Quando voltar à Beira, já não encontrarei as mulheres da minha infância.

No meu imaginário de criança, pensava que o mundo tinha sido criado pelas mãos poderosas das mulheres. Impressionava-me a habilidade dos seus gestos precisos ao abrirem os sulcos da terra que cultivavam todos os dias. Teciam-nos a trama das palavras que nos faziam sonhar. Alimentavam-nos com contos do papão que vigiava detrás da porta e embalavam-nos com melódicas canções antes de apagarem a luz que só veríamos no dia seguinte. Durante a noite sonhávamos com elas e enchíamo-nos de pavor, ao pensar que um dia poderiam separar-se de nós.Certamente, essas mulheres estavam ali desde o nascimento da primeira estrela. Situavam-se fora do tempo e do espaço. Nunca teriam conhecido o céu nem o inferno. Os seus olhos viram tudo e ficaram indiferentes perante o bem e o mal. Solitárias assistiram à morte de seus filhos e ouviu-se sempre o grito lancinante que a todos arrepiava quando o caixão descia à terra fria para nunca mais o poderem ver. Silenciosas, percebiam o mais profundo dos nossos pensamentos. Principiávamos uma frase e eram elas que a terminavam. E tudo batia certo.Desconheciam que eram o prazer dos homens e nem sequer sabiam que os filhos chegavam, se Deus quisesse, como os cabritos, todos os anos, pela primavera.Quem não se lembra ainda destas mulheres que, diríamos hoje, parece terem surgido da noite para afrontar a imortalidade? Elas fazem parte da nossa história e das nossas vidas. Todas elas poderiam ter sido as nossas mães. Muitas vestiam-se de preto: havia sempre uma razão para se confundirem com a cor da noite cerrada, nem que mais não fosse para assinalarem a indisponibilidade para com os outros homens, ou para exibirem a fidelidade indefetível à morte do marido, ou à sua ausência temporária provocada pela emigração. Quem não as viu rezar pelos seus fiéis defuntos, pedir lume à vizinha ou, encostadas à parede branca nas tardes cálidas de um agosto seco, a fazer uns peúgos para o netinho mais novo? Elas lavavam a roupa na água corrente da ribeira, iam buscar água à fonte de bruços com um pesado cântaro de barro, cheiravam a caldo de beldroegas ou a azeitonas da talha, mas também a mentrasto ou a manjerico, e a rosmaninho, na altura do São João.No domingo de manhã, mudavam de roupa depois de se terem lavado ao lado do quarto onde tinham dormido e colocavam o véu e a mantilha preta que tiravam do baú a cheirar a lavanda para irem à missa, na companhia das filhas. Outras iriam ao mercado mais próximo vender as batatas ou as maçãs que estavam resguardadas debaixo da palha ou do feno. As mais abastadas vendiam os queijos cujo leite conseguiam tirar às crias que iriam mais tarde vender à feira de São Mateus, lá para o mês de Setembro.Todas estas nossas mulheres movem-se agora nos meandros da eternidade. Mas estas mulheres – que em criança tinha a certeza de terem sido as criadoras do céu e da terra – foram também as nossas mães!