Olhos nos olhos


Há muitos anos atrás, no escritório do advogado, apareceu, um dia, uma médica, que pedia ajuda para uma situação de grande sofrimento e que, em síntese, assim descrevia:
Que estava casada há alguns anos, mas não tinha filhos, com grande desgosto dela e do marido. Que, no dia x, estando ela de serviço, os bombeiros trouxeram para o hospital, uma menina recém-nascida, encontrada viva, num caixote do lixo duma povoação dos arredores da capital. E que fora ela quem, estando de serviço, colaborou com toda a equipe que socorreu a criança. A partir daí, fora ela quem seguiu atentamente a evolução do estado de saúde da criança, quem, sempre que pôde, lhe deu o biberão, logo que a criança começou a alimentar-se e por aí adiante com outros cuidados. Com isto, criou um grande laço de amor para com aquela bebé, pelo que acalentara a ideia de poder vir a adoptá-la. Contudo, quando a criança teve alta e ela manifestou a sua intenção de adoptar a menina, o mundo desabou em cima de si. As técnicas da Segurança Social explicaram-lhe que as pessoas de Lisboa, para adoptar, tinham de estar inscritas na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e apenas podiam adoptar as crianças entregues àquela Instituição. As crianças abandonadas, fora da área urbana da cidade de Lisboa, tinham, por força da lei, de ser entregues à Segurança Social. E, por sua vez, a Segurança Social entregaria a criança ao casal a quem, por ordem de espera, tivesse chegado a sua vez.
O advogado percebeu, em toda a extensão, o drama desta mulher. Explicou-lhe que as leis diziam, de facto, aquilo que lhe tinha sido dito, mas que, mesmo assim, atendendo à relação criada e ao natural benefício para a criança, iria ver o que seria possível fazer.
Diz o advogado ter-se dirigido à Segurança Social, ter falado com todas a técnicas, ter ido até às entidades superiores e ter encontrado sempre a frieza da lei, e a preocupação dos técnicos de não abrir um precedente, face à gravidade da situação.
Referiu ainda ter-se dirigido, por fim, ao Director Geral da então Direcção Geral de Menores do Ministério da Justiça. O Director Geral tê-lo-ia ouvido, teria manifestado grande apreço pessoal pela candidata a adoptante, mas foi afirmando que, na realidade, não podia abrir uma excepção.
Esgotadas todas as vias legais, o advogado chamou a candidata ao seu escritório e, tentando controlar a emoção, foi-lhe dando conta do seu total insucesso.
Foi então que lhe perguntou:
- A Sr.ª Doutora é crente?
Perante a afirmativa, o advogado prosseguiu:
- Olhe, então se for da vontade de Deus que a menina seja sua filha, assim há-de ser.
- Diz bem, Sr. Doutor, vou seguir o seu conselho.
Um mês depois desta conversa, esta senhora e o marido procuraram o advogado para lhe dizer:
- Olhe, quer saber, que nos entregaram a menina? Estamos felicíssimos.
- Como foi que isso aconteceu? - Interessou-se o advogado.
- Sabe, entregaram a criança ao casal que estava na lista. Só que, alguns dias depois, este casal foi lá devolvê-la. Então, telefonaram-me a perguntar se eu ainda a queria.
Com a maior alegria e entusiasmo, exclamou:
- É claro que queria. Então não haveria de querer!?