaja com particular dificuldade, manifestando impaciência, angústia ou agressividade perante a necessidade de reclusão e a falta de perspetivas para o seu levantamento.Pela minha parte, não estou entre os que têm mais dificuldade de adaptação a ter de passar dias a fio dentro de quatro paredes. Vivo bem em casa, entre os livros, a televisão e o computador. Voltei aos horários que, na faculdade, fazia nas “férias de ponto” – o tempo que mediava entre o fim das aulas e a realização dos exames. Habituei-me então a estudar pela noite fora, que se prolongava, tantas vezes, até às quatro da manhã. Em vez de aproveitar a frescura das manhãs, preferia fazer dois períodos de trabalho: o primeiro pela tarde, que se prolongava até ao jantar e o segundo, que costumava começar pelas 22.00 horas e, com interrupções, acabava pelas 3 ou 4 da manhã. Deitando-me tarde e cansado, sem necessidade de acordar a uma hora determinada – era indiferente levantar-se às 11, ao meio-dia ou, até, à uma da tarde -, dormia melhor e sem insónias. Assim me habituei a trabalhar pela noite dentro, regime que não sendo o mais aconselhável e que, por isso, não recomendo, foi aquele que melhor resultou comigo.É certo que não estamos todos nas mesmas circunstâncias – e não corremos todos os mesmos riscos. É verdade que o confinamento não tem as mesmas consequências para todos. Há os que têm dinheiro nas contas bancárias e há os que, vivendo do seu salário, estão hoje desempregados ou em vias de poderem perder o emprego. Também é seguro que a crise económica que já se abateu sobre nós e que se vai agravar até patamares imprevisíveis irá originar mais vítimas. Como escreve Daniel Oliveira, as crises matam: pela fome, pela perda de casa, pelo suicídio e pela ausência de recursos para manter os serviços públicos.Mas tal não significa que, no dia de hoje, deixe de se dar prioridade plena aos problemas de saúde pública. Interromper agora as medidas de confinamento seria imperdoável, quiçá. criminoso. Iriam criar-se, com toda a probabilidade, novos focos de transmissão do vírus, o que agravaria inevitavelmente as condições de recuperação económica e o levantamento das respetivas medidas.À hora a que escrevo – 7 da tarde do dia 7 de Abril – a televisão acaba de informar que, nas últimas 24 horas, morreram mais de 1.400 pessoas em França; mais de 780 no Reino Unido, onde o 1º Ministro Boris Johnson continua internado nos cuidados intensivos do Hospital de St. Thomas, em Londres; em Espanha ocorreram nas últimas 24 horas, 743 óbitos, tendo-se atingido a cifra total de 13.798 mortes e mais de 140.000 infetados; em Itália morreram 604 pessoas, pelo que foram ultrapassadas as 17.000 mortes; nos EUA, há 383.256 infetados e quase 11.000 mortes, tendo ocorrido mais de 1.400 óbitos no país e de 700 em Nova Iorque, nas últimas 24 horas. De registar o sinal “positivo” que se traduz no facto de o número de infetados em Itália ter sido “apenas” de 3.039, o mais baixo desde 13 de março. Mas estamos perante números abissais que, só por si, justificam as medidas de contenção,  as restrições à  liberdade de movimentos e o confinamento em casa, impostas por essa Europa fora e, particularmente, em Portugal, onde a realidade é  bem menos sinistra, embora a ocorrência de mais 34 mortes, entre ontem e hoje, com um total de 345 óbitos, e mais 712 infetados, num total de 12.442, sejam de molde a continuar a inquietar as autoridades de saúde e os portugueses em geral. De qualquer modo, parece que estamos no caminho certo.Continuam a ser denunciadas faltas de material necessário para este combate: faltam testes, máscaras de proteção para os cidadãos, há falta de gel desinfetante; escasseiam equipamentos de proteção para o pessoal de saúde, os novos heróis destes tempos, que, nos hospitais, se arriscam numa doação generosa e diária. A situação dos lares de idosos é particularmente dramática.Voltando à Europa e aos Estados Unidos, a morte de tantas pessoas e o drama das suas famílias, impossibilitadas muitas vezes de, nas últimas horas, prestarem o carinho aos seus entes queridos ou até de os acompanhar à última morada, vai ter inevitáveis consequências sociais e humanas, designadamente de natureza psicológica. A terceira idade, tratada na nossa geração com alguma displicência – casas de repouso, lares, ou asilos, seja qual for o nome, significa, em demasiados casos, “exclusão”- tem sido o alvo preferido do “vírus assassino” como se este estivesse investido de alguma sombria missão de equilíbrio demográfico. Os menos saudáveis, os fumadores, os diabéticos, também parecem entrar na lista de preferências deste cruel energúmeno. Permita-se-me, antes de terminar, uma recordação pessoal. Justamente no dia 7 de abril, completaram-se 59 anos sobre a data da morte de meu Pai, Armando Marques. Revivi a saudade de um pai que me faltou quando eu mais precisava dele, mas cujo exemplo e conselhos me acompanharam sempre, imbuídos da memória comovida da sua última bênção. Tinha 52 anos e foi um homem bom, filho devotado do distrito da Guarda, cidade que foi sempre o Norte da sua bússola.Lisboa, 7 de abril de 2020