Hoje, 6 de Maio, quando pela manhã me dispunha a escrever um texto para este jornal, pretendendo evocar o Dia da Língua Portuguesa

celebrado no dia anterior, dei comigo a deter-me em imagens de alunos, pais, professores e funcionários de vários colégios do país em defesa da sua escola. Em nome do exercício das liberdades, direitos e garantias, e estando em causa o futuro de milhares de jovens bem como a defesa do pluralismo cultural e educativo, as manifestações mereceram-me a maior atenção. A memória e a imaginação foram mais fortes do que o projecto de texto que trazia em mente. Não mudei de tema, mas ele passou a ter outro horizonte de escrita e de leitura. Explico-me.
De entre as várias reportagens dos canais televisivos, chamou-se particularmente a atenção a do Colégio da Imaculada Conceição de Cernache, Coimbra. As imagens deram para ver alguns dos encantos, tão naturais como pedagógicos, da cerca em que ele se insere: os majestosos portões ladeados por um enigmático torreão e a casa dos porteiros, tão esbelta como original, as árvores raras e frondosas, o lago com as suas canoas e barcos, a ilha encantada, os coqueiros, a gruta misteriosa, os edifícios dos antigos donos de cuja varanda se podia contemplar, qual jardim florido, um laranjal bem generoso.
A este majestoso conjunto vieram juntar-se, depois, os novos edifícios escolares e o complexo de educação física e de desporto. Ali o tempo não parou e, se há sinais temporais, eles evidenciam os esforços sistematicamente feitos pelos seus responsáveis para melhorar o acolhimento e os serviços prestados. Ali realizei os meus primeiros anos de estudos do então ensino liceal. Sem esquecer o Dia da Língua Portuguesa, sinto-me também em manifestação solidária.
Estavam ainda longe os tempos da sua autonomia pedagógica e os exames de fim de ciclo eram realizados em Coimbra. Daquele espaço de concentração dos manifestantes deste 6 de Maio, bem junto do enigmático torreão da entrada da quinta, tomei outrora um dos autocarros, bem cedinho, com os outros condiscípulos de ano, rumo ao Liceu D. João III para a realização dos exames do 2.º ano liceal. Durante três dias seguidos, ali estavam autocarros, expressamente fretados pelo colégio, para o transporte diário. Estou ainda a ver a porteira, a Sra. D. Augusta, a desejar-nos felicidades e, emocionada, a acenar-nos com as mãos, acompanhada do marido. Era um casal que irradiava sempre alegria. Nesses dias, porém, notava-se-lhe no rosto alguma preocupação pelos «meninos», a contrastar com a nossa algazarra que, num entusiasmo de adolescentes, mais parecíamos simular a partida para um passeio de exploração a um campo desconhecido.
A iniciar com o exame de português, em cada manhã teríamos de realizar duas provas, uma às 9 horas e outra às 11, com um intervalo de meia hora, tempo suficiente para nos deslocarmos aos autocarros, onde, com suprema dedicação, nos era servido o lanche da manhã.
Em tempo de aulas, tínhamos que realizar semanalmente, sem excepção, uma composição literária. O português era a única disciplina contemplada com dois cadernos específicos: um para os exercícios gerais e outro exclusivo para estas redacções sobre os temas mais diversos, banais ou de ocasião, realidades concretas e imaginárias ou de índole mais abstracta. A minha inocente literatura de jovialidade escolar terá enchido, ao longo de anos, vários cadernos com estes textos pretensamente literários. Tenho pena de não os ter conservado assim, cheios de imaginação juvenil, com a correção dos erros ortográficos, de concordância ou de pontuação, e as simpáticas e pedagógicas observações finais que antecediam a respectiva classificação.
Um dia o professor resolveu experimentar a veia poética dos seus alunos. Nessa semana, em vez da tradicional composição em prosa, deveríamos criar uma quadra com tema e métrica à nossa escolha. Confesso que me habituei a gostar de poesia desde a instrução primária apreciando os poemas, bem singelos, que apareciam nos livros de leitura da 3.ª e 4.ª classes. Julgava, porém, que fazer poesia pertencia só a criadores adultos e de elevada capacidade poética. Por isso, o desapontamento inicial depressa deu lugar a um entusiasmo bem infantil.
Arrancado, quase menino, aos encantos do berço familiar, moído de saudade materna, depois de algumas tentativas, lá consegui cantar um momento real da vida com a seguinte quadra ao gosto popular: «Foi momento de tristeza / Aquele da despedida./ Minha mãe disse, a chorar: / Deus te acompanhe na vida.» O professor gostou e a minha quadra foi uma daquelas que tiveram a honra de referência na aula, sublinhando-se, particularmente, a exactidão da métrica.
Ao contrário de outras composições levadas pelo vento, esta quadra, qual hino dedicado à mãe, resistiu ao tempo, tal como espero que continue a resistir o Colégio da Imaculada Conceição, onde ela foi criada. Evocando o Dia da Língua Portuguesa e na sua salvaguarda, em nome da liberdade de ensinar e aprender, em nome da opção que deve ser dada às famílias na educação dos seus filhos, em nome de um são pluralismo educativo e pedagógico, e repudiando ideologismos bacocos e monocolores, junto-me à manifestação da sua comunidade educativa como à de muitas outras que alguém parece querer sufocar.
6 de Maio de 2016