Alterou-se a imagem das cidades. E não foi em razão do frio, da chuva, do vento ou da neve.

Nem tão pouco foi, nestes dias de Outono, devido ao envelhecer das folhas que vão caindo das árvores, amortalhadas de vermelho, amarelo ou de uma outra cor inominável. Aí são as imagens criadas pelo movimento interno das coisas. São tão naturais no seu encanto próprio que elas só seriam novas se a natureza alterasse o ritmo dos ciclos com que alimenta a vida.Alterou-se a imagem das cidades. Alterou-se pela intervenção humana. Aliás, as próprias cidades resultam da intervenção humana, mas habituamo-nos de tal maneira a elas que as chegamos a irmanar às realidades da natureza planetária em que já é bem difícil de encontrar um canto espacial onde não se encontre a mão humana.Alterou-se a imagem das cidades. Mas, desta vez, tratou-se de uma alteração forçada e inusitada. O formigueiro humano das suas ruas parece ter adormecido, os humanos são aconselhados ou obrigados a recolherem-se nas casas e, quando saem, aparecem disfarçados e fugitivos a possíveis encontros. O medo instalou-se e o vizinho de ontem é o estrangeiro de hoje. A protecção transformou-se em lonjura. Estranha forma de sociabilidade que exige distanciamento recíproco!Alterou-se a imagem das cidades. Todos nos lembraremos do que se passou em Portugal com a máscara. Tal como noutros países da velha Europa. Primeiro a máscara era ineficaz, seria mesmo de evitar, por contraproducente. Depois passou a ser obrigatória em espaços fechados e ao ar livre simplesmente recomendada. Presentemente a máscara é obrigatória mesmo em espaços abertos, pelo menos quando não se consegue salvaguardar o mínimo distanciamento físico. E isto a pensar na protecção humana contra o Covid 19. Com tal pretende-se reduzir a probabilidade de ficar infectado quem a usa e diminuir o risco de infectar os outros caso se encontre infectado assintomaticamente não suspeitando sequer da situação em que se encontra.E assim se alterou a imagem das cidades. Por confinamento, é verdade, as cidades foram ficando com as ruas vazias, mas também porque a máscara entrou no domínio do design, da publicidade, do negócio, da indumentária. É verdade que a máscara cirúrgica de cor azul é a mais usualmente vista. Mas vamos encontrando grande variedade de máscaras. No colorido e mesmo no formato. De tecido estampado ou não. Com ou sem o logotipo da empresa ou da instituição. A condizer ou não com as peças do vestuário. A variedade é grande. A moda reformula-se aos olhos de todos. Como sempre a necessidade de uns é a oportunidade de outros.Os seres humanos não se passeiam nas ruas. Quando a necessidade se impõe, passeiam máscaras, esses pedaços de pano feitos para cobrir a boca e o nariz. Mas, de tudo se tem encontrado. Se um usa a máscara a fazer de pulseira, já outro traz a máscara a servir de braçadeira. Se um exibe a máscara como penso no cotovelo, outro coloca o penso no queixo. Se há quem faça da máscara um colar, há quem a areje ao vento pendurada nos dedos da mão. Até o cinto das calças já tem servido para guardar a máscara. E - ironia das ironias! – também se têm encontrado cidadãos de máscara bem aplicada que a retiram para o queixo ao conversarem com o amigo que encontraram casualmente no passeio da rua. Contradições dos humanos!Ocorre-me uma espécie de fábula que anda por aí nas redes sociais. Três cães divertiam-se amenamente enquanto iam passando pessoas mascaradas.- Já notastes que todos os humanos usam focinheira e que nem todos a sabem aplicar? – pergunta um deles.- Que terão feito os humanos para andarem assim açaimados? – pergunta outro.E logo o terceiro comenta com o ar mais natural:- Eu sempre soube que era uma raça muito perigosa!Vivemos tempos mascarados. Como o serão todos os tempos humanos. Terá razão Octávio Paz quando escreve: «Enquanto estamos vivos, não podemos escapar de máscaras e nomes. Somos inseparáveis de nossas ficções – nossas feições”. Assim sendo, haverá por aí muitas máscaras a passearem-se que escondem outras máscaras. As máscaras que hoje transformam as nossas cidades serão máscaras de máscaras outras. A redução da informação ao Covid será mesmo a máscara do esquecimento das muitas misérias do mundo e das situações dramáticas por que passam os humanos em muitas regiões do globo nestes tempos conturbados. Com máscara nos protegemos. Com máscaras nos escondemos. Com máscara nos esquecemos. Vivemos tempos perigosos.Já se vê: não é só a moda que se reformula, é também a nossa responsabilidade – discernimento e sabedoria - que se encontra posta à prova. Pese todo o incómodo de uma segunda pele que impossibilita o sorriso acolhedor e a expressão eloquente do rosto humano. Restam os olhos para reformularmos o olhar. Restam os ouvidos para escutarmos o clamor da Terra e os gritos dos mais frágeis.Chegou-me há tempos por WhatsApp um curioso texto que, com seu carácter humorístico, não deixou de me fazer pensar. Aí se diz que a máscara também veio para «baixar o nariz de quem vivia com ele empinado»; «puxar as orelhas até entender que foram feitas para ouvir»; «bloquear a boca até entender que é preciso pensar mais e falar menos»; «esconder o rosto para aprender a olhar e sorrir com os olhos»; «cobrir os lábios para aprender a amar com o coração.» E, a terminar, uma espécie de conselho: «Pare! Pense! Ouça! Se solidarize! Sorria com os olhos e ame de coração! A vida é um sopro… e a máscara uma reflexão.»Seja, então, «a máscara uma reflexão» sobre o que somos na existência dos vivos.Guarda, 12 de Novembro de 2020