Na minha aldeia ninguém morria sozinho

Que civilização é esta que nos levou a esquecer que a morte e a vida estão imbricadas na nossa existência? Convenceram-nos que fazíamos parte dos seres imortais e que nunca chegaríamos a morrer. A palavra morte foi-nos escondida até que chegou a crise do Covid-19, a hecatombe dos desaparecimentos brutais, para nos apercebermos que, se não fizermos cuidado com a vida, a morte pode-nos bater à porta. Tenho-me perguntado muitas vezes que atitude tomar quando alguém está a morrer. Cada vez mais nos deparamos com instituições que acompanham as pessoas que, digamos em linguagem nua e crua, estão despedidos dos médicos e estão, por assim dizer, na fase terminal da vida. São os designados serviços de cuidados paliativos, cada vez mais em voga na nossa sociedade. É evidente que o melhor fim de vida é aquele em que o moribundo se encontra no seu leito de morte, rodeado dos seus, num ambiente de amor e de carinho e, sereno, sente-se preparado para o desenlace final. Terei sempre presente a morte do meu saudoso e querido pai que enfrentou a morte como um guerreiro. Com uma doença que pouco a pouco o destruía, anunciou aos seus, tal como o Cristo, que a sua hora estava próxima. Afetado gravemente pela uremia, sabia que se extinguiria, pouco a pouco, como uma vela, e que partiria quando a doença lhe afetaria o coração. Pôde calcular as horas de agonia e anunciou aos seus familiares que o redavam que pelas três horas da manhã deixaria este mundo. Os meus irmãos revezavam-se a recitar o ofício da agonia, aceitavam confiantes a morte do pai com a maior tristeza, mas também com a maior serenidade.Na aldeia, as minhas irmãs não deixavam ninguém morrer sozinho. Tinham o dom da compaixão para com os outros, encontravam os gestos e as palavras de afeto e de carinho para com os moribundos, ao mesmo tempo que os ajudavam a fazer a passagem deste mundo para o outro, recitando o benfazejo ofício da agonia, do livro “As Horas de Piedade” que tinham comprado na Casa Veritas da Guarda. Compreendo que, perante a morte, dificilmente encontremos as palavras que possam confortar um moribundo na sua angústia, consciente de que, dentro de alguns momentos, já não fará parte da terra dos vivos. Também eu fui confrontado, ainda não há muito tempo, com quase os últimos momentos do meu antigo professor de filosofia. No seu leito de hospital, na secção dos cuidados paliativos, era notório que pouco tempo lhe restava de vida. E foi ele próprio que me o ousou anunciar. Fiquei profundamente comovido com a lúcida audácia.  E que dizer? Que palavras encontrar? Negar a evidência? Começar a filosofar sobre uma realidade palpável e iminente? Começar a falar da morte, do céu, do seu encontro em breve com Deus, conhecendo a sua vida de testemunho de santidade, de tantos anos de vida sacerdotal, eu, um pobre leigo, que dificilmente sabe invocar o nome da Santíssima Trindade? Acho que encontrei um meio de comunicação, longe de filosofias e de considerações beateiras e comecei a mostrar-lhe o meu afeto, afagando-lhe as mãos, os braços e as faces. Sorria de agradecimento e notava-se grande serenidade nas suas feições. Somos humanos e é nestas ocasiões que os gestos de humanidade para com o nosso semelhante são mais apreciados. Quando me despedi, foi ele que teve a coragem de me dizer: “adeus, até ao paraíso”.