O meu coração partiu-se de dor ao ver aquelas árvores da nossa Serra morrerem vivas, de pé, como verdadeiros heróis.

Ao verem as chamas aproximar-se, não fugiram, mas afrontaram o fogo, colocando a vergonha na cara àqueles que eram incapazes de evitar a imolação colectiva pelo lume.
Tal como em momentos de extremo desespero, as tochas vivas em que alguns humanos se transformaram resultaram sempre em movimentos de profunda contestação, porque estes actos fundadores têm sempre consequências na sociedade em que são praticados.
Estou convencido que a imolação pelo fogo das árvores da nossa Serra terá consequências que nem sequer podemos imaginar, não só na nossa existência imediata, mas também na das gerações vindouras.
Viveremos com um peso na consciência porque as deixámos partir sem as socorrer. A Estrela brilhará agora num outro planeta e apontar-nos-á para sempre a notável incúria de a deixarmos morrer tão cobardemente. A paisagem transformou-se completamente.
Parece termos horror ao verde das árvores e aos frutos de que, tão generosamente, nos fazem dádiva. A nossa negligência é culposa. Nunca nos sairá da consciência tê-las deixado partir. A mancha negra deixada pelo fogo assinalará para sempre o nosso pouco respeito por esses seres que fazem parte integrante de nós.
Aquelas árvores eram da nossa família. À sua sombra abrigávamo-nos nos cálidos dias de Verão. Eram as nossas companheiras nas caminhadas em solitário, em grupo ou nos memoráveis acampamentos de escuteiros que nos deixaram marcas para toda a vida. Caminharemos agora através de caminhos irreconhecíveis. Faltam-nos os marcos arbóreos que nos faziam companhias. Até mesmo os animais, que tiveram a sorte de não morrer nesta hecatombe, não vão reconhecer o horizonte de morte que por ali ficou. Ver-se-ão obrigados a emigrar para outras terras que não conhecem e não sei se, por desgosto e desespero, sobreviverão. As aves já não têm árvores para nidificarem e a única sinfonia que nos será transmitida na primavera será o silêncio medonho de uma montanha enraivecida, de mau humor e que dificilmente encontrará a paz. Era essa paz que procurávamos quando a visitávamos. Infelizmente, agora iremos em peregrinação para lhe mostrarmos a nossa revolta solidária, o que prova que subvertemos a função salvadora e apaziguante da mãe-natureza.
Estas árvores eram a companhia inseparável dos rebanhos e dos pastores que nos davam um queijo de ovelha considerado um dos melhores do mundo. Eram estas árvores que fixavam a água cristalina que brotava nas numerosas fontes que não deixavam morrer nem os caminhantes nem as populações. Os charcos, lagos e lagoas irão sofrer. Iremos perder alguns, outros serão transformados, ficarão irreconhecíveis e mostrar-nos-ão a desolação ecológica que levará gerações recompor.
Agora caminharemos nus, envergonhados, após termos negligenciado o cuidadoso tratamento do jardim edénico daquela Serra onde vivíamos felizes.
Morrer de pé é um verdadeiro acto heróico de que todos nos lembraremos, mas o grito lancinante que todas as árvores emitem quando imoladas pelo fogo, espero bem que seja ouvido, também pelos políticos, que já pouco ouvem, mas sobretudo por todos nós, cidadãos, porque se não as acarinharmos e não lhe dermos condições para sobreviverem, seremos nós também queimados vivos.