Individualismo, solidariedade, comunidade

Com um tom crítico, é vulgar dizer-se que a sociedade actual, pelo menos no chamado Ocidente, se caracteriza, entre outras coisas, por um individualismo notório. Teólogos, filósofos, sociólogos, psicólogos e quejandos, parecem afinar pelo mesmo diapasão. Respira-se, diz-se, um individualismo manifesto nas sociedades do Ocidente. Também não deixa de ser verdade que a palavra «solidariedade» enche o nosso dia-a-dia: da religião à política, da vida pessoal à vida das instituições. A palavra «solidariedade» encontra-se institucionalizada pela lei, incluindo a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (Art.º 27.º a 38.º) e a Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos (Art.º 13.º). Há ministérios da solidariedade e são muitas as instituições particulares de solidariedade social no país e no mundo. O calendário até lhe dedica um dia: 20 de Dezembro, proclamado pela Assembleia Geral da ONU em 22 de Dezembro de 2005, cuja resolução descreve a “solidariedade” como um dos valores fundamentais e universais do século XXI. Com tal proclama-se um desejo, um apelo ou uma realidade?Para além da solidariedade formal, instituída ou institucional, por onde anda a solidariedade humana se tanto se fala do individualismo contemporâneo?A situação é particularmente contrastante na ocorrência de catástrofes: incêndios, terramotos, inundações, tufões, naufrágios, guerras. Nessas ocasiões, a solidariedade parece despertar da sonolência usual e emergem cadeias solidárias múltiplas de todos os géneros: de contas bancárias a vestuário, de medicamentos a géneros alimentícios, de campanhas e manifestações de rua até ao simples minuto de silêncio num qualquer estádio de futebol, não faltando cadeias de oração, comunitárias ou realizadas no silêncio íntimo de cada um. Naquelas ocasiões trágicas parece evidenciar-se a força da solidariedade na vida das nossas sociedades a contrariar toda a linha de pensamento que chama individualista ao ser humano actual. Terá, então, fundamento perguntar: vivemos num mundo de seres individualistas ou de pessoas solidárias? Não sei se terá sentido a disjuntiva. Talvez o individualismo nem sempre se oponha à solidariedade e talvez os actos solidários não sejam sempre expressão de “sólida solidariedade”. Poderá haver várias formas de individualismo como haverá também formas várias de solidariedade. Deixemos tão complexa problemática. A raiz da palavra «solidariedade» encontra-se no termo latino «solidus», que (será preciso traduzir?) significa “sólido”, “consistente”. Do ponto de vista linguístico parece evidente a redundância da expressão «sólida solidariedade» utilizada acima. Mas talvez não seja tão redundante do ponto de vista pragmático, social ou moral. Da mesma raiz do adjectivo latino «solidus» deriva o substantivo «solum» que significa “solo”, “fundamento”, “apoio”. Daí também o verbo “consolidar» a significar a acção de dar fundamento, apoio, solo e alicerce a uma realidade. Exercer solidariedade não consiste numa mera cooperação mecânica de uma qualquer engrenagem social ou laboral. Um ministro da solidariedade não é necessariamente um exemplo de humana solidariedade se a sua acção governativa for somente orientada pela fidelidade partidária, pela conquista de votos numa qualquer eleição ou por uma qualquer vontade exacerbada de poder. Creio que a expressão «sólida solidariedade» não é pura redundância na nossa sociedade. Ela pretende expressar a necessidade de vislumbrar a autêntica solidariedade humana para além da solidariedade institucional e política que facilmente pode redundar num individualismo centrado na cultura do eu alheia ao bem e à consolidação de uma comunidade humana, enquanto humana.Assim se exprime Vasco Pinto de Magalhães: «Hoje o paradigma é o individuo. E isto tem implicações enormes nas nossas vidas e penso que ainda não tomámos bem consciência disso, porque já não somos capazes de pensar em termos de comunidade, pensamos apenas em termos de indivíduos: conta, sobretudo, a nossa realização individual. Mesmo na solidariedade, sou eu que sou solidário. Este paradigma está-nos a dominar em imensas coisas, porque acabamos por ter tempo só para nós (para o nosso ego), esquecendo ou passando por cima das necessidades da comunidade a que pertencemos. Faço o bem pelo outro ou porque me faz bem?»A pandemia que estamos a viver pode também ser uma oportunidade para despertarmos do sono do nosso individualismo costumeiro e descobrirmos o sentido de comunidade. O regresso a casa que nos é imposto talvez possa ser um refúgio que nos é oferecido para abrirmos as janelas da casa da nossa morada interior, onde tantas vezes nos entrincheiramos e, num esforço de compreensão da comunidade em que vivemos, procedermos a uma espécie de “revisão de vida”. Aqui é o grego que nos pode abrir uma porta. A palavra «pandemia» resulta da junção de duas palavras gregas: “pan” (todo, tudo) e “demos” (povo). Uma realidade pandémica é, pois, uma realidade que diz respeito a «todo o povo», ao universo dos humanos. Um vírus maligno pandémico tornou-se um “pandemónio” [“pan” + “daímon” (entidade malévola, demónio)] para a tranquilidade existencial em que vivemos e deu-nos o “panorama” - [“pan” + “orama” (vista)] - das fraquezas e da fragilidade da nossa existência, pessoal e colectiva, transformada, quantas vezes, num “panteão” [“pan” + “théos” (Deus)] de endeusamentos individuais. Mas a pandemia poderá também dar-nos, como se vai constatando nesta hora trágica, a redescoberta do “panorama” da essência da solidariedade individual centrada na comunidade. Este momento pandémico bem pode evidenciar o superior encontro entre a Lei Divina e a Lei Natural e o que deverá ser a base da Lei Positiva das sociedades: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 39). Neste momento dramático da globalização de um mal físico - já muitos o disseram - quanto melhor se cuidar cada um a si mesmo, melhor cuidará de toda a comunidade. Ou, por outras palavras, quanto mais verdadeiramente se amar cada um a si mesmo, mais verdadeiramente amará o próximo. A cultura do eu, num superior individualismo, é uma superior cultura da comunidade solidária. Ou, aplicando, aqui e agora, uma máxima filosófica clássica, «o bem é difusivo». Dito em termos do momento, o bem é contagioso. Os exemplos já andam por aí a suster o mal e a alimentar a nossa vida. Todos os conhecemos ou deles nos dão ressonância os meios de comunicação social. É a energia da criatividade ao serviço do bem e da comunidade solidária.Creio, assim, que a pandemia do bem já começou. Bem hajam os de além e bem hajam os de aquém. Bem hajamos todos na construção da comunidade humana, fundada em «sólida solidariedade». Encha-se de luz cada uma das nossas casas onde nos recolhemos, e abramos as janelas para comungar com todos aqueles que, na linha da frente, olham incessantemente por nós e esperam o nosso cuidado.Guarda, Festa de S. José, Dia do Pai, 19 de Março de 2020.