Já lá vai o mês de abril em que todos nos vergamos na presença de Cristo ressuscitado.

Podemos afirmar sem receio de engano que é o maior evento sagrado para o mundo católico. Agora chegou maio e aos poucos vemos ressuscitar a natureza que por sua própria vontade nos aparece todos os anos com a sua melhor roupagem matizada de todas as cores para consolar os olhares do mais distinto observador, que para o efeito escolheu o melhor mirante.
As dobras de terreno, a sua vegetação própria, bem como a exposição solar, atribuem-lhe um baralho de cores, que nos torna sempre difícil escolher o mais belo cenário.
É evidente que todo este espaço florido chama a si toda a qualidade de insectos para a polinização. Aqui passam as suas fases indo da larva até ganharem asas para poderem desempenhar a sua função. Há aqueles que nunca chegam a voar mas desepenham outras funções fundamentais neste ecossistema.
Também por aqui vão aparecendo certas qualidades de répteis, que embora repugnantes dão um certo equilíbrio a tudo o que se passa no meio da vegetação rasteira, alimentando-se de outros animais de menor porte, mas que também se vão tornando nocivos ao desenvolvimento desta flora natural.
Toda esta beleza é ainda mais adornada pelo esvoaçar das aves que em plena nidificação vão chilreando e olhando pelos seus ninhos. Tudo isto é vida que a natureza tem dentro de si e que no devido tempo apresenta em todo o seu esplendor. A visão de cima para baixo tem muito mais fascínio, logo esta particularidade leva o pessoal ribeirinho a subir à montanha em peregrinação para agradecimento desta prenda visual com que a natureza nos brinda, pois estou certo que nem o mais qualificado pintor seja capaz de colocar em tela uma combinação tão perfeita com as suas pinceladas coloridas.
São estas montanhas que na estação anterior se pintaram de branco para também nos deliciarem os olhares que guardaram no seu seio a frescura suficiente para manter agora o vigor deste imenso jardim natural. A natureza tem esta rotação anual, onde vai desempenhando as suas funções numa sequência perfeita, arrefece e aquece, descansa e cria, por vezes entristece por factores alheios, mas quando os factos se normalizam a alegria vem sempre ao de cima.
Um contacto permanente com a natureza ajuda-nos a viver e a fortalecer o corpo e o espírito que as agruras da vida tantas vezes nos vão atormentando.
Não deixa de ser verdade que a mãe natureza ao deixar a quadra primaveril começa a perder o seu brilho, o aquecimento que vem nos meses seguintes aos poucos vai murchando o que as plantas tinham de mais viçoso. As flores vão dando lugar à vagem donde nova semente cumprirá o rotativo cenário anual. A partir de então podemos dizer que a flora silvestre adormece e na sua hibernação natural vai passar os meses de outono e de inverno, para que quando os dias passarem a ser maiores do que as noites apareça com toda a sua pujança.
É mais que certo de que na vida tudo tem riscos e dentro deste teor a beleza natural não foge à regra, quantas vezes no início do seu pousio se vê vestida de luto com a passagem do fogo selvagem que sem dó nem piedade reduz tudo a cinza, não só a flora como a fauna. Este luto da natureza também nos comove, pois sabemos que foi matéria viva que desapareceu, mas também acreditamos sempre de que ela se revitalizará e que passados uns anos voltará a ter mais encanto, uma vez que é alimentado pela saudade de quem esperou uns tempos por este panorama.
Eu, como filho do campo e utente do mesmo espaço, assim vejo uma das suas maravilhas que me regala os olhos e conforta alma, pois tudo quanto eu penso a beleza nunca serviu para melindre de ninguém. Poderá causar ciúme, mas isso é mal que não tem cura.
E por aqui vos deixo, voltarei no dia da espiga ao som do cuco e do gaio, espero eu!
Para todos nós, haja protecção divina até lá.