Histórias que a Vida Conta

Façamos, hoje, uma pausa saudável e higiénica. Impõe-se um intervalo! Depois de tantos artigos sobre a pandemia e outros tantos sobre a atualidade política, permito-me oferecer aos meus leitores a proposta de um tema mais ligeiro, mais ameno e otimista. Refiro-me ao “GIRO da Itália” em bicicleta, recentemente concluída com grande brilho por dois ciclistas portugueses, João Almeida e Rúben Guerreiro. Durante três semanas, o País voltou a vibrar com o ciclismo, um desporto popular - diria mesmo “o desporto popular por excelência” - que se desenrola na estrada, que pertence a todos e ao qual todos têm acesso, sem pagar bilhete de ingresso. Desporto que já fez sonhar gerações e que já nos ofereceu motivos de muita satisfação e, até, de orgulho.O “giro” inscrito no título não é um adjetivo (engraçado, bonito) mas sim um substantivo (movimento em torno, rotação, volta). Assim como a “Volta à França” é universalmente conhecida como o “Tour”, a Volta a Espanha é a “Vuelta” e em Portugal corre-se a “Volta, a Volta à Itália é, para todos, o “Giro”.  Mas, este ano, o GIRO foi mesmo giro!Vivi, enquanto adolescente, os feitos do grande Alves Barbosa, o popular “Tó”, que, com 19 anos, ganhou, em 1951, na sua estreia na Volta, em representação do Sangalhos, a primeira Volta a Portugal. Lembro-me de, com 9 anos, o ter ido ver, quando envergava a camisola amarela, que tinha conquistado logo na primeira etapa e que conservou até final, à entrada da Guarda, na subida do Mondego. Recordo-me como se fosse hoje. Fui ver passar a “Volta” à berma da estrada, a dois passos do “Chafariz dos Amores”, acima da Dorna, perto da minha casa. Ali, numa tarde de Verão, juntava-se muita gente, vendo a passagem dos ciclistas, os heróis da estrada, que, ao tempo, tinham aos nossos olhos de meninos, uma representação de contornos quase heroicos. Alves Barbosa ganharia ainda as “Voltas” de1956 e 1958. Era um grande rolador e um magnífico sprinter e contrarrelogista, tendo algumas dificuldades na alta montanha. A minha geração acompanhou o seu brilhante “Tour” de 1956, no qual alcançou um notável 10º lugar, ao serviço da seleção do Luxemburgo.Ainda durante a plenitude atlética de Alves Barbosa, apareceu um outro ciclista, com características muito diferentes, que foi o seu grande rival. Era do Lordelo e alinhava pelo Académico. Chamava-se José Manuel Ribeiro da Silva e era um grande trepador. Venceu a Volta em 1955 e 1957, ano em que alcançou um brilhante 4º lugar na Vuelta, tendo ficado em 25º lugar no “Tour”, com um triunfo na mítica etapa do Tourmalet (Pirinéus). Infelizmente morreu em 9 de abril de 1958, com 23 anos de idade, vítima de um estúpido acidente de moto, que, assim, pôs termo a uma carreira que todos previam muitíssimo brilhante.Mas a estrela mais rutilante ainda estava para vir. Na verdade, o maior ciclista português de sempre haveria de ser Joaquim Agostinho. Já não era um menino quando apareceu no mundo das bicicletas. Fizera a tropa em Moçambique e, já com mais de 25 anos, iniciou-se no ciclismo de competição. A falta de “escola” em cima da bicicleta esteve na origem das frequentes e graves quedas que lhe provocaram chagas por todo o corpo que, ferido e macerado, passou a ser uma das suas imagens de marca. Meão de altura, de estrutura maciça, com um tronco de lenhador, era uma força da natureza, um voltista completo, muito bom rolador, notável trepador e um magnífico contrarrelogista.  