DOIS DEDOS DE HISTÓRIA


Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago (1922-2007) percorreu Portugal de uma ponta à outra a convite de uma editora, para comemorar o décimo aniversário da sua implantação em Portugal.
Após as viagens que efetuou, Saramago referiu que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos».
Esta Viagem a Portugal não se enquadra no tradicional guia turístico, antes constitui uma revelação surpreendente de um país, onde o leitor é levado a conhecer o verdadeiro rosto duma terra inesgotável, por caminhos humanos e naturais cuja beleza e força nos surpreendem e que talvez nunca tenham sido feitos.
O livro foi escrito ao longo da sua viagem por todas as regiões de Portugal continental. Enquanto nos mostra o encanto das terras portuguesa, Saramago vai-nos transmitindo opiniões e leituras acerca daquilo que encontra, sejam monumentos, paisagens ou quadros históricos.

Da sua passagem por Coimbra, inserimos aqui alguns extratos:

Talvez por castigo do céu e das heresias que vem pensando, o viajante, no trânsito que faz para o Museu Machado de Castro, apanha a primeira pancada de água. O que lhe vale é ser perto. Entra, sacudindo-se, responde ao compreensivo sorriso dos empregados, que ficam muito contentes por ver o viajante. Não que o conheçam, mas são pessoas que gostam de mostrar as preciosidades que guardam, e o viajante, enquanto a visita durar, será o único visitante. É certo que estamos em Janeiro, que ainda vem longe o tempo do grande leva-e-traz turístico, mas faz pena ver guias que não têm que guiar e peças de arte sem olhos que as tornem preciosas. O viajante decide ser egoísta: “Melhor para mim, mais regalado vejo.” Regalado viu, em verdade. O Museu Machado de Castro tem a mais rica coleção de estatuária medieval que em Portugal existe, pelo menos do que à vista do público se encontra. De tal maneira que as imagens, pela proximidade a que as obriga a relativa exiguidade das instalações do museu, acabam por perder individualização e formam uma espécie de imensa galeria de personagens cujas feições se esbatem. Há exagero aqui, claro está, mas o viajante quereria ver cada uma destas peças isolada, com espaço livre ao redor, sem que os olhos, observando um anjo, estivessem já a ser captados por um santo. São pontos de minúcia que só chama à conversa porque está perante um tesouro de incalculável valor artístico. (…) Este Cristo jazente do século XV, misteriosamente sorrindo, como quem está seguro de que ressurgirá dos mortos. O viajante não vai pôr-se a discutir tais ressurreições, prefere ver na figura inerte a imagem dos homens caídos que se levantam, e sorriem da certeza de que se levantarão, ou outros mais tarde, se eles já não puderem.

O viajante mete-se à chuva. Vai ver a Casa do Navio, e depois torna à Alta, não pode vir a Coimbra sem ver a Casa de Sub-Ripas, tão carcomida, coitada dela e de nós, e a Torre de Anto, onde viveu António Nobre, que há-de ter sido o último castelão de vocação verdadeira. Se lá mora hoje alguém, o viajante não sabe. Podia ter averiguado, mas nem tudo lembra. Além disso, com toda esta chuva, é o único ser vivo que desafia as cascatas que vêm lá de cima. Torna abaixo, entra no Jardim da Manga, que parece um charco, e vai apreciar o templete, tão parecido com o da Igreja da Tocha.
Neste deambular se faz tarde, o viajante deita contas se há-de ir a Santa Clara, e, embora sobre o Mondego estejam desabando cordas de água, aí vai. Lá para baixo é o Choupal, aonde não irá: sente-se anfíbio, mas ainda tem certa dificuldade em se servir das guelras.
Santa Clara-a-Velha vê-se muito bem à distância, mas depois, dá-se a volta, segue-se ao longo de uns prédios, e o mosteiro desparece. Enfim torna a aparecer, é uma construção arruinada, melhor ainda, uma ruína total, confrange-se o coração de ver tal abandono sob a grande chuva que continua a cair. Há aqui uma escada de ferro, é legítimo subi-la, ao menos para procurar abrigo, e quando lá está dentro pode fechar o guarda-chuva, dar as boas-tardes ao guarda, que é surdo e responde pelo mexer dos lábios ou se lhe gritam alto, e estando isto esclarecido, olha enfim os grandes arcos, as abóbadas, e também o céu através dos rasgões das paredes. Santa Clara-a-Velha foi convento feminino, e, realmente, há nesta melancólica igreja uma atmosfera particular de gineceu, ou diz o viajante porque já o sabia.