DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


Miguel de Unamuno (1864-1936), um filósofo de origem basca, foi um dos maiores vultos da intelectualidade espanhola de sempre e um dos que mais amou Portugal, o que lhe proporcionou um profundo conhecimento da cultura e da realidade portuguesa.
Visitante regular do nosso país - entre 1894 e 1935 esteve em Portugal pelo menos dezasseis vezes - contactou diretamente com os mais insignes representantes da nossa cultura e literatura, nomeadamente Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro e Manuel Laranjeira.
Retratou as suas viagens num livro, “Por terras de Portugal e Espanha”, originalmente publicado em 1911, composto por uma recompilação de artigos para um jornal de Buenos Aires denominado La Nación.
Transcrevemos aqui um excerto do que escreveu quando passou pela Guarda:

GUARDA
(…)
E lá fui, naquela desagradável tarde outoniça, vaguear pelas ruas da Guarda. Depressa as percorri quase todas, pois é uma pequena cidade, de uns 6000 habitantes. De quando em quando, os cónegos, embuçados nos seus mantos negros, com os seus barretes, engolidos pelas negras portas daquelas velhas casas; depois, estudantes do Liceu, rapazitos de onze anos, em cabelo, com as suas sobrecasacas e as suas remendadas capas negras, a imitar os de Coimbra. Paro junto à montra de uma loja de todos os artigos, onde também se vendem livros; entre O Bobo de Herculano e a tradução da Feira das Vaidades de Thackeray, a História de um Beijo, de Pérez Escrich. Parece mentira a popularidade que este romancista, esquecido já em Espanha, goza em Portugal. É sem dúvida, porque os faz chorar, e Portugal tem sede de lágrimas.
Vou ver o pôr-do-sol; um incêndio vulcânico entre montanhas de cinza. E logo me envolve a melancolia outonal de uma cidade desconhecida. A pensar em coisas melancólicas vou jantar, que é uma brutalidade fisiológica independente da alma, segundo Camilo.
Felizmente, os últimos dias de Novembro são muito curtos e pude deitar-me às sete, com um romance de Camilo à cabeceira da cama. Não sem antes dar um passeio pela cidade e parar diante da imagem do recanto do arco para pensar: de que tragédias silenciosas terás sido mudo confidente!
E depois, que encanto ser acordado pelo sol num silêncio posto em relevo por distantes e apagados toques de corneta militar, por badaladas da igreja próxima! Sentar-me na cama e ler outra vez Camilo. Ler Camilo é viajar por Portugal, mas pelo Portugal das almas.
Saí para ver a catedral, mais de ver por fora que por dentro. Tem, contudo, um adusto carácter de fortaleza, e do seu terraço um formoso panorama. Todo o anfiteatro de montanhas da serra da Estrela, e, do outro lado, terras de Espanha.
(…)
Poder dizer: também aí estive! Porque, feitas as contas, o maior fruto que colhi da minha visita à Guarda é poder dizer alguma vez, quando se fale da Guarda ou somente alguém mencione: também a vi.
(…)
Oliveira Martins
Oliveira Martins (1845-1894) foi historiador, economista, antropólogo, crítico social e político. O rumo que deu à sua atuação suscitou controvérsia, mas teve considerável influência, não apenas em historiadores, críticos e literatos do seu tempo e do século XX, mas na própria vida política portuguesa contemporânea.
Aquando da sua deslocação a Espanha, para recolher documentação para a biografia histórica sobre o Príncipe Perfeito, passou pela Guarda e, no livro “Cartas Peninsulares”, deixou-nos as suas impressões sobre a Guarda:

CARTA I
(…)
O dia amanhecera chuvoso, e essa névoa do céu dizia bem com as novas terras que atravessava. Encerradas no fundo de vales breves que a serra forma, ou penduradas, como a Covilhã, nas vertentes dos montes, oásis de vegetação pingue, apertados contra as serranias frias, sentia que já agora a natureza, cantante lá para baixo, tomara aqui um ar carrancudo e trágico, um ar hostil, semelhante ao vento que batia as copas dos castanheiros e à chuva que embaciava os vidros da minha carruagem.
Subíamos sempre, até à Guarda, onde a extravagância dos itinerários me impôs uma demora forçada de quatro horas. Farta, fria e feia, diz o adágio da Guarda: fria e feia, sim; farta não sei. Só sei que em baixo, na estação de onde não saí, por falta de carruagem que me levasse ao alto, onde fica a cidade, tive de resumir o meu almoço a uns ovos quentes, porque dentro de ovos a porcaria beiroa não teve ainda artes de se insinuar.
Via de longe a mole negra da Sé, via uma torre do castelo, e mais nada, quase. Em volta de mim via um terreno desolado onde as searas de centeio, frias e raras, pareciam cãs em crânio de velhos; via pastores, e rebanhos de ovelhas nos seus redis, sobre a terra lavrada, para a estrumarem; via aqui, além, pinheirais magros, granitos nus, extensões tristes mosqueadas por moitas breves de piornos que o vento dobrava e a chuva miúda batia monotonamente. Era triste. Antevia-se a desolação das altas serras vestidas de nuvens, despidas de vida…
Afinal parti, na direcção de Salamanca, onde o comboio me deitou já de noite.