Quando, com a camisola do Sporting, começou a participar e a vencer todos os circuitos internos em que participava, foi como um “furacão” que varria tudo à sua frente. Era um campeão e foi assim que ganhou a “Volta” em 1970, 1971 e 1972. No Tour tornou-se uma figura muito popular e um grande competidor: conhecido por “Tino”, participou em onze Voltas á França, tendo alcançado, entre outras, as seguintes posições na classificação geral: foi três vezes oitavo (em 1969, no ano da sua estreia, em que ganhou duas etapas, 1972e 1973), quinto em 1971 e 1980, 6º em 1974, e 3º, em 1978 e 1979, na Volta em que ganhou a histórica etapa de Alpe D´Huez, onde chegou isolado. Esta vitória viria a ser celebrada por uma merecida homenagem: na 14ª curva do Alpe d´Huez foi erigido o seu busto em bronze, em alto relevo, com 1,70 m. de altura, 70 cms. de largura e pesando 70 quilos. Está colocado num pedestal com três metros de altura, em granito verde. Recorde-se que o tempo áureo de Agostinho no “Tour” coincidiu com o do belga Eddy Merckx, talvez o maior ciclista de todos os tempos.Também na “Vuelta”, conquistou um 6º e um 7º lugar e alcançou, em 1974, um 2º lugar, tendo, nesse ano, ganho duas etapas. Em 30 de abril de 1984, com 41 anos acabados de fazer, liderava a Volta ao Algarve, quando, na 5ª etapa, a 300 metros da meta, em Quarteira, um cão se atravessou á sua frente e provocou a sua queda. Levantou-se e, ajudado, cortou a meta a pé. Dessa queda viria a resultar a sua morte, já em Lisboa, para onde foi transportado, infelizmente tarde demais. Morreu em 12 de maio de 1984.A partir de certa altura desinteressei-me do ciclismo. A generalização do “doping” levou-me à desilusão com este desporto. Ainda tivemos alguns competidores de mérito: José Martins, Fernando Mendes, Acácio da Silva, Marco Chagas, com 4 vitórias na Volta, Joaquim Gomes, José Azevedo, que alcançou um 5º lugar no Giro (em 2001), além de um 5º e um 6º lugares no “Tour” (em 2002 e 2004). Mas a magia tinha passado…E foi preciso esperar por este ano de sombras para que as proezas de João Almeida e de Ruben Guerreiro nos restituíssem o entusiasmo pelas corridas de bicicleta. Como o Jornal “A BOLA” titulou, em 28 de outubro: “João e Ruben bandeiras de Portugal no Giro”. Os quinze dias em que envergou a “camisola rosa” (símbolo, em Itália, do 1º classificado) chegaram a fazer-nos sonhar com uma possível vitória de João Almeida no GIRO. Só foi desapossado dela na etapa do terrível Monte Stelvio, onde João Almeida conseguiu, mesmo assim, bater-se como um leão contra os (outros) grandes competidores. Passou para o 5º lugar, tendo ainda tido a lucidez, a determinação e  o mérito de, na penúltima etapa, arrancar, perto da meta, de forma a ganhar ao espanhol que o antecedia na tabela geral, alguns preciosos segundos, que lhe permitiram, na etapa final de contrarrelógio (de pouco mais de 15 Kms), ultrapassá-lo na classificação e alcançar um brilhante 4º lugar. Temos de novo um voltista completo. Ainda muito novo, dotado de notável sentido tático, bom no contrarrelógio, assim como a rolar, a trepar e, até, a sprintar, parece ter um grande futuro. A sua terra natal – A-dos-Francos, concelho de Caldas da Rainha, pintou-se de cor de rosa e viveu dias de grande emoção e orgulho.Rúben Guerreiro ganhou uma etapa na alta montanha e alcançou, com galhardia, o importante galardão de vencedor do prémio da montanha.Parabéns a ambos e bem hajam pela alegria que nos deram em tempos de pandemia.Lisboa, 5 de novembro de 2020