Lembro-me bem dos meus tempos de rapaz, aluno da Escola Primária do Asilo da Guarda (uma escola pública, para rapazes e meninas mas … em salas separadas…).

Volta e meia, a uma provocação, real ou inventada, lá se atiravam dois gaiatos engalfinhados, rebolando pelo chão. E lá ia o murro e lá vinha o pontapé, e mais o puxão dos cabelos e os dedos fincados no nariz até que aquele que se julgava mais forte, berrava: “ Rendes-te?”. Por brio ou porque entendia que ainda tinha hipóteses, o outro recusava “heroicamente” – e a refrega prosseguia. À volta, os outros rapazes formavam o habitual círculo misto de árbitros e apoiantes que constituía a banda sonora destas cenas. De longe, as meninas miravam e “enterneciam-se” com a pujança viril dos seus companheiros “do outro lado” – até que se ouvia o berro surdo do “rendo-me”, ou, lá aparecia um terceiro, em regra um adulto, professor ou professora, a pôr ordem no quartel, e uns respiravam, dois resfolegavam e os restantes abandonavam a “galeria” mastigando comentários e dichotes… (as meninas também apreciavam, mas calavam e dispersavam em boa ordem).
Contei esta história, que todos reconhecerão, a título de parábola para concluir que, para qualquer conflito, seja ele brincando entre crianças ou à séria, entre homens de barba na cara e uma arma nas mãos, há duas formas clássicas de acabar com ele: ou através da supremacia de uma das partes , vitoriosa pela força - e aí temos a capitulação traduzida numa rendição mais ou menos vexatória da outra parte – ou através da mediação, também ela mais ou menos musculada, de um terceiro ator ou poder, que consiga o fim das hostilidades e um assentar confiável à mesa das negociações.
E – infelizmente, direi eu – temos hoje um exemplo nítido e em escala infernal de um desses casos: a guerra (qual “operação especial” qual nada!!) gerada pela invasão da Ucrânia pela Rússia.
Nela, houve uma última grande iniciativa devida a terceiros, com a abertura de um corredor humanitário que permitisse a evacuação de civis encurralados na grande metalúrgica de Azovstal, a última bolsa de resistência ucraniana em Mariupol. Foi ela desencadeada pelo Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. Em Moscovo, Guterres terá sido claro nas palavras que dirigiu quer ao Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, quer, em seguida, ao próprio Putin, numa tal “diplomacia escondida” que parece servir bem os interesses atuais no terreno.
Uma nota, a propósito: se dúvidas houvesse sobre o incómodo dos chefes russos perante a importância a postura escolhida pelo Secretário-Geral da ONU, basta recordar os mísseis que as forças invasoras lançaram sobre Kiev, no dia da reunião de Guterres com o Presidente Zelensky (um dos quais atingiu um edifício civil situado a cerca de 5 quilómetros do local onde a reunião acabara de terminar). Aliás, numa mesma linha de ação, também haveriam de ser lançados mísseis de cruzeiro contra Odessa quando estava a decorrer uma visita de trabalho à Ucrânia por parte de Charles Michel. Assim deixaram os russos mais uma vez a marca da intolerância e do desrespeito pela primeira figura da ONU e pelo Presidente do Conselho das Nações Unidas, numa triste coerência com as antecedentes posições de violação da Carta das Nações Unidas. Assim sendo, qual a margem de manobra da ONU e do seu Secretário-Geral, quando a Rússia tem poder de veto nas deliberações do Conselho de Segurança? Que, aliás, ignoram soberanamente nas suas determinações porque só reconhecem a lei da força. Razão por que intensificaram o poder de fogo sobre o Leste, o Sul, mas também outras zonas da Ucrânia, com rajadas mais cerradas, continuadas e destrutivas. Várias cidades ucranianas foram atingidas pelos mísseis russos, que prosseguem com redobrado vigor bélico o ataque ao Leste e ao Sul, procurando ligá-los numa ampla faixa territorial que controlem e que corte, com a tomada de Odessa, a comunicação da Ucrânia com o mar.
Por outro lado, e perdoe-se-me o plebeísmo, foi certamente para dar “uma no prego e outra na ferradura” que a Rússia ordenou o cessar-fogo no complexo metalúrgico de Azovestal, por forma a permitir a evacuação dos civis, entre os quais cerca de 30 crianças, ainda encarcerados nos túneis subterrâneos onde restam agora, numa resistência sem amanhã, tropas pró-ucranianas do Batalhão AZOV. E falamos numa “resistência sem amanhã” porque a situação destes militares que ainda combatem em Azovestal se revela um caso sem solução. Porque são militares, integrando uma unidade tida, pelos russos, como neo-nazi, porque recusam a rendição e estão encurralados, sem que os ucranianos revelem ter capacidade ou meios militares para lhes acudirem. O seu destino parece estar traçado e tudo aponta que consistirá no seu total aniquilamento. Seria, aliás, um objetivo importante a concretizar para “festejar”, no passado dia 9, o “dia da Vitória” da ex-URSS contra as tropas nazis de Hitler na II Grande Guerra. À falta de outros sucessos nesta guerra, bombardearam neste mesmo dia, em Lubansk, uma escola onde se abrigavam cerca de seis dezenas de civis. Não há sobreviventes, nem pedra sobre pedra…
Como disse a Embaixadora americana junto da ONU, no seu discurso do “Dia da Vitória”, Putin não anunciou vitórias, porque não as teve, resultando como provável das suas palavras que a guerra está para continuar e se prolongar no tempo, até que elas cheguem (ou não).
Entretanto, nós por cá (riam-se!) soubemos que, na C.M. de Setúbal, os refugiados ucranianos foram recebidos por russos afetos ao Kremlin. Diligentemente, mas de forma grosseiramente ilícita, trataram de recolher aos refugiados dados pessoais que encaminharam para destino desconhecido ou ainda não divulgado. Em face das ligações a Putin dos russos encarregados desta benemérita missão e pelo exemplo da CML, fazemos uma pequena ideia quanto ao “para onde”… O que é que as nossas autoridades responsáveis por estes assuntos têm na cabeça? Onde o senso, a prudência, a desconfiança, a solicitude, a sensibilidade, a seriedade, para tratar um assunto tão complexo e de tanto melindre quanto este? É que nisto não se improvisa!!!
E retomemos Severiano Teixeira no acima dito e que, agora, formula a seguinte questão: “Como poderá acabar a guerra de Putin contra a Ucrânia? Não sabemos. Nem os modelos históricos nos dizem com precisão. Mas podem dar-nos o quadro das possibilidades”.
Assim, porque, apesar das profecias iniciais, “ainda nem a Rússia ganhou a guerra nem a Ucrânia a perdeu”, temo que, colhendo na História exemplos centenares, possamos ser forçados a aceitá-la como uma espécie de “guerra larvar”, tragicamente endémica e parasitária, dada a geoestratégia e o génio dos povos… Só que com um pequeno-astronómico “senão” global: e o ódio que se ateou, e o risco a fogo que se desenhou esfacelando um território com corpo e alma de nação? E os milhões de ucranianos chorando pelo mundo fora a sua patria, si bella e perduta, como os escravos hebreus no célebre hino de Verdi?
Lisboa, 9 de maio de 2022