Olhos nos olhos


Eu tinha seis anos e estava doente. A médica pediatra, amiga da minha mãe, há vários dias que me vinha ver a casa. De manhã e ao fim da tarde, lá vinha ela. Via-me a temperatura, perguntava como eu me sentia, se tinha vontade de comer, virava-me a cabeça para os lados, e depois saía, ficando a falar com a minha mãe, fora do quarto.
Eu tinha consciência de que o meu estado era grave. Suspeitava-se que eu tivesse uma encefalite, fosse lá o que isso fosse para uma criança como eu. Há vários dias que tinha temperaturas elevadas e dores de cabeça permanentes e fortes.
Percebi que os meus irmãos tinham ido para a praia, passar uns dias a casa de um dos meus tios. Deduzi que tentavam evitar qualquer contágio.
Naquele dia, sussurrando, no corredor, para a minha mãe, ouvi distintamente a médica dizer que ia dar-me um medicamento novo, que tinha acabado de aparecer. E o medicamento veio. Era um líquido branco, dentro dum frasco de vidro. Não custava nada a tomar. Fiquei contente por isso.
Nesse mesmo dia, já quase à noite, antes do jantar, o meu avô passou lá em casa para me ver, como costumava fazer desde que eu adoecera. Tão regular como a médica, também ele passava duas vezes por dia, em casa dos meus pais, para me ver. Sem manifestar qualquer receio de contágio, falava, dizia sempre qualquer coisa alegre e só depois é que ia embora. Como estas visitas me faziam bem!
O meu avô era um cidadão exemplar e era considerado, por toda a gente, um homem de bem. Sempre disponível para ajudar os outros, nunca negou os seus serviços a quem, por falta de condições económicas, não pudesse pagar. Mas, para além do acolhimento que o seu escritório significava para toda a gente, tinha em seu poder um “ trunfo “, que ele tornava acessível a todos. É que ele era o gerente do cinema local. E, apesar de ser republicano e ateu, a sala de espectáculos nunca foi negada a nenhum movimento da Igreja, e sempre franqueou as portas para reuniões políticas, fossem elas das forças do regime, fossem da oposição.
- Estás muito triste! - Disse-me ele, na visita dessa tarde, já quase a horas de jantar. -Não te quero ver assim.
- Sabe, avô, é que os meus irmãos levaram com eles, para a praia, as minhas cartas de jogar.
- Ai sim? Que grandes marotos! E que cartas eram essas?
- Ora, são as cartas do burro preto.
O meu avô despediu-se e saiu. Reapareceu mais tarde, cerca de duas horas depois. Seriam nove da noite, ou mais.
Não sei que voltas deu, ignoro ainda a quem falou, que estabelecimento conseguiu que, excepcionalmente, se lhe abrisse. O que sei é que meteu a mão no bolso do casaco e tirou de lá um baralho de cartas, novinhas, com o burro preto na capa.
- Era isto que tu querias?
- Era, era, Avô. Onde as arranjou?
- Isso não interessa. O que interessa é que eram essas.
Nunca mais esqueci essa tarde, como nunca mais esqueci este meu avô.