Histórias que a Vida Conta

1 – O ano de 2021 ficou marcado pela luta contra a pandemia, nomeadamente através da vacinação. Foi mais um ano sofrido, com prejuízos para a convivência social e para a alegria de viver.Politicamente cheio de eventos inesperados, o mais relevante dos quais foi, a nível nacional, a decisão do P.R. de dissolver a Assembleia da República e de marcar eleições parlamentares antecipadas para 30 de janeiro de 2022. Tudo em consequência do “chumbo” do Orçamento de Estado para o próximo ano, em virtude de insanáveis discordâncias entre o PS e os partidos à sua esquerda – O BE e o PCP com o seu satélite “verde”. A célebre “geringonça”, depois de oficialmente já ter morrido, desconjuntou-se por completo (ao menos para os tempos mais próximos). Antes disso, as eleições autárquicas surpreenderam. Embora derrotado, o PSD acabou por ter importantes vitórias políticas, a começar pela conquista da C.M. de Lisboa. O PS tremeu na sua soberba. Casos como o desgaste do Governo, a progressiva deterioração da imagem do ministro Eduardo Cabrita, a recusa de remodelação do executivo por António Costa, o “desnorte comunicacional” pela D.G.S. e, em geral, na área da Saúde, tudo contribuiu para o aumento dos descontentes, dos populistas e das vozes anti-sistema, das perspetivas de uma maior abstenção, bem como para um extremar da bipolarização entre moderação e radicalismos.A dissolução da A.R. e a consequente marcação de um novo sufrágio eleitoral apanhou os partidos de direita em grande turbulência interna. A parte final do ano foi trepidante, mais próprio do argumento de um thriller político do que com a movimentação político-partidária num país do primeiro mundo no ocaso de mais um ano civil e… civilizado.Conhecem-se os resultados até agora. No PSD, Rui Rio venceu as “diretas” que não queria. Viu-se assim “religitimado” na sua liderança contestada internamente e pouco respeitada fora do partido. Isso permitiu-lhe aumentar o diapasão das críticas ao sistema de Justiça e fazer o expurgo das listas para a Assembleia da República, eliminando vozes incómodas porque discordantes e substituindo-as pelas de alguns homens de sua confiança. Por seu lado, o CDS, prosseguindo o processo autofágico em que está empenhado sob a batuta de Francisco Rodrigues dos Santos, vai deixar de contar no Parlamento com figuras prestigiadas e sérias – como é o caso de Cecília Meireles – sujeitando-se a passar de “partido do táxi” a “partido da trotineta”, como alguém já vaticinou. Com uma diferença fundamental: enquanto no PSD, as eleições internas deram um suplemento de legitimidade formal – coisa diferente de razão substancial – a Rui Rio, no CDS, a fuga obstinada ao acerto de contas intra-muros com Nuno Melo, deixou o partido “órfão” depois de o PSD ter decidido não alinhar com ele numa coligação pré-eleitoral, seu parceiro em anteriores lutas eleitorais. A “purga” das listas de candidatos a deputados estendeu-se ao PS. Um homem com a craveira intelectual de Francisco Assis e com as abundantes provas dadas ao longo duma vida política e intelectual distinta, foi deixado fora das listas. Acredito que, para um candidato à liderança do PS, cheio de ambição mas com cultura limitada e reduzidas ideias de Estado, como é o caso de Pedro Nuno Santos, e, até para o próprio António Costa, será bem mais seguro não ter Francisco Assis na A.R., no espetro da política ativa. Ouça-se Daniel Adrião, membro da Comissão Política Nacional do PS, acusar a Direção do Partido de falta de diálogo e de excluir “não costistas”. “Sem pessoas como Francisco Assis, Cecília Meireles ou Luís Marques Guedes, entre muitos outros, o Parlamento vai ficar mais pobre e esse sinal é preocupante para a vitalidade da democracia” – cfr. “A Assembleia dos ajustes de contas”, editorial do Público”, 13 de dezembro.Entretanto, a Iniciativa Liberal (I.L.) e o “Chega” realizaram as suas convenções para a eleição – in casu, para a recondução – dos seus líderes, ficando com a “casa arrumada” em vésperas da campanha eleitoral. O PAN, esse, manifesta-se disposto a continuar a ser uma bengala para o PS; mas também está disponível para poder ser arrimo do PSD. Num caso ou no outro, não tem rebuço em manifestar a sua ambição: participar do Governo. O “Livre” lá está, mais uma vez, empenhado na sua megalómana missão de servir de cimento à esquerda – a toda a esquerda. É pena assistir a este espetáculo servido por Rui Tavares, um homem inteligente mas sem carisma nem sentido prático.Na esquerda mais radical, Bloco e PCP seguem o seu caminho, por certo preocupados com a alta probabilidade de sofrerem um pesado castigo nas urnas por terem inviabilizado o OE para 2022.
2 – Neste contexto, cabe perguntar o que se irá passar nas eleições de 30 de janeiro. Vou dar alguns palpites a partir de reflexões pessoais. No cerne das previsões estará o resultado eleitoral que o PSD vai alcançar. Um PSD mais ao centro, com uma maior aproximação ao PS (com este a continuar silencioso a esse respeito), sujeita-se a desmobilizar parte do seu eleitorado. Não me surpreenderia que o PSD viesse a ficar algo distante do seu rival. Para isso contribui, a meu ver, a política pouco racional de Rui Rio sobre a justiça. Na moção estratégica de Rio para o congresso de 2020, consta que a justiça vive “com traços marcantes de corporativismo e não sujeita ao escrutínio público” e salienta-se a urgência em modificar a composição dos conselhos superiores que superintendem sobre as magistraturas e exercem o poder disciplinar sobre juízes e procuradores. O último “tiro no pé” na matéria consistiu na inoportuna e inesperada reação de Rio ao êxito policial que conduziu à detenção de João Rendeiro em Durban. No momento em que se festejava o sucesso da operação, afirmar que o azar de Rendeiro foi a proximidade da data das eleições parlamentares, constitui uma falta de respeito pelo sistema judiciário, assim manifestando a ideia que o tempo da justiça coincidiu com o da política, fazendo um “frete” ao Governo e, portanto, ao PS. Trata-se de uma visão injusta e provinciana da Justiça e uma afronta aos que nela trabalham.Todos sabemos da resiliência de Rio – gosta que o “piquem” e trabalha melhor quando se sente “picado”. Também já nos surpreendeu mais de uma vez com as suas performances em campanha eleitoral e também com alguns resultados eleitorais. Daí que haja no PS um receio indisfarçável que leva os seus dirigentes a observarem um discurso mais prudente em relação às eleições que se aproximam. Mas não me parece que este “Rio de indignação sobre a Justiça” (André Lamas Leite in “Público” de 14 de dezembro, página 8), traga dividendos ao seu partido. Mas “prognósticos”, é como o outro que diz… Certo é que, para janeiro, “olho no fumeiro”!  Só que, desta vez, pendem os salpicões e dependem … as eleições!Lisboa, 15 de dezembro de 2021