Já leu estes livros todos? - Esta foi a pergunta que uma vez me foi dirigida pelo agente de uma empresa depois de se ter inteirado da situação de alguns espaços da casa tendo em vista a apresentação de um orçamento para uma pequena intervenção.

Confrontado com tão inesperada pergunta, fui respondendo enquanto o acompanhava à porta:- Muitos já foram lidos. Alguns até mais do que uma vez. Outros, muitos, aguardam a leitura. Muitos outros não são para serem lidos.- Como assim? – indagou.- Há livros para serem simplesmente consultados. Mais não perguntou e mais eu não disse. A conversa ficou por aqui. Feitas as despedidas, fiquei a remoer a pergunta como se aqueles livros me contassem a sua história, eles que também contam um pouco da minha. Pareceu-me até que alguns se chegaram a queixar do esquecimento a que foram votados, ou mesmo do espaço pouco honroso em que se encontram num lugar de uma qualquer estante, escondidos no meio ou atrás de outros, sem o mínimo de dignidade para se poderem mostrar ao menos na sua fisicidade. Pacientes e resignados, ali se encontram na esperança de que um dia sejam lembrados. E verdade é que eles, às vezes, se vingam e teimam em não se deixarem encontrar precisamente quando mais urge ouvir a voz da sua escrita. E fico então um tanto inquieto. É que se, como escreveu José Tolentino Mendonça, uma livraria é chamada a ser «antes de tudo uma paisagem mental e espiritual», então poder-se-á dizer que uma biblioteca pessoal é também uma «paisagem mental e espiritual» de quem a foi criando ao longo dos anos. Esquecer-se de um livro é esquecer-se um pouco de si mesmo. Será sintoma da falta de inteireza pessoal? Intrigante pergunta que me deixou em desassossego. Aquele agente empresarial parecia dizer que não era só a casa que estava a necessitar de uma intervenção. Era também a minha biblioteca que estava a pedir maior atenção. Ela que foi conquistando cantos e recantos na decorrência dos dias, feita de livros repletos de palavras adormecidas no leito da escrita, elas que, de sonhadas pelos seus autores, terão sido para mim, nalgum dia, nalguma ocasião, palavras sonhadoras a alargar os horizontes do meu mundo, da minha compreensão, e do encontro com os seres humanos de hoje, ou de outrora, de outras eras, próximas ou bem longínquas. Enfim, também foram elas que me ensinaram a ser. Encontramo-nos em tempo de feiras do livro. Tenho saudades delas. Daqueles finais de Maio, quando, em Lisboa, a poética dos jacarandás floridos parecia fazer concorrência à escrita, lida ou conversada, dos livros expostos no parque, transformado em aldeia de palavras, arrumadas em casinhas de madeira. Por imposição da pandemia, este ano, como no ano anterior, a Feira do Livro de Lisboa, transferida para finais de Agosto, já não será envolvida pelo azul dos jacarandás. Também tenho saudades deles. A minha Feira do Livro de Lisboa fará sempre memória do mês de Maio e dos jacarandás que a enfeitavam.No passado dia dois, o jornal “Público” ocupava duas páginas com um artigo de Pedro Rios sobre o intelectual Frédéric Lenoir a propósito do seu recente livro publicado em França no ano transacto e editado em Portugal no passado mês de Fevereriro. «Viver num mundo imprevisível» é o título. Para além de o saber como director da revista “Le Monde des Religions”, pouca informação possuía sobre o filósofo, sociólogo e historiador das religiões, que é Frédéric Lenoir. Aquele texto jornalístico avivou a minha memória. De facto, há uns anos havia adquirido, creio que na Feira do Livro de Lisboa, uma obra sua. “Cristo filósofo”, assim se intitulava e - lembro-me agora - o título chamara-me particularmente a atenção. Na altura trouxe à memória as múltiplas referências a Jesus Cristo de filósofos da Idade Contemporânea, desde Kant e o chamado idealismo alemão até a filósofos mais recentes como Emmanuel. Levinas, Hannah. Arendt, Simone Weil ou Paul Ricoeur, passando pelas múltiplas correntes de pensamento, que proliferaram no século passado. Mas não consegui encontrar nenhum que alguma vez tenha utilizado a expressão “Cristo filósofo” e, muito menos, a titular um livro. A curiosidade, que então o livro me despertou, diluiu-se, depois, e ficou esquecido entre outros a aguardar, silencioso, o tempo para poder falar. E ele chegou, finalmente, pelas letras de um jornal. Fiquei agora fiquei a saber que Lenoir encontrou a expressão «filosofia de Cristo» na obra de Erasmo.A edição portuguesa é de 2008. Abre com um Prólogo iniciado com a lenda do Grande Inquisidor de Dostoiévski e termina com um Epílogo apresentado pela narrativa do encontro de Jesus com a Mulher Samaritana. Pelo meio sete interessantes capítulos onde vão sendo trazidas à luz as suas teses sobre a figura de Jesus Cristo centradas no seu «ensinamento ético de alcance universal: a não violência, a igualdade de todos os seres humanos, a justiça e a partilha, o primado do indivíduo sobre o grupo e a importância da sua liberdade de escolha, a separação do político e do religioso, o amor pelo próximo, indo até ao perdão e ao amor pelos inimigos.». Inscrevendo-se embora este ensinamento numa perspectiva transcendente porque se funda sobre a revelação de um Deus de amor, Lenoir pôde ressaltar que «Não deixa de ser verdade que ele se inscreve igualmente numa profunda racionalidade» própria da Filosofia. Por isso «Esta mensagem ética é uma verdadeira sabedoria, no sentido em que esta era entendida pelos filósofos gregos.» Consequentemente, embora Cristo seja para os crentes o Filho de Deus, «será ele também simultaneamente um profeta judeu, um taumaturgo e um grande sábio da linhagem de Buda e de Sócrates.» Perguntando-se pelo «futuro do Cristianismo no Ocidente», Lenoir, mesmo a terminar o livro, pôde escrever: «A revolução trazida pela filosofia de Cristo criou uma verdadeira onda de choque na história humana. Todavia, ela ainda permanece, sem dúvida, largamente por vir, de tal forma os grandes princípios éticos de dignidade, de igualdade e de humanidade continuam a ser muitas vezes palavras vãs.» E cita, de seguida, o crente do século XIX, Victor Hugo: «a santa lei de Cristo governa a nossa civilização, mas ainda não consegue penetrá-la.»Sim, já adquiri o recente livro de Frédéric Lenoir, «Viver num mundo imprevisível». Foi concebido, escreve, «como um manual de sobrevivência e de crescimento interior», ou uma espécie de «manual de resiliência» para os tempos dolorosos que vivemos. Escrevera-o convicto de que a crise pandémica poderá ser uma boa oportunidade para encontrarmos a resposta a uma pergunta vital do tempo presente: «enquanto esperamos que o mundo mude, como podemos nós próprios mudar ou transformar o nosso olhar para nos adaptarmos o mais positivamente possível a uma realidade que nos desestabiliza?»«Já leu estes livros todos?», perguntava o agente empresarial. Os livros poderão estar numa biblioteca a chamar pelo leitor, mas, sobremaneira, importará saber cada um ler a sua realidade íntima e a realidade de um «mundo imprevisível» que sempre constitui a nossa circunstância por mais que julguemos poder, em absoluto, controlá-la.Tenho na memória a imagem dos jacarandás floridos de Lisboa. São também eles que embelezam a minha biblioteca neste Maio sem Feira do Livro.Guarda, 14 de Maio de 2021