Quando falamos de liberdade temos que nos referir, inevitavelmente, a um princípio ético e moral que está presente na nossa constituição: o direito à dignidade da pessoa humana. 


A nossa Constituição diz, no seu artigo primeiro, que: “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.” Por isso, quando falamos de liberdade, não podemos referir-nos apenas à liberdade de expressão. A liberdade de expressão é apenas uma fração da liberdade.
Adelino Amaro da Costa dizia que “a moderação na política se serve da mudança, para evitar a rutura”. Quem não se servir de abertura à mudança, escancara as portas ao extremismo e pode bem ser empurrado para a rutura.  Quem, pelo contrário, quer evitar o radicalismo tem o dever de perscrutar e de se antecipar à mudança.
No debate político tantas vezes parecemos incapazes de atender às aspirações mais simples e evidentes do nosso tempo.
Alberto Caeiro dizia que “Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio.
É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.”
Quantas vezes o debate ideológico não se deixa alcançar pela realidade e impede de se ver um metro à frente dos olhos. Ofusca aquilo que está à vista de todos.
Porque como os montes e os rios diante de nós, o mais difícil de ver é tantas vezes a humanidade que somos, independentemente de tudo, de partidos, credos, de quaisquer bancadas em que nos sentemos. 
Uma vida humana é sempre uma vida de um de nós. 
O nascimento de uma criança é uma alegria e a maior riqueza a que uma família pode aspirar. 
Um aluno é-nos confiado para o ensinarmos a crescer no conhecimento e no carácter. 
Um doente pede sempre atenção e tratamento: o melhor que lhe possamos dar, com os meios de que dispomos. 
Uma pessoa pobre não pode estar impedida de se sentar à mesa das oportunidades. 
O nosso país é o mesmo em Lisboa ou Beja, no Porto ou Faro, em Bragança ou na Guarda, assim como no mar que envolve o continente e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira.
Não serão estas evidências também suficientes para percebermos que uma aspirina não é melhor por dizer público ou privado? 
Não serão estas evidências também suficientes para percebermos que às pessoas não importa que o SIRESP seja público ou privado, que o importante é que o SIRESP funcione e não permita mais calamidades como as de 2017?
Que óculos precisamos nós para encararmos uma pediatria oncológica como uma urgência que se sobrepõe a qualquer outro tipo de considerações ideológicas?
O que será preciso para percebermos que a ineficiência, independentemente da sua roupagem, desperdiça recursos, gera pobreza e retrocesso? 
Que mais incêndios ou secas terão ainda de ocorrer para encararmos o isolamento dos territórios e os portugueses abandonados à sua sorte pelo centralismo eleitoralista? 
O que precisaremos de constatar ainda em Tancos ou nos roubos relatados em hospitais para perceber que o Estado não pode simplesmente fingir que existe, que tem mesmo de exercer a sua autoridade?
Porque razão vieram o primeiro ministro e o ministro das infraestruturas pedir desculpas pelos problemas nos transportes públicos, pelo caos na Saúde e demais serviços públicos, depois de terem andado cerca de quatro anos a dizer que a culpa era dos outros?
Passados quatro anos de governação, não há culpas que passem nem desculpas que se aceitem. Há ações que se exigem.
O governo já pediu desculpa aos guardenses por ter vindo, em plena pré-campanha eleitoral autárquica, anunciar a requalificação do Hotel Turismo e de passados dois anos continuar tudo na mesma? Não, não veio, mas já deve explicações.
O governo já veio pedir desculpas por ter anunciado duas vezes a requalificação do IP3 e de agora ter atirado as obras para 2023?
Não, não veio, porque este primeiro ministro pouco se importa com a nação e só tem olhos para a próxima eleição.
Alguém acredita que os recentes anúncios de projetos (não de obras) para o conhecido pavilhão 5 do Hospital Sousa Martins passam disso mesmo, de anúncios?
Eu não acredito. A este governo só interessa a sobrevivência política, que tenta sedimentar na propaganda.
O governo já veio pedir desculpas por uma cirurgia oncológica ter sido adiada duas vezes no hospital da Guarda, por falta de material cirúrgico? Não.
Ver os campos e os rios, como dizia Caeiro, é sabermos olhar-nos no que somos e habitamos, na humanidade que nos constitui e na portugalidade que nos atravessa, que nos faz dizer que partilhamos a mesma essência. 
Na diversidade e na liberdade, somos todos Portugueses!
E essa pertença exige dos políticos que sirvam o País com uma ética exigente, um escrutínio constante e um horizonte mais amplo que o mero ciclo eleitoral ou mediático. 
Precisamos de políticos que resolvam os problemas sociais e não governem apenas para as redes sociais. Se assim não for, a democracia ficará sempre incompleta.