José Luciano de Castro nos últimos anos de Monarquia Constitucional

Na carta de despedida de José Luciano de Castro ao rei, o político português escrevia que “com o sr. Hintze Ribeiro hei-de eu ajustar as minhas contas”. Hintze Ribeiro tinha sido uma das figuras da oposição a apoiar José de Alpoim nas críticas ao governo do chefe do Partido Progressista. Como consequência, José Luciano optou por apoiar João Franco a formar governo, impossibilitando que Hintze Ribeiro desempenhasse funções governativas.Na cabeça de José Luciano de Castro não estaria o fim do sistema rotativo, mas sim a sua suspensão “por um governo efémero, ao qual se deveria seguir um outro governo Progressista”, que contaria com o apoio franquista.Apesar do plano inicial, a verdade é que o político nascido em Oliveirinha retirou o apoio a João Franco quando percebeu que este queria governar em ditadura. Chegou mesmo a considerar “o assunto como uma traição”.A ditadura franquista teve o seu fim quando ocorreu, a 1 de fevereiro de 1908, um “bárbaro atentado que ceifou a vida do monarca e do príncipe herdeiro”. D. Manuel II, que do atentado apenas tinha ficado “ferido no braço direito”, subiu ao trono, e lá permaneceria até ao dia da implantação da República, a 5 de outubro de 1910. José Luciano de Castro foi um dos conselheiros mais ouvidos pelo novo rei, e a sua influência era tal que “deste reinado chamou Rui Ramos «O Reinado de José Luciano»”. Em 1909, redigiu uma carta ao monarca e aos conselheiros alertando que o apoio à monarquia era cada vez menor, e que, “numa hora de dificuldades, o rei poderia encontrar-se sem defensores”.Contudo, o escândalo do Crédito Predial Português foi uma das últimas machadadas na Monarquia Constitucional Portuguesa. Para José Luciano de Castro, foi “o fim da sua carreira política, a poucos meses do fim do regime monárquico”. Este escândalo iniciou a 1 de maio de 1910, quando se noticiou haver desfalques nas contas do Crédito Predial Português. Vários eram os visados, como o guarda-livros, que “teria cometido continuados desfalques desde, pelo menos, 1902, que ascenderiam à centena de contos”. Outro nome referido era o de José Belo, que “teria desviado verbas até 500 contos, para além de outras pessoas que igualmente foram implicadas e finalmente ilibadas, à falta de provas condenatórias”. Juntavam-se a estas descobertas os sucessivos maus anos de administração.Assim, à medida que o véu era levantado, e com o interesse da imprensa, que ia lançando novas descobertas, os depositantes das contas à ordem acorriam a levantar o seu dinheiro, e “quem tivesse dinheiro a prazo exigia a liquidação dos seus créditos”. A situação foi de tal forma grave que levou à prisão de alguns membros da Companhia, e outros acabaram por cometer o suicídio. José Luciano de Castro, que na altura era o chefe do Crédito Predial Português – Hintze Ribeiro tinha falecido em 1907 -, como se esperava, “demitiu-se de governador da Instituição”.Nesse dia, durante a tarde, uma multidão de “umas duas mil pessoas” invadiram a sua casa em Lisboa, gritando “Matem o ladrão do Crédito Predial”. As suas filhas tinham-lhe sugerido que se escondesse “numa banheira mas ele teimou ficar na sua cadeira de rodas”. Foi aí que foi encontrado pela população, que disse que se tinha deslocado a casa de José Luciano de Castro “para cumprir uma sentença da justiça popular”. Como resposta, o ex-presidente do Conselho de Ministros disse: “«Se querem matar-me, matem. Não me defendo nem posso defender-me»”.Apesar do clima bastante tenso que se viveu por momentos, a verdade é que os ânimos acalmaram. Os invasores acabariam por levar apenas uns papéis ligados ao Crédito Predial, alguns papéis políticos e “um busto em gesso do velho estadista”.Devido ao julgamento relativo ao caso do Crédito Predial Português, José Luciano de Castro manteve-se em Lisboa após a queda da monarquia. Só em maio de 1911, “definitivamente ilibado por acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa e do Supremo Tribunal”, partiu definitivamente para a sua residência em Anadia.Por consequência da implantação da República, o seu retrato deixou de estar na sala de sessões da Câmara Municipal, e o seu nome já não “identificava a principal avenida”. Na data dos seus aniversários, em 1912 e 1913, “foi homenageado com festejos públicos”.A sua saúde teve um agravamento, e acabaria por falecer “aos nove dias do mês de março no seu palacete em Anadia”. Faleceu “fiel até ao fim à Instituição Monárquica”. A imprensa noticiou a sua morte com alguma relevância, e no seu funeral estiveram presentes notáveis figuras políticas, como também amigos e admiradores. Ramalho Ortigão escreveu, a respeito do cortejo fúnebre, que “o povo segue o enterro chorando a falta do seu insubstituível amigo”.Em Anadia, terra da sua esposa e onde acabou por ter residência grande parte da sua vida, foi um dos fundadores da Santa Casa da Misericórdia, dá nome ao Hospital local e tem um museu em sua homenagem, que “é um espaço museológico, da tutela da Santa Casa da Misericórdia de Anadia, integrado no Palacete onde viveu”.