Passou-se há uns tempos num parque de estacionamento subterrâneo de um centro comercial.

Estacionado o automóvel, dirigia-me para o elevador que me levaria a um piso superior. Uns metros à frente, um cavalheiro estacionara também o seu e iniciara também uma marcha muito lenta em direcção ao elevador. Em voz alta, ia falando consigo mesmo, como que resmungando a amaldiçoar o chão que pisava. Procurando manter uma distância de respeito, eu retardei o passo para ele poder afastar-se em paz sem dar pela minha presença. Num repente, pára e olha na direcção do seu carro. Foi então que, claramente, o ouvi exclamar, enquanto abanava a cabeça:
- Isto é que eu sou um burro!
De momento abrandei ainda mais o passo. Depois parei mesmo, para que, caso me visse, não lhe criasse constrangimento algum. Mas logo repetiu:
- Isto é que eu sou um burro! – E deu mais um passo.
Caindo em si, parou e olhou em todas as direcções: à esquerda, à direita e para trás. Foi então que deu pela minha presença. Um pouco envergonhado, terá sentido que deveria dar uma explicação. E deu, mas repetindo a frase.
- Isto é o que eu sou: um burro! Veja bem: então não é que raspei com o meu carro na mesma coluna, onde já tinha raspado uma vez! Na mesma coluna! Pela segunda vez! Sou mesmo um burro! – Realçava, muito zangado consigo, como que dando vida ao adágio latino «Neque me patiar / iterum ad unum scopulum», que é como quem diz «Não suportarei tropeçar duas vezes no mesmo escolho».
Tentei animá-lo, dizendo que essas coisas acontecem a muito boa gente, ali ou em sítios semelhantes. Ele, porém, ripostou:
- Pois, poderá ser. Mas aqui o burro sou eu! Um grande burro é o que eu sou! Raspar o carro duas vezes na mesma coluna! Não tenho desculpa!
Não me atrevi a acrescentar um novo argumento, até porque, entretanto, nos cruzámos com outros utentes do parque. Entrámos no elevador, onde já havia mais gente e foi cada um ao seu destino.
Acredito que ficaria ainda mais zangado consigo se conhecesse (ou conheceria?) o outro ditado latino: «Asinus ad lapidem non bis offendit eundem». Traduzindo: «Um burro não tropeça duas vezes na mesma pedra». É que se é assim, o que se poderá chamar a quem tropeça não uma, mas duas vezes na mesma pedra? E a quem tropeça nela muitas vezes?
Já passaram uns meses e hoje, quando passo pelo mesmo lugar, lá me vem frequentemente a memória da cena e a lembrança de como muitas vezes vamos repetindo na vida os mesmos erros a contrariar o ditado português: «À primeira qualquer cai; à segunda só cai quem quer». Ou, se queremos, então tanto pior.
Outras línguas terão também adágios semelhantes. Muitos terão origem incerta, mas outros provêm de escritores clássicos. Estou a pensar em Cícero que escreve «Cuiusvis hominis est errare, nullius nisi insipientis perseverare in errore» («É próprio do homem errar, mas é só do insensato perseverar no erro»). Outro, de origem incerta, diz: «Lapsus semel fit culpa si iterum cecideris» («Se caíres uma vez, a culpa é tua se caíres novamente»).
Santo Agostinho é ainda mais radical quando, transformando o «insensato» em «diabólico» escreve num dos sermões: «Errare humanum est, perseverare autem diabolicum» («Errar é humano mas perseverar no erro é diabólico»), ideia que haviam de retomar depois outros escritores cristãos.
Claro que há muitas espécies de pedras em que podemos tropeçar. Há erros e erros que podemos cometer, como há ciladas e ciladas em que podemos cair, tal como há culpa e culpa que possamos ter. Cícero sabia-o bem e por isso também escreveu: «Primo quidem decipi incommodum est, iterum stultum, tertio turpe». Traduzindo: «Deixar-se enganar uma vez é desagradável, duas vezes é insensato e três vezes é torpe». Aqui já não se trata de simples erro, mas da ingenuidade com que nos deixamos enganar com as artimanhas de outro.
Basta de tiradas que o meu professor de Latim nos atirava com frequência, quando incidíamos repetidamente nos mesmos erros. Independentemente de qualquer rigor na tradução, cair duas ou mais vezes na mesma «pedra», conforme os adágios latinos, passa pela insensatez, pela vergonha, pela culpa, pela burrice, pelo peso do erro ou pela torpeza.
Se nos colocássemos numa perspectiva do Evangelho, lá estará Pedro a «chorar amargamente» a sua culpa depois de cair três vezes, mesmo depois de ser sido bem avisado pelo Mestre.
Se nos colocássemos numa perspectiva sacramental, lá está o sacramento do arrependimento e do perdão para as «setenta vezes sete» que o homem cai por dia.
Se nos colocássemos na perspectiva política… Bem, aí até parece que raramente alguém tropeça nas pedras. Aí, não havendo erros nem quedas, não há insensatez, nem torpeza, nem culpa, nem vergonha. Um paraíso na terra!
Sejamos agora positivos, porque a repetição de coisas boas tem um sabor especial. Todos o sabemos e todos encontramos facilmente exemplos da nossa vida diária. De ontem e de hoje. Até nas coisas mais simples. Assim as soubéssemos sempre saborear! «Repetita juvant», isto é, «as coisas repetidas agradam», diz também a tradição latina para significar a vontade e a necessidade das repetições ou o sabor que possui a repetição de uma experiência agradável.
Também nisto as crianças nos podem dar uma singela lição. Elas ouvem uma história e querem voltar a ouvi-la sempre mais vezes do que uma ou três. É a pura felicidade do encanto da repetição das coisas belas. O Evangelho não o diz, mas Jesus, com sábia pedagogia, terá contado uma, duas ou três vezes, muitas vezes, uma linda história quando, para surpresa dos discípulos, ordena: «Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino do céu». Imaginar essa linda história talvez possa ser um acto da melhor oração pessoal.
Estamos no tempo do Advento, no início de mais um ano litúrgico. Aguardamos o Natal do Menino que «nos foi dado». Em breve Ele vai novamente nascer e nos estenderá os braços a chamar-nos para choupana onde brilha a Estrela dos Magos e se ouvem os Anjos cantar o seu musical de Glória. Isto é o que eu sou: eterno ouvinte da música de Belém. Verdadeiramente «Repetita juvant».
Guarda, 28 de Novembro de 2019