A Espanha encontrava-se por detrás da Serra das Mesas, onde, diz a lenda,

em tempos muito remotos, os bispos das cidades limítrofes de Portugal e de Espanha se reuniram para traçar a fronteira entre os dois países. A negociação entre eles não teria sido fácil. Duas visões diferentes, duas ambições contraditórias se teriam afrontado, mas a sageza ter-se-ia imposto aos eminentes dignitários que chegaram a um entendimento satisfatório para todas as partes. Traçaram-se os limites territoriais litigiosos que todas as aldeias limítrofes deveriam respeitar dali para o futuro. Enterrou-se de uma vez por todas a contestação. Com a assinatura deste tratado de paz, nunca mais voltou a haver confrontos guerreiros entre os dois povos vizinhos. Foi para sempre aceite o compromisso daqueles que agiram em nome de todos. Se posteriormente se travaram escaramuças ou batalhas, foram decididas muito longe, em Lisboa ou em Madrid, motivadas por interesses muito diferentes daqueles que presidiam aos desígnios das populações de Portugal e de Espanha, pois entre os povos de cá e de lá houve sempre um entendimento perfeito.
Ignorados dos quartéis-generais que ficavam a centenas de quilómetros de distância, as comunicações entre os dois povos foram sempre dificultadas. Os senhores de Lisboa persistiram sempre em impor-nos a separação e a regra de que deveríamos viver de costas voltadas para os espanhóis. Foram eles que nos obrigaram a adoptar comportamentos hostis a governos centralizados e longínquos. Tivemos de inventar mecanismos de sobrevivência. A figura do contrabandista não foi senão uma forma de resistência ao poder central nestas aldeias fronteiriças e serranas e também uma maneira desesperada de fugir à fome e à miséria, mesmo que para isso fosse necessário mostrar toda a habilidade de que um homem pode dispor para fugir aos assaltos implacáveis dos guardas-fiscais que lhes faziam esperas, caças e assaltos nos lugares onde o diabo nem sequer imaginaria.

Ir a Valverde del Fresno, a Navas Frias ou a outra aldeia fronteiriça de Espanha sem encontrar os guardas-fiscais só podia ser em dias de nevoeiro ou de grande temporal, em que não se aconselhava a ninguém a sair de casa, ou em dia de sorte, que devia ser assinalado por uma rodada na taberna do Ti Chaparrinho, do Ti Zé Nenico ou na da ti Léi Onze.

Nunca percebi a missão destes guardas. É verdade que a farda cinzenta, picotada de preto, e os botões dourados encandeavam os olhos das raparigas solteiras que sonhavam em casar um dia com um homem de aparato e autoridade. Mas passar a vida à cata de pessoas que iam e vinham entre pueblos vecinos, só porque traziam dois odres de azeite da sua colheita, uns cortes de pana ou uns taleigos de trigo espanhol, era exercer uma profissão que mais tarde ou mais cedo seria condenado a desaparecer. Ainda se compreendia que andassem à caça dos contrabandistas, que se medissem com a rapidez e a destreza dos seus passos. Mas tirar parte do sustento familiar a pessoas honradas, proprietários legítimos de olivais em Valverde del Fresno, Pesqueiro ou Sobreiro, era um autêntico roubo disfarçado numa prática legal que não condizia com o bom entendimento entre aldeias vizinhas, mas que, infelizmente, tínhamos de aceitar.