No passado dia três de Novembro, teve lugar o funeral do Dr. João Baldo.

A missa de corpo presente foi celebrada na capela de São Pedro da Guarda e presidida pelo senhor Pe. Alfredo, tendo como concelebrante o senhor Cônego Manuel Pereira de Matos, amigo pessoal e companheiro de infância do defunto, pois tinham entrado para o Seminário juntos, em Outubro de 1956. João Baldo era uma figura bem conhecida na cidade da Guarda e arredores. A capela era bem pequena para acolher tantos conhecidos e amigos, alguns vindos de bem longe. O autor destas linhas, também colega do mesmo ano no Seminário do Fundão, no fim da missa, prestou ao seu amigo o seguinte elogio fúnebre, que abaixo se transcreve, aplaudido, no fim, pela assistência, quebrando um pouco o pesado ambiente fúnebre de uma missa de exéquias. Meu caro João Baldo,Não gostaria de te deixar partir sem te dirigir umas palavras de admiração e amizade.Éramos ainda crianças quando nos conhecemos a caminho do Seminário do Fundão que, juntos, frequentámos durante 5 anos. Ali nos preparámos para sermos homens. A proximidade geográfica cedo nos uniu, mas também nos uniu a tua precoce formação intelectual. Foi contigo que ouvi pela primeira vez os nomes de Nuno de Montemor e de Josué Pinharanda Gomes, teus conterrâneos. Graças a ti, Nuno de Montemor iria ser o autor da minha pré-adolescência. Lembro-me da tua ousadia em nos comunicares as tuas primeiras criações literárias, ao redigires as poesias dedicadas à tua querida mãe. Lembro-me de presidires à Academia de Santa Cecília e de nos entusiasmares para experimentarmos a beleza e o saber que poderiam existir nos autores literários. Lembro-me de partilhares a inquietação existencial que te aproximava de Antero de Quental. Lembro-me da tua exigência perante os cânones espirituais que fustigavam o teu espírito e te transmitiam um estado de flagelação continua e, certamente, concluíste que o melhor de tudo seria seguir outros caminhos que te seriam mais apropriados. Lembro-me de termos necessidade de nos encontrarmos nas férias grandes e de nos deslocarmos a cavalo, em grandes passeatas, com o pretexto de nos irmos confessar ao padre Domingos do Soito. Cada um seguiu o se caminho, mas a amizade e a confiança da juventude continuaram a unir-nos. Nas minhas deslocações às nossas terras raianas, geralmente nas férias, procurávamos sempre um momento para nos encontrarmos. Lembro-me de te fazer descobrir a raia estremenha espanhola da Sierra de Gata, conhecendo a tua admiração pela natureza, muito próxima da tua sensibilidade mística. E, em intermináveis conversas, falávamos dos mistérios insondáveis de Deus e da nossa curiosidade em lhe conhecer a natureza, a essência, a existência. Ouvia também a tua paixão pela ciência, pela física quântica de Einstein, pela cosmologia de George Lemaître, pelas teorias do aparecimento do universo que me deixavam verdadeiramente admirado com o teu interesse e o teu saber. Outros falarão da tua ousadia em fundares a Associaçao dos antigos alunos que nos reunia a todos num ambiente entusiasta e festivo. Cada um de nós aqui presente e muitos outros ausentes poderiam tecer um melhor elogio do teu percurso de vida. Deixas-nos, por isso, muitas recordações e saudades. A tua dedicada mulher e a tua querida filha podem, com toda a legitimidade, estar orgulhosas de ti